Chicago

[rating:2.5]

Está aí um filme que se encaixa perfeitamente num velho clichê, normalmente aplicado a obras polêmicas: ou você ama ou você odeia. É difícil ficar indiferente a “Chicago” (EUA, 2002), talvez devido à enorme exposição garantida ao filme pelo fato de ele ser, em princípio, um produto feito para consagrar o retorno dos velhos e amados musicais da era de ouro de Hollywood. A distância de alguns anos após o lançamento, no entanto, oferece o distanciamento necessário para avaliar o filme pelo que ele tem, em termos de qualidade cinematográfica: um produto bem feito, que soube filtrar idéias de obras mais ousadas e servi-las em um longa-metragem correto.

“Chicago”, que faturou seis Oscar (incluindo melhor filme) na cerimônia de 2003, é a estréia do diretor Rob Marshall, um dos bambas na área da coreografia cinematográfica, no comando de uma produção. Marshall buscou inspiração num antigo musical da Broadway, encenado pela primeira vez em 1975. Ambientado na época da Lei Seca (ou seja, a Chicago de Al Capone, por volta dos anos 1930), o longa-metragem bebe na fonte noir para construir um visual repleto de cores fortes, sombras e contrastes violentos.

Os méritos técnicos do filme são grandes. Toda a iluminação evoca o ambiente dos palcos da Broadway, com o uso abundante de néon e holofotes. Essa técnica faz com que o filme não tenha o ar realista, naturalista, da maior parte das produções de Hollywood, que buscam reproduzir a realidade com o máximo possível de fidelidade. Não. “Chicago” deseja ser um grande sonho multicolorido, e consegue esse objetivo com qualidade.

A história, em si, é uma grande brincadeira com a questão da manipulação da mídia, e de certa forma atira (ainda que sutilmente) na direção da própria Hollywood. O filme mostra como uma garota sonhadora e caipira, Roxie Hart (Renée Zellweger), consegue atingir o status de estrela sem fazer nada de especial para isso. Ou muito pelo contrário, já que Roxie está na cadeia, sob a acusação de assassinato.

Como ela consegue tal feito? Através da figura do advogado Billy Flynn (Richard Gere), um almofadinha que se orgulha de conseguir manipular os jornais com facilidade, criando e destruindo ídolos diariamente. O curioso é que a grande inspiração de Roxie, a estrela Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones, maior destaque do elenco, dançando como nunca e cantando a plenos pulmões), encontra-se na mesma prisão da novata. As duas se tornam grande rivais.

Não é uma história complicada de seguir, e o roteiro de Bill Condon (o diretor do ótimo “Kinsey – Vamos Falar de Sexo”) reserva para os atores diálogos deliciosos. O problema de “Chicago”, na verdade, é a falta de originalidade. O filme não tem cerimônia de beber diretamente da fonte de dois musicais contemporâneos que tiveram as mesmas idéias, só que antes: “Moulin Rouge”, de Baz Luhrmann (toda a parte visual hipercolorida, só que devidamente suavizada) e “Dançando no Escuro”, de Lars Von Trier (os números de dança integrados à narrativa).

Há uma cena em particular que ilustra essa falta de originalidade. É a primeira noite de Roxie Hart na prisão. Dentro da cela, a garota começa a escutar os ruídos da prisão e acaba encontrando um padrão rítmico nos sons, o que lhe permite “sonhar” com uma grande coreografia envolvendo as outras presas. O uso de ruídos de fundo para iniciar números de dança era uma das marcas registradas de Selma, a protagonista cega do filme de Von Trier. Sem vergonha de copiar, “Chicago” deu uma de Roxie Hart: reciclou e domesticou idéias contidas em filmes mais ousados, e foi por isso premiado com o Oscar.

Não é o caso de classificar “Chicago” como um filme fraco. A obra de Rob Marshall tem suas qualidade. Uma delas, no entanto, não é a originalidade. Se algum filme pode ser apontado como responsável por um suposto reerguer do musical como gênero fílmico, esse filme seria o já citado “Moulin Rouge”, muito mais antenado com a sua época do que “Chicago”.

A Imagem Filmes lançou o longa-metragem em duas edições diferentes. O disco simples tem imagem fullscren 4:3, áudio em Dolby Digital 5.1, e vem acompanhado por doze entrevistas do elenco e do diretor (15 minutos ao todo) e cenas de bastidores (26 minutos). O pacote duplo tem, no disco 1, o filme (agora em versão widescreen anamórfica), comentário em áudio do diretor, número musical cortado e documentário (28 minutos). Já o disco 2 vem lotado de featurettes, como coreografias completas dos números musicais, biografias do diretor e da figurinista Coleen Atwood, trechos dos ensaios e outros featurettes.

– Chicago (EUA, 2002)
Direção: Rob Marshall
Elenco: Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, Queen Latifah
Duração: 113 minutos

3 comentários em “Chicago

  1. Desculpe-me, mas muito antes de Dancer In The Dark integrar os números musicais à imaginação das personagens, Bob Fosse já fazia isso. E essa é a inspiração de Chicago.
    Outra: quando Moulin Rouge! foi lançado, Chicago já estava a todo vapor. Perto da pós-produção.
    E, por mais que Moulin Rouge tenha visual e técnica originais, trata-se de um filme com muito mais clichês! Ahh, poupe-me. Amor impossível? Vilãozinho? Humor pastelão? É uma novela, com direito até a fada-madrinha (o dono do Moulin Rouge).
    Chicago é muito mais bem feito, escrito, interpretado e dirigido. A originalidade do filme reside justo na temática: através dos clássicos espetáculos americanos, cheios de pompa e vazios de conteúdo, criticar a sociedade americana, preocupada com as aparências, idolatrando celebridades que nem sempre merecem. Ainda ataca o sistema judiciário, que condena inocentes e absolve culpados, desde que esses tenham dinheiro, boa aparência e ofereçam um show. O filme ainda é concectado com nossos tempos, em que há a busca desenfreada pela fama, quase sempre por pessoas sem talento e sem conteúdo (vide reality shows). Além de a narrativa e o ritmo do filme serem muito melhores do que Moulin Rouge!.
    Péssima crítica. E descordo que Chicago é “ame-o ou deixe-o”. Basta assisti-lo com boa vontade e saber ver os pontos do filme.

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  2. Thanks Melissa and Veronica and Kellee for stopping by. Great qioutsen Veronica. That’s a tough one! I’d love to swap places with Roxie, because I’ve always wanted to have a really cool sword that I could wield to take care of the bad guys 😀 But, I’d also like to swap places with Ashley in Transfer Student because I’ve always wanted to swap lives with an alien and live as a boy for a while, but the boy she swaps lives with is a geek, so there’s that. Hmmmm….and then there’s Ginny from Winnemucca, who takes an enchanted road trip where her feet ask her qioutsens she doesn’t want to hear and they take her to unexpected places. But I like to think that everyone can be like Ginny if they just listen to their intuition. So I pick Roxie…The Slayer:D

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