Diabo Disse Não, O

[rating:3.5]

O austríaco Ernst Lubitsch fez carreira em Hollywood dirigindo comédias românticas ambientadas no mundo frívolo da alta sociedade. Este era o universo onde ele se sentia mais à vontade, e a razão é bem simples: Lubitsch cresceu freqüentando a burguesia de Viena. A abordagem dele ao tema, no entanto, nunca foi negativa ou positiva demais. Ele não era condescendente nem crítico em excesso; usava a ambientação burguesa como moldura para encenar histórias universais sobre amor, paixão e desejo. “O Diabo Disse Não” (Heaven Can Wait, EUA, 1943) é um dos trabalhos mais inspirados que dirigiu.

A comédia, uma das mais lembradas pelos fãs do cineasta austríaco, foi filmada em um esfuziante colorido technicolor, magnificamente preservado nas cópias em DVD. Lubitsch é um cineasta típico da primeira metade do século XX, como John Ford ou Howard Hawks, por exemplo. Era versátil, trabalhava em grande velocidade e, apesar de ter um olho esplêndido para detalhes técnicos (o posicionamento da câmera é sempre elegante e sutil), procurava ocultar essa técnica, de forma que seus filmes não possuem uma assinatura visual ou estética evidente. Ele preferia parecer invisível e chamar atenção unicamente para a trama. Sabia, como todos os grandes mestres, que bom cinema é a arte de contar boas histórias, sem que o público precise perceber a mão do diretor por trás delas.

Em termos de narrativa, “O Diabo Disse Não” possui influência nítida de “Cidadão Kane”, produzido dois anos antes. A produção biografa em flashback um homem que está morto quando o filme começa. Ele é o milionário Henry Van Cleve (Don Ameche). Depois de morto, Van Cleve se dirige ao inferno e pede abrigo a um Diabo muito cortês (Laird Cregar). O playboy tem certeza de que não tem lugar no céu para ele, que foi tão infiel à esposa Martha (Gene Tierney). Todo o resto do filme, com exceção do epílogo, consiste em Van Cleve narrando a Lúcifer os principais episódios de sua vida.

O texto de Lubitsch é enxuto e impregna todo o filme com um senso de humor sofisticado e inteligente. Observe, por exemplo, a impagável seqüência em que um Henry Van Cleve quase adolescente passa por uma experiência bizarra que envolve álcool e uma esperta governanta francesa. Há um monte de cenas divertidas, embora “O Diabo Disse Não” não seja exatamente o tipo de produção em que o espectador cai na gargalhada a cada dois minutos. Lubitsch constrói gags visuais, não conta piadas. E o final, apesar de previsível, funciona muito bem dentro do universo proposto pelo diretor.

“O Diabo Disse Não” fez bastante sucesso na época do lançamento original e chegou a concorrer a dois Oscar, de filme e direção. Na época a categoria de maquiagem ainda não existia, mas se existisse o filme a ganharia com facilidade: o processo de envelhecimento dos atores Don Ameche e Gene Tierney, ambos perfeitos nos respectivos papéis, é simplesmente impecável, superando até mesmo o já citado “Kane”, cujo preto-e-branco disfarçava eventuais imperfeições na maquiagem dos artistas. Aqui, o brilhante technicolor – o uso do vermelho denotando lascívia é muito bem empregado pelo diretor europeu – ressalta a excelência do trabalho dos responsáveis pelo make up.

O DVD saiu no Brasil pelo selo Fox Classics. Não tem extras, mas a qualidade é boa: enquadramento original preservado (fullscreen, 1.33:1) e som OK (Dolby Digital 2.0).

– O Diabo Disse Não (Heaven Can Wait, EUA, 1943)
Direção: Ernst Lubitsch
Elenco: Gene Tierney, Don Ameche, Charles Coburn, Marjorie Main
Duração: 112 minutos

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3 comentários em “Diabo Disse Não, O

  1. A cena já perto do final, quando Henry morre, é muito bonita. Ele descreve o sonho que estava tendo, antes da enfermeira ranzinza acordá-lo. Em seguida, na troca de enfermeiras – a nova é uma representação da do seu sonho -, a câmera fica do lado de fora do quarto, filmando a porta fechada. Pela conversa do início do filme, sabemos que ele morreu. Que cena delicada.

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