Fugindo do Inferno

[rating:4.5]

Não é comum, mas de vez em quando acontece: alguns filmes produzidos despretensiosamente, com o objetivo modesto de entreter, às vezes lançam moda e geram verdadeiros subgêneros. Este é o caso do drama/aventura de guerra “Fugindo do Inferno” (The Great Escape, EUA, 1963), o mais importante filme de prisão do cinema. A produção é um exemplo genuíno de como a duração de um filme não tem relação obrigatória com o fato de ele parecer longo. Afinal, a ação eletrizante e de ritmo consistente garante que as quase três horas de projeção pareçam ter a metade do tempo.

“Fugindo do Inferno” foi dirigido por John Sturges, responsável por vários faroestes importantes do período. Era um cineasta de estilo clássico, direto e simples, não muito chegado a firulas, alguém para quem as questões de estilo – movimentos de câmera, fotografia – jamais deviam aparecer para o público. Sturges pertence a um grupo de cineastas, como Samuel Fuller ou John Ford, para quem o dever de um bom cineasta é contar histórias com sinceridade e emoção, de forma a capturar a imaginação do público. “Fugindo do Inferno” faz isso muito bem.

A produção, baseada em um caso real ocorrido durante a II Guerra Mundial, credenciou o ator Steve McQueen, então já um astro em ascensão, a ocupar um nicho progressivamente deixado vago por John Wayne: o cara machão, cujo talento para atuar parecia obscurecido pela persona magnética, sem frescuras, agressiva. Mas McQueen, na verdade, não é o único dono do longa-metragem. A importância de “Fugindo do Inferno” está no coletivo, já que a obra reuniu um dos maiores, mais talentosos e homogêneos elencos da época, incluindo figuras tão diferentes como o aristocrático Richard Attenborough e o ex-mineiro Charles Bronson, todos em interpretações sensacionais.

Vista superficialmente, a sinopse do filme é tão simples que dá até para duvidar que seja possível construir uma história consistente a partir de tão pouco. “Fugindo do Inferno” focaliza um grupo de duas dúzias de oficiais ingleses e norte-americanos, todos prisioneiros dos alemães durante a II Guerra Mundial. Por causa de inúmeras tentativas de fuga, eles são reunidos em um grupo único e colocados, sob severa vigilância, dentro de um novo campo de concentração. “Juntamos todos os ovos podres numa cesta só”, resume o sarcástico comandante alemão das instalações. Juntos, os detentos decidem montar um plano audacioso para dar fuga a pelo menos 250 militares aliados. O filme acompanha este plano sendo posto em prática.

Como se trata de uma produção de Hollywood, o filme focaliza mais os papéis desempenhados pelos dois únicos prisioneiros oriundos dos EUA: Hilts (McQueen), o sujeito solitário que não dá bola para o grupo e tenta organizar sua própria maneira de escapar, e Hendley (James Garner), o marombado que tem uma habilidade natural para roubar e pretende utilizá-la para favorecer o plano bolado pelo oficial Bartlett (Attenborough). O filme não perde tempo desenvolvendo personagens; vamos conhecendo as características e dramas pessoais de cada um durante a ação, o que garante um ritmo constante e uma aventura eletrizante, que desemboca em um longo e emocionante final.

Vale ressaltar que Steve McQueen teve grande influência na pré-produção. Ele só aceitou participar do filme depois de ter o número de cenas aumentado, e também exigiu que John Sturges desse um jeito de inserir algumas seqüências em que ele pudesse mostrar ao público suas habilidades ao volante de uma motocicleta. O cineasta soube colocar o ego do astro para trabalhar a favor do filme, e transformou o desejo dele em uma cena de ação perfeita (a título de curiosidade, truques de edição também permitiram que McQueen, vestido com a farda do exército alemão, interpretasse um dos motoqueiros alemães que perseguem Hilts).

O resultado final é uma aventura contundente, cheia de emoção, com um final melancólico, mas certamente cheio de honestidade e esperança. O longa-metragem lançou uma verdadeira coqueluche de filmes enfocando fugas de prisão – longas como “Papillon” (1973), “Alcatraz: Fuga Impossível” (1979), “Fuga para a Vitória” (1981) e a animação “A Fuga das Galinhas” (2000) não existiriam sem o drama de guerra de John Sturges.

A Fox lançou o filme no Brasil em dois pacotes diferentes. O primeiro é um disco simples, que contém apenas o filme, com qualidade de imagem boa (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som idem (Dolby Digital 5.1). O outro pacote, de luxo, é duplo. O disco extra traz dois documentários: o primeiro, produzido em 2001, tem 50 minutos e foca a história real em que o filme foi baseado; o outro enfoca a realidade por trás do personagem vivido por Steve McQueen (25 minutos). Não há legendas.

– Fugindo do Inferno (The Great Escape, EUA, 1963)
Direção: John Sturges
Elenco: Steve McQueen,. Richard Attenborough, James Garner, Charles Bronson
Duração: 172 minutos

4 comentários em “Fugindo do Inferno

  1. Caro Rodrigo Carreiro,sei que é uma pergunta bem atrasada,mas gostaria de saber se a edição deste mesmo filme em edição dupla lançada em 2004 tem legendas nos extras?Obrigado.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s