Muito Além do Jardim

[rating:5]

De modo geral, o gênero cômico sempre foi subestimado e colocado em segundo plano, na história das artes dramáticas. Desde os gregos, há dois mil anos atrás, é assim. O cinema não é exceção. Quando nós, espectadores, pensamos no conceito de comédia, criamos a imagem mental de algo leve, feito para relaxar e desviar a mente dos problemas diários. A verdade, porém, é que as melhores comédias têm duplo resultado; divertem e funcionam como parábolas sobre os mistérios da condição humana. “Muito Além do Jardim” (Being There, EUA, 1979) é um desses longas-metragens únicos, singulares, que ocupam um lugar só deles na história da sétima arte.

O filme de Hal Ashby nasceu de um romance de sucesso, escrito pelo polonês Jerzy Kosinski, também responsável pelo roteiro. Os papéis principais foram disputados a tapa pelos grandes atores de Hollywood, mas um singelo telegrama enviado por Peter Sellers para o escritor deu uma chance (sem trocadilhos) de ouro para um ator extraordinário. Embora mais conhecido como comediante por causa do sucesso da série “A Pantera Cor-de-Rosa”, Sellers sempre foi um camaleão (quem duvida pode conferir a tour-de-force dele, em três papéis diferentes, em “Dr. Fantástico”, de Kubrick). Ele entendeu perfeitamente a singularidade do protagonista, o jardineiro chamado Chance, e o interpretou com a paz de espírito e a objetividade que exigia. O resultado é perfeito.

A história de Chance foi vagamente inspirada por um caso real, ocorrido na Alemanha do século XIX e transformado em filme em 1974 por Werner Herzog. Na ocasião, descobriu-se um homem adulto, chamado Kaspar Hauser, que havia sido criado dentro de um porão durante toda a vida, sem jamais ter contato nenhuma linguagem ou com outros seres humanos. Solto repentinamente em praça pública, Hauser tornou-se objeto de pesquisa psiquiátrica, pois não tinha a menor idéia de como se relacionar com pessoas. Não sabia falar, ler ou escrever, e não compreendia conceitos como alegria, tristeza, ciúmes ou amor.

O romance de Kosinski transportou a situação de Kaspar Hauser para os Estados Unidos, nos dias atuais. Chance (Sellers) é o jardineiro de um homem rico. O filme evita informar o espectador sobre o passado dele ou de qualquer outro morador da casa onde ele vivia, em Washington. Certo dia, o dono na mansão morre, e Chance é despejado. Veste os ternos feitos sob encomenda para o patrão, apanha um guarda-chuva e sai para as ruas pela primeira vez na vida. Ele jamais conheceu outras pessoas. Não tem regras de condutas; é puro e ingênuo como um floco de neve, embora viciado em televisão. Quando esbarra numa gangue de delinqüentes juvenis, tira o controle remoto do bolso e tenta desligá-los.

Por um golpe de sorte, ele vai parar na casa de um empresário rico e politicamente poderoso, Ben (Melvyn Douglas, que ganhou um Oscar pelo papel). O ricaço moribundo e a esposa mais jovem dele (Shirley MacLaine) ficam encantados com aquele homem singular, de sinceridade desconcertante. Por se vestir com elegância e ter modos educados, ele é confundido com um integrante da alta sociedade; se apresenta como “Chance, o jardineiro (Gardener)”, e as pessoas entendem “Chauncey Gardiner”, nome pomposo que condiz perfeitamente com os modos excêntricos do sujeito.

O enredo é conduzido com elegância e sem pressa por Ashby, e consiste basicamente em uma série de testes que confrontam Chance com a possibilidade de a realidade sobre ele ser descoberta. No entanto, apesar de um ou outro personagem desconfiar de algo errado, a maioria fica simplesmente deliciada de estar frente a frente com alguém tão franco. “O que admiro é que você não usa as palavras para se proteger”, resume Ben, impressionando com a calma e a confiança do jardineiro. Ele diz que Chance lhe deu a confiança necessária para encarar a morte que se aproxima. A relação entre ambos, que o filme estabelece delicadamente e em cenas de humor singelo e sutil, é fascinante.

O discurso de Chance é, obviamente, um discurso de jardineiro. Ou seja, fala em flores, árvores e estações do ano. Está sendo objetivo; não sabe o que significa a palavra “metáfora”. Só que as pessoas insistem em ver significados ocultos onde não há nenhum. As palavras de Chance inspiram um discurso do presidente norte-americano, que anda preocupado com uma recessão iminente e mantém uma enigmática conversa ele, através do amigo Ben. “Outono e inverno. Depois, primavera e verão”, diz o jardineiro. Ele está falando, é claro, do jardim; o presidente acredita que é uma metáfora de esperança para a nação. Aí reside uma crítica corrosiva, mas muito sutil, a respeito do confuso discurso do norte-americano médio, que costuma se expressar utilizando comparações, alusões e metáforas muitas vezes incompreensíveis, quase abstratas.

Ao longo do tempo, muitos cinéfilos empreendem longos e permanentes debates a respeito da última tomada do longa-metragem, que vou descrever a seguir (ela não explica o destino do personagem, mas você pode preferir não saber nada sobre ela; se for o caso, pare de ler agora – corra para assistir ao filme por si próprio, e depois retorne a esta crítica, se gostar dele). A cena mostra Chance caminhando sobre a água de um lago, sem afundar. Não há dúvida de que é enigmática, e suscita muitas perguntas: é uma cena literal ou uma metáfora? O que significa?

Não pretendo entrar no debate, mas tenho uma teoria. Para mim, antes de tudo, ela é uma brincadeira genial do diretor Hal Ashby que ecoa lindamente o tema central do filme: a necessidade que as pessoas têm de ver além das palavras e imagens. Quem tenta desvendar a cena está, na verdade, agindo como todos os personagens do filme, exceto Chance. Ou seja, procurando cabelo em ovo, vendo significado onde não há nenhum. A seqüência é perfeita porque apenas sinaliza, sem gritar para o espectador, o que o filme de fato é – uma parábola sobre a vida e a morte (e a televisão). E, como toda parábola, a seqüência significa aquilo que você deseja que ela signifique. Simples assim. Ela contribui para que o filme seja uma das experiências cinematográficas das mais completas.

O DVD brasileiro da Warner é simples e sem extras. A qualidade da imagem é ótima (widescreen 2.35:1 anamórfico) e a do som, satisfatória (Dolby Digital 1.0).

– Muito Além do Jardim (Being There, EUA, 1979)
Direção: Hal Ashby
Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden
Duração: 130 minutos

11 comentários em “Muito Além do Jardim

  1. Já havia assistido ao filme outras vezes, mas hoje assisti na versão Blu-ray, que está cheia de extras e final alternativo. Vale a pena ver nessa mídia.

    Sua descrição do filme é singela, carinhosa, linda como um jardim cuidado por Chance.
    A sutileza do final, ele andando sobre as águas, nos remete a sua leveza, a sua condição humana tão especial, cercado de purezas e intepretações gentis.

    Adorei seu texto. Parabéns

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  2. Vc escreve muito bem, parabéns!

    Lhe parabenizo de uma forma “invejosa”, pois sempre quis escrever e sempre fico adiando, sabe?! Até que ontem assisti a este filme fantástico e pensei: “tenho que ir além do jardim”…

    Engraçado é que, às vezes, já me peguei fazendo a menção de apontar o controle remoto – literalmente – para algumas situações e daí: “porra, tô ficando doido!” e rio… Quando vi o Chance fazer isso com a galera do mal, ri comigo mesmo… Adoro TV, tenho videocassete e DVDR, e os uso cotidianamente – e “conoturnamente”, já que deixo gravando a programação à noite -, assisti o Muito Além do Jardim assim, tinha gravando no TCM há alguns dias e ontem resolvi assisti-lo.

    Sempre tive a curiosidade de vê-lo, pois há mais de dez anos possuo um disco do Marcelo Nova chamado A Sessão Sem Fim, isso mesmo, uma sessão de cinema sem fim… daí o nome das canções são títulos de filme, das quais uma delas chama-se Muito Além do Jardim!

    Quanto à última cena, vamos ficar quebrando a cabeça, fazendo analogias a Jesus Cristo etc., tem até o guarda-chuva/cajado da salvação!

    (o Chance queria dar o recado da “galera do mal” prum Raphael, não era?!)

    Até mais!

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  3. Petter Sellers é mesmo extraordinário. Para mim, esse filme tenta mostrar como as pessoas projetam suas impressões, angústias, ideias sobre aquilo que veem e ouvem. Gardener não fala nada que valha a pena escutar, mas todos o escutam, pois tomam suas palavras vazias e as recheiam com o que querem. Assim, sempre Gardener lhes fala exatamente o que eles queriam ou precisavam ouvir.

    Quanto à cena final, quando a assisti, pensei numa coisa assim: quem caminha sobre as águas, em nosso imaginário, é o profeta filho de Deus, o que traz a palavra sagrada, a palavra que redime a todos. Gardener é comparado, na cena final, com esse profeta. Mas que palavra redentora ele traz? Uma palavra vazia, sem significado nenhum. Ela só significa algo para quem quer que ela signifique; é a predisposição das pessoas a ver nela sua salvação que a torna a palavra que salva. Por isso, tudo se resume a uma questão de fé: a palavra de Gardener não precisa dizer, objetivamente, nada; se estivermos predispostos a crer nela, ela dirá tudo. Vale lembrar que a Bíblia é cheia de metáforas envolvendo plantio, colheita, etc., justamente as metáforas que Gardener fazia sem querer.

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  4. Esta foi a primeira crítica que leio sobre este filme que realmente captou a profundidade que eu também senti ao ver e revê-lo.
    Simplificar esta obra a uma simples crítica aos meios de comunicação ou ao modo de vida americano é reduzí-la demais. É como você mesmo resumiu, é ver o que se quer ver, entender o que é mais fácil.
    A beleza real do filme está nas possibilidades de interpretação que ele abre. Na capacidade de se dizer algo totalmente simplório e ser tomado como gênio e neste sentido não fazer julgamento se esta genialidade é ou não verdadeira.
    Quantos não trocariam toda sua sabedoria com suas preocupações pela pacífica alienação de Chance? Qual a melhor opção?
    Enfim, os questionamentos são infinitos.

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