Memórias de uma Gueixa

[rating:1.5]

Durante mais de 10 anos, Steven Spielberg acalentou a idéia de dirigir “Memórias de uma Gueixa” (Memoirs of a Geisha, EUA, 2005). A história de uma menina pobre vendida pelo pai e criada para se tornar uma gueixa, baseada num livro de sucesso de Arthur Golden, tem todos os ingredientes de um bom drama popular: sexo, intrigas, paixões impossíveis e um toque de exotismo. Nas mãos do diretor Rob Marshall (do Oscarizado “Chicago”), porém, o drama virou melodrama meloso de visual multicolorido, com trama rasa e previsível.

Há uma curta seqüência de transição, sem grande importância, que funciona como metáfora visual do filme. Nela, um soldado norte-americano que passeia pelas ruas de Kyoto apanha uma máscara do teatro Kabuki, típico do Japão feudal, e põe no rosto, enquanto sorri de encantamento. É uma cena curta, que resume a maneira como o diretor Rob Marshall (e boa parte da platéia ocidental) encara a cultura japonesa: como um alegre “outro”, uma cultura exótico e diferente, digna de alguma curiosidade e sem maiores dramas humanos. É esse olhar superficial, que percebe as pessoas como meros integrantes de uma paisagem, sem alma e sem conteúdo, o elemento que mais incomoda em “Memórias de uma Gueixa”.

Não é o único, porém. Rob Marshall, um ex-coreógrafo que assumiu a cadeira de diretor após estrear no ofício vencendo o Oscar de 2003 com um musical, imprime ao filme um tom solene que o deixa pomposo, afetado e artificial. Na verdade, por trás de todo o luxo que Hollywood pode comprar, Marshall parece ter delineado a história com a ajuda de algum manual de roteiro para principiantes, apelando para uma fórmula. A estratégia banal retira do filme toda a profundidade dos personagens. Estes viram meros bonecos na mão de um diretor mais interessado em coreografar lindas imagens de uma cultura exótica do que em contar um bom drama humano.

“Memórias de uma Gueixa” narra a história de Chiyo (Suzuka Ohgo). Em 1929, com nove anos de idade, ela é vendida pelos pais, dois velhos pescadores já perto da morte, a uma luxuosa casa de preparação de gueixas. A partir daí, o filme acompanha a jornada da moça até o final de Segunda Guerra Mundial. Um detalhe importante: o longa-metragem martela várias vezes que “gueixa” e “prostituta” são conceitos diferentes, embora para o diretor essa diferença pareça estar apenas na obrigatoriedade de praticar sexo, existente apenas para as últimas. As gueixas, no olhar deslumbrado de Rob Marshall, são acompanhantes de luxo que vão com executivos a eventos, providenciando-lhes entretenimento e boa conversa. Falta sutileza ao diretor na tarefa de mostrar que ser uma gueixa é algo bem mais complexo do que oferecer bom papo a engravatados.

A jornada de Chiyo, que logo cresce e muda o nome para Sayuri (Zhang Ziyi), segue a fórmula básica de um folhetim novelesco da profundidade de um pires: ela tem um mentor bondoso (Michelle Yeoh) que lhe ensina como enfrentar as dificuldades da vida, tem uma paixão impossível (Ken Watanabe), um pretendente por quem não nutre nenhum sentimento (Koji Yakusho), uma inimiga mortal (Gong Li) e até mesmo uma amiga de infância que vai aos poucos se tornando uma rival (Youki Kudoh) na arte da sedução.

O uso da fórmula básica do melodrama fica evidente em várias seqüências, como aquela que condensa e resume o aprendizado de Sayuri como gueixa. Em certo momento da cena, ela dá duro até conseguir caminhar de salto alto, apenas para olhar de lado e perder o equilíbrio, desaparecendo do quadro (você já viu a mesmíssima cena na comédia “Miss Simpatia”). Noutro momento, a garota precisa atrair a atenção de um rapaz na rua apenas com um olhar, como teste final do treinamento, e então basta simular um sorriso para que um coitado numa bicicleta se esborrache (“Você está pronta!”). São dois exemplos de como a trama geral de “Memórias de uma Gueixa” é rasa e previsível.

Para completar, Rob Marshall incluiu uma narração em off que, se confere sentido ao título do filme, acaba por explicar todos os detalhes da trama, tintim por tintim, sem deixar nenhum espaço para a interpretação do espectador. Este é um dos piores defeitos da indústria cinematográfica de Hollywood: o medo de que a platéia não compreenda algum detalhe faz o diretor tratar o público como deficientes mentais, explicando tudo mais de uma vez e entregando toda a experiência do filme já mastigada.

Para compensar todos esses problemas narrativos, a parte visual do filme é naturalmente impecável, como precisava mesmo ser uma obra sobre o universo das gueixas. A direção de arte constrói os corredores apertados e úmidos de Kyoto com bom gosto, os figurinos de seda colorida dos vestidos são estonteantes, e o trabalho de maquiagem também é perfeito. Mesmo assim, o maior destaque do filme é a fotografia de Dion Beebe. O trabalho de iluminação é simplesmente maravilhoso, com uso abundante de sombras (o que reforça o caráter diáfano e misterioso daquelas mulheres maravilhosas), e as imagens sempre procuram mesclar tons de vermelho, azul e amarelo dentro de cada tomada, o que garante um visual uniformemente multicolorido e vistoso.

A grande cena de “Memórias de uma Gueixa” é o primeiro encontro de Chiyo com o Presidente (Ken Watanabe), numa ponte de Kyoto. A seqüência traz à tona um dos grandes momentos do lendário “Cidadão Kane”, em que um dos personagens lembra, saudoso, de uma mulher de vestido branco que lhe cruzou a vista, num bote, em determinado dia da juventude; o homem diz que mesmo sem ter visto a moça novamente, jamais se esqueceu dela desde então. É um momento sublime que ilustra o segredo da sedução das gueixas – o poder de sedução de uma mulher misteriosa sobre os homens. A sutileza desse momento é exatamente o que falta ao filme de Rob Marshall, um épico raso talhado para espectadores que gostam de dramalhões românticos com visual requintado.

O DVD da Sony tem boa qualidade. O enquadramento correto (widescreen anamórfico) valoriza o visual exuberante, e a trilha de áudio está em cinco canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um documentário composto por quatro featurettes enfocando detalhes específicos da produção, em especial o figurino e a direção de arte.

– Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Geisha, EUA, 2005)
Direção: Rob Marshall
Elenco: Zhang Ziyi, Michelle Yeoh, Gong Li, Ken Watanabe
Duração: 144 minutos

4 comentários em “Memórias de uma Gueixa

  1. Respeito a opiniao dos colegas acima.Criticas sao democraticas.
    O filme tem apelo sensivel, belo e atrizes magníficas. Nao me sinto uma espectadora que gosta de dramalhoes romanticos que gostam de visual requintado.O figurino realmente é belissimo!!
    A previsibilidade citada faz parte tb de tantos filmes épicos assistidos por mim e mesmo assim nao deixaram de ser em ótimos e tocantes
    .Mais tolerancia ,vamos praticar.

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  2. Aos críticos a unica informação que posso dar é que Rob Marshall conseguiu fazer um final de primor,e como de pouquíssimos filmes,conseguiu hipnotizar a grande parte do publico,que gosta de romances em sintonia de drama.
    Eu por exemplo assisti este filme pela primeira vez no domingo maior exibido pela rede Globo,e até o momento não tem um só dia,que eu não assista o final por mais de uma vez,fiquei tão fascinada que comprei odvd.
    O desfecho conseguiu ter um toque de romande delicado,e confesso eu to torcendo pra ver a continuação da Arelação de SAyuri(chyio) e o presidente(Ken Watanabe),que por sinal não existe nenhum filme de ken watanabe que eu não goste de sua atuação,ele é lindo e charmoso.
    No fundo eu queria um presidente daqueles pra mim.

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