Los Angeles – Cidade Proibida

[rating:5]

O sucesso avassalador de “Titanic”, durante a temporada cinematográfica de 1997, empalideceu quase todas as demais produções lançadas naquele ano. Um dos filmes mais prejudicados pelo monopólio que Leonardo Di Caprio exerceu nas salas de cinema foi “Los Angeles – Cidade Proibida” (L.A. Confidential, EUA, 1997), a mais inteligente e bem sucedida homenagem ao gênero noir surgida em Hollywood nos anos 1990. O filme de Curtis Hanson é uma pérola perfeita, um thriller intrincado narrado com elegância, cinismo e sofisticação, que expõe a degradação moral de uma cidade cheia de luxo e perita em varrer o lixo para baixo do tapete.

Na época do lançamento original, “Los Angeles – Cidade Proibida” chamou a atenção sobretudo por levar a assinatura de um cineasta veterano mas obscuro. Pouca gente conhecia Curtis Hanson, autor de produções B do gênero policial (“Uma Janela Suspeita”) e diretor de aluguel para grandes estúdios. No entanto, o trabalho de Hanson na tarefa de transformar o romance do escritor James Ellroy em filme foi duplamente magistral. O cineasta foi o responsável pela decisão mais importante do projeto: jogar fora pelo menos seis subtramas do livro – um calhamaço com duas dúzias de personagens – e concentrar a história em três investigações paralelas, conduzidas por detetives diferentes, que aos poucos convergem para um só caso.

Sem pressa, Curtis Hanson gasta bastante tempo apresentando os personagens e definindo as relações entre eles, mas mantém a história avançando firmemente em uma narrativa limpa e elegante, de forma que o espectador nunca se perde nos meandros complicados da trama. Os protagonistas são três detetives do Departamento de Polícia de Los Angeles, homens bem diferentes entre si, com personalidades desenvolvidas magnificamente pelo filme. Além deles, há pelo menos uma dúzia de personagens que desempenham papéis importantes na história intrincada, cheia de detalhes misteriosos e cadáveres inesperados.

“Los Angeles – Cidade Proibida” é narrado do ponto de vista do jovem e ambicioso detetive Ed Exley (Guy Pearce). Enquanto investiga uma chacina cometida num restaurante, o caminho dele cruza com investigações paralelas desenvolvidas por dois outros detetives: o detetive-celebridade Jack Vincennes (Kevin Spacey), consultor de um programa de TV que foi encarregado de desbaratar uma rede de prostituição de luxo, e o brutamontes Bud White (Russell Crowe), que faz trabalhos o trabalho sujo (leia-se torturar suspeitos) na delegacia e anda interessado em descobrir quem matou o ex-parceiro, assassinado na mesma chacina que Exley investiga.

Curtis Hanson define muito bem as personalidades de cada um, de forma que fique bem claro que eles não se bicam. Exley, um animal político com jogo de cintura e futuro promissor, não teme dedurar colegas para conseguir uma promoção. Já Vincennes, amoral, não dá muita bola para a polícia; está mais interessado em abrir espaço na indústria do cinema, onde há fama e fortuna. Bud White, por sua vez, possui uma obsessão, fruto de um trauma de infância: defender mulheres espancadas pelos maridos. Ele é fisicamente poderoso, mas não especialmente inteligente. Acima deles na hierarquia está o capitão Dudley Smith (James Cromwell), veterano com faro infalível para aproveitar o melhor de cada um.

Tendo nas mãos uma história brilhantemente sórdida e uma galeria de personagens não apenas interessantes, mas perfeitamente coerentes com a cidade – luxo na aparência, lixo no aspecto moral – que tenta radiografar, Curtis Hanson se limita a reger as inúmeras variáveis que compõem o todo, de forma a manter a harmonia do conjunto. Parece simples, mas não é – e no entanto tudo dá admiravelmente certo. A reconstituição de época é brilhante, a fotografia de Dante Spinotti encontra o jeito certo de transportar o mundo sombrio dos filmes noir para a película colorida, a trilha sonora de Jerry Goldsmith é deliciosamente jazzística, e todo o numeroso elenco encaixa perfeitamente nos papéis.

Como se não bastasse, há seqüências brilhantes a dar com o pau, incluindo momentos sexy e intimistas (o relacionamento entre Bud White e a prostituta Lynn Bracken, vivida por Kim Basinger), tensos e violentos (o confronto entre Exley e White no escritório) ou simplesmente cômicos (a engraçadíssima cena com Exley e Vincennes confrontando o gângster Johnny Stompanato e sua acompanhante em um restaurante), sem falar que o clímax é inesperado e, porém, totalmente coerente com as ações de cada personagem. No final, “Los Angeles – Cidade Proibida” lembra uma orquestra inspirada executando uma sinfonia complicada: todas as notas estão no devido lugar, a melodia flui naturalmente e sem esforço, e o filme desce redondo, sem transparecer o esforço hercúleo do diretor para realizá-lo. Muito bom.

O disco simples da Warner contém uma cópia ótima do longa, com imagem no formato correto (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som bacana (Dolby Digital 5.1). Entre os extras há um making of (19 minutos), um featurette que mostra um estudo fotográfico feito pelo diretor para a concepção visual do filme (8 minutos) e um segmento que visita as locações da Los Angeles fictícias do filme; este segmento é narrado pelo diretor e pode ser acessado através de um mapa interativo. Há ainda um trailer e três spots de TV. Infelizmente, nos extras não há legendas.

– Los Angeles – Cidade Proibida (LA Confidential, EUA, 1997)
Direção: Curtis Hanson
Elenco: Guy Pearce, Russell Crowe, Kevin Spacey, Kim Basinger
Duração: 138 minutos

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3 comentários em “Los Angeles – Cidade Proibida

  1. Rodrigo
    Vi esse filmaco no cinema ,um dos poucos que vi em Criciuma, desde que vim morar aqui no final dos anos 70,diferente de quando morava em Porto alegre nos anos 60 e 70 quando ia ao cinema direto varias vezes por semana assistindo muitas vezes ate cinco filmes por dia .Hoje como proprietario de locadora-Video Beta- desde 86 nao vou muito mais ao cinema e curto tudo agora em DVD( antes era em VHS).Mas vamos ao que interessa que e o filme Los Angeles – Cidade Proibida.O fato de ter lido algumas criticas positivas me deixou mais afim de ver o filme no cinema e tambem por ser baseado no livro de James Ellroy , porque pelo diretor Curtis Hanson eu nao apostava muito depois que ele dirigiu o fraco A Mao Que Balanca o Berco. Nesse ele acertou.O filme e uma obra-prima comparavel a outros do mesmo naipe, como Chinatown e Pacto de Sangue. Pra variar a tua critica esta perfeita e é maravilhosal, nao tem o que botar nem tirar , entao nao posso dizer mais nada sobre o filme-nem posso pois nao sou critico-a nao ser te parabenizar por elas serem inteligentes e claras e me abrem os olhos para as coisas mais profundas que eu (e os loucos por cinema) nao consigo perceber. Bom, entao compartilho contigo o prazer e a felicidade que este filme me proporcionou quando o assisti .Fico por aqui.Um Abraco . Sander

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  2. Grande filme. Acabei de assisti-lo. Impressionante a atuação de Guy Pearce e a humanidade que ele consegue dar para o seu personagem, que no início aparentava ser uma figura apenas unidemensional, sem escrúpulos. Sensacional. Kim Bassinger no papel de Lynn Bracken é o tipo de mulher que me atrai. Incrível o poder dessas fêmeas. Gostaria muito de em vez de ganhar o mundo ter a companhia de uma mulher como ela, rsrsrs. Um abraço!

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  3. Parabéns Rodrigo. Um grande filme merece uma grande crítica. Para mim esse filme é superior a Chinatown do Polanski. O azar que deu foi ter sido lançado no ano de Titanic. Como obra cinematográfica, é muito superior ao água com açúcar Titanic, que não passa de um blockbuster que é o que é devido a um poderoso marketing, nada além disso. Ao contrário de Titanic, Los Angeles só melhorou com o passar do tempo. Mais uma vez parabéns pela excelente crítica.

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