Dublê de Corpo

[rating:3.5]

Durante o período inicial de sua carreira, o diretor norte-americano Brian De Palma se notabilizou por prestar homenagens tão intensas e embevecidas aos filmes de Alfred Hitchcock que se aproximava perigosamente do plágio puro e simples. Aos poucos, De Palma foi refinando um estilo pessoal, que culminou com o excelente gangster movie “Os Intocáveis” (1987). Um pouco antes, ele tinha realizado um de seus melhores trabalhos com Hitchcock como referência, com o thriller “Dublê de Corpo” (Body Double, EUA, 1984). Trata-se da mais explícita compilação de citações ao trabalho do mestre do suspense jamais realizada por um cineasta.

Para muita gente, parecia que o diretor de “Carrie – A Estranha” estava se repetindo. Em 1980, apenas quatro antes, ele já havia citado incansavelmente o clássico “Psicose” (1960) no bom “Vestida para Matar”. Agora, fazia um mix generoso de duas outras obras geniais do mestre do suspense. O que muita gente não viu é que De Palma estava, também consolidando características próprias, como a exploração da sexualidade feminina até o limite do que a censura nos EUA permite. O fato é que “Dublê de Corpo” reúne elementos de “Janela Indiscreta” (1954) e “Um Corpo que Cai” (1958) em um coquetel desencanado de cultura pop que, para usar as palavras de Hitchcock, não são e nem querem ser uma fatia de vida, e sim chocolate – ou seja, puro deleite cinematográfico.

A história acompanha o ator medíocre Jack Scully (Craig Wasson), um típico protagonista de Hitchcock: homem comum, banal, dono de uma ingenuidade inata que o transforma em vítima potencial de gente mais esperta (e sem escrúpulos) do que ele. Como James Stewart em “Um Corpo que Cai”, Scully tem uma séria fobia – de lugares fechados. O medo o faz perder o emprego e, em duplo golpe de má sorte, também a namorada. Ele recebe então uma oferta para cuidar de um apartamento luxuoso na ausência do dono, e se torna obcecado pela vizinha do apartamento da frente (Deborah Shelton), uma gostosa que curte dançar pelada quando está sozinha. Um potente telescópio transforma Scully num voyeur.

Não é preciso ser nenhum expert em cinema para reconhecer, tanto no enredo quanto no comportamento dos personagens, a forte influência das duas obras-primas hitchcockianas já citadas. Aí entra na história o elemento “crime”: Scully descobre que existe outro voyeur observando a vizinha, mas o sujeito parece não ter boas intenções. O rolo evolui rapidamente para um crime, e de repente Scully está sendo caçado pela polícia. Para desvendar o caso complicado, ele vai precisar fazer uma incursão perigosa pelo submundo do cinema pornô, onde conhecerá a estrela Holly Body (Melanie Griffith).

Só o trocadilho esperto com o nome da personagem já valeria o filme, mas “Dublê de Corpo” traz o melhor de Brian De Palma: seqüências de perseguição coreografadas impecavelmente, trabalho de câmera cheio de estilo, reviravoltas imprevisíveis no roteiro. É verdade que o elenco não é um ponto forte, mas até nos erros o cineasta acerta – Craig Wasson é um ator inexpressivo, mas como interpreta exatamente um personagem assim, acaba caindo como uma luva no papel. No todo, dentro da filmografia de De Palma, “Dublê de Corpo” não ocupa as colocações mais altas, mas tampouco está perto de ser uma decepção.

O DVD brasileiro é da Columbia e não traz extras, além de um trailer. O filme está com imagem na proporção correta (widescreen 1.85:1 anamórfica) e tem som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Dublê de Corpo (Body Double, EUA, 1984)
Direção: Brian De Palma
Elenco: Melanie Griffith, Craig Wasson, Deborah Shelton, Gregg Henry
Duração: 114 minutos

3 comentários em “Dublê de Corpo

  1. Olá, Rodrigo, beleza?

    Cara, devo alertá-lo que houve um deslize temporal seu ao colocar OS INTOCÁVEIS como ANTERIOR ao DUBLÊ DE CORPO. Os Intocáveis é de 1987, logo, ele veio depois e, LOGO, não havia como alguns acharem que ele estava dando um passo atrás ao filmar, na seqüência, o thriller Dublê de Corpo – palavras suas no primeiro parágrafo.

    Agora, só um devaneio de papo de bar pra colocar na mesa:
    – O que você acha das 6 indicações ao troféu Framboesa que o Brian de Palma recebeu? Exagero? “Perseguição” da academia? Se for perseguição, a que se deveria?

    Me pergunto, às vezes, por que tantos framboesas pro cara….
    ???

    Está longe de ser um gênio, mas também, está a léguas de ser considerado um tapado…

    Abraço Rodrigo e fico no aguardo por sua resposta! 😉

    Curtir

  2. De fato. Por alguma razão, achei que “Os Intocáveis” era de 1983. Vou corrigir.

    Quanto ao Framboesa, acho um exagero sim. O filme dele não é dos melhores, mas não chega a ser ruim. Tenho impressão de que cutuca com vara curta um aspecto cultural que os americanos não gostam muito de mexer, que é o patriotismo/ufanismo exacerbado.

    Curtir

  3. Olá, Rodrigo!

    Devo dizer que concordo com o que vc disse sobre o De Palma no sentido cultural, pois o cineasta é um grande crítico da cultura cinematográfica americana. Inclusive já vi uma crítica dizendo que não era a toa que o Brian De Palma tivesse nascido em 11 de Setembro.

    Quanto ao “Dublê de Corpo”, acho o filme simplesmente genial por diverso aspectos, não só pelas claras homenagens a Hitchcock – a melhor delas, o beijo que recria a cena de James Stewart e Kim Novak – mas pela obsessão presente em toda obra do diretor em provar que as imagens existem para mentir e enganar o espectador. A todo momento, De Palma está tentado provar isso. Veja as tomadas iniciais do próprio “Dublê de Corpo” e “Um Tiro na Noite”, bem como o sempre presente sentido onírico das imagens (vide “Vestida Para Matar” e “Femme Fatale”). É como se o cineasta estive pedindo para o espectador acordar do sonho em que o cinema o colocou.

    Concordo também com o que foi dito na crítica sua de “Vestida Para Matar”, pois além de Hitchcock, Dario Argento é muito importante na obra de De Palma. Além também do fato de Brian De Palma realmente não ser lembrado pelo público e pela crítica. É uma lástima e uma injustiça, pois eu o considero um dos mais autorais e geniais cineastas americanos da atualidade e sua obra emergiu – poucos falam isso – durante a década de 70, quando inúmeros gênios norte-americanos também surgiram. Vida longa a De Palma!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s