Passagem, A

[rating:3.5]

Uma das características mais curiosas de “A Passagem” (Stay, EUA, 2005) está na maneira original que o diretor Marc Forster encontrou para fazer as transições entre as cenas. Ao invés de simplesmente pular de uma cena para outra, como quase todos os filmes fazem, ele busca soluções diferentes. Uma fotografia na mesa de alguém pode ganhar movimento e se tornar a próxima cena, ou a última imagem de uma seqüência pode se transformar num objeto cênico da cena seguinte. Um personagem pode abrir uma porta e “entrar” não num quarto, mas na próxima cena. A câmera pode acompanhar dois homens conservando e, em dado momento, eles são encobertos por uma pilastra, e ao surgirem do outro lado já estão em outro lugar, com outras roupas, e portanto numa cena inteiramente nova.

A idéia é engenhosa, embora pareça a princípio um mero exercício de estilo. A surpresa surge quando é revelado, no final, o grande mistério em torno do qual gira a trama. Descobrimos, então, que as transições arrojadas não são apenas enfeite, mas sim uma pista para insinuar, aos espectadores mais atentos, qual a verdadeira natureza do problema do estudante Henry Letham (Ryan Gosling). Há, é claro, muitas outras pistas. Mas a chave para desvendá-las, o elemento que une todas elas e confere sentido ao filme, está justamente nessas transições. É um truque inteligente do cineasta, mas também um enorme risco; todo bom montador sabe, como ensina o mestre Walter Murch (de “Apocalypse Now”), que as transições de uma cena para outra são os momentos em que o espectador pisca os olhos, e reorganiza sua mente a fim de prepará-la para identificar tempo e lugar da cena seguinte. Em outras palavras, os momentos mais importantes de “A Passagem” acontecem justamente quando a platéia está de guarda baixa.

Talvez essa estratégia de risco seguida pela equipe criativa do filme (aí incluídos o roteirista David Benioff, o editor Matt Chesse e o fotógrafo Robert Schaefer) tenha sido responsável pelo fracasso retumbante de bilheteria que ele se tornou, faturando menos de US$ 4 milhões nos EUA. Grande parte dos detratores do filme, como pode ser conferido nos fóruns do Internet Movie Database (maior banco de dados de cinema do mundo), o acusou de ser incompreensível ou complicado demais. Outros acham o filme floreado em exagero. Nesse último item, têm razão: há excessos visuais e sonoros – a trilha praticamente não pára em nenhum momento do filme – de todos os tipos. Mas “A Passagem” está longe de ser um desastre, embora fique frágil quando comparado com filmes de proposta parecida, e melhor realizados, como a obra de David Lynch (“Cidade dos Sonhos” é uma inspiração bastante citada).

Surpresa, mesmo, é ver o nome de Marc Forster no comando de uma produção diferente como esta. Realizador discreto que dirigiu os premiados “Em Busca da Terra do Nunca” e “A Última Ceia”, o diretor assumiu o projeto depois da desistência de David Fincher, diretor que acabou empresta ao projeto muito do seu barroquismo visual que é, em última instância, um defeito dos filmes que dirige. Forster, no entanto, se saiu bem em muita coisa. A escalação do elenco, por exemplo, é excelente. Ewan McGregor continua sua odisséia por papéis estranhos, Naomi Watts tem pouco a mostrar (mas o faz com a habitual competência) e Ryan Gosling, ator jovem que defende seus papéis com garra, está ótimo.

Além disso, toda a apresentação da trama é um acerto, jogando a platéia diretamente dentro de um caso estranhíssimo que, a princípio, parece não ter explicação – não existe melhor maneira de fisgar a atenção de alguém do que contando uma história aparentemente impossível de acontecer. Forster se esmera em criar uma atmosfera de mistério, mantendo dúvidas sobre praticamente cada personagem que existe no longa-metragem. A trama gira em torno de Sam Foster (McGregor), psiquiatra de uma universidade nos EUA. Ele está assumindo o lugar de uma colega em férias. Um dos pacientes é Henry Letham (Gosling), rapaz perturbado que sofre com um complexo de culpa avassalador. Letham anuncia que vai se matar dentro de três dias. O trabalho de Foster é tentar dissuadi-lo da idéia.

Aos poucos, as dúvidas vão se avolumando: como Henry consegue prever acontecimentos futuros, chegando não apenas a antecipar uma chuva de granizo, mas até mesmo adivinhar os pensamentos de Sam? Que tipo de relação há entre o rapaz e Lila (Watts), namorada do psiquiatra e depressiva crônica que já tentou o suicídio, e que afirma não conhecê-lo, embora chame o marido de Henry? Por que o jovem estudante acredita que o médico cego com quem Sam costuma jogar xadrez é o pai dele, um homem que já morreu há muito tempo? Por que razão Beth (Janeane Garofalo), a psiquiatra oficial de Henry, também está em depressão profunda?

Enquanto a platéia tenta juntar esses (e muitos outros) cacos em uma explicação coerente, o diretor vai fundo na apresentação visual do filme. Não há dúvida de que existe um excesso de informação nesse campo. Talvez o segredo do fracasso esteja nisso. “A Passagem” não é um filme a que se assiste passivamente, apenas consumindo as imagens, sem refletir. O filme exige que o espectador raciocine em cima daquilo que vê e tente dar algum sentido às imagens, e elas possuem detalhes em excesso para que se possa absorver sem ter dor de cabeça. Culpa, talvez, da dieta magra de pensamento que os filmes de Hollywood reservam à platéia média. De qualquer forma, Marc Forster não conseguiu encontrar uma solução para o dilema, e fez um filme over, além do tom.

Outro problema, esse menor, é que o filme demora demais para apresentar uma solução para o enigma. O espectador só é apresentado a ela nos últimos cinco minutos de projeção. Quando o filme faz isso, porém, faz da maneira correta: não tenta amarrar todas as pontas soltas, mas aponta com firmeza a explicação, deixando espaço para a platéia reexamine todo o filme mentalmente e passe a atribuir novos significados a tudo o que viu antes. Nesse sentido, “A Passagem” é bem sucedido: como em “O Sexto Sentido” ou “Alucinações do Passado”, a tentação de rever a obra à luz da revelação do final é grande.

O DVD do filme, da Fox, é simples. Mantém o formato de imagem original (wide anamórfico 2.40:1), tem ótimo som (DTS e Dolby Digital 5.1), trazendo ainda dois comentários em áudio (um com o diretor, outro reunindo diretor e três membros da equipe técnica) e um making of.

ATENÇÃO: NÃO LEIA O PARÁGRAFO A SEGUIR, CASO NÃO TENHA AINDA VISTO O FILME, POIS ELE PODE REVELAR INFORMAÇÕES DEMAIS ACERCA DO MISTÉRIO.

Uma segunda conferida no longa-metragem revela outros detalhes fascinantes. Você vai observar, por exemplo, que o personagem que guia todo o mecanismo de transições entre as cenas é Henry Letham. Em várias ocasiões, a última ação de uma cena mostra o personagem olhando para algo ou alguém; depois do corte que vem a seguir, a seqüência envolve justamente o objeto, local ou pessoa para quem ele olhou antes. Por exemplo, Letham olha para a mesa de um personagem e focaliza uma fotografia; na cena seguinte, o ambiente é justamente aquele local que a foto mostrava. Truques como esse fazem do filme uma delícia para cinéfilos à procura de pistas para desvendar.

– A Passagem (Stay, EUA, 2005)
Direção: Marc Forster
Elenco: Ewan McGregor, Ryan Gosling, Naomi Watts, Janeane Garofalo
Duração: 99 minutos

Um comentário em “Passagem, A

  1. boa noite, acabei de ver o filme pela primeira vez (uns 7 anos atrasado…rs). Como dá margem a interpretações, resolvi pesquisar um pouco na net. mas não achei nenhuma resposta sobre a minha principal dúvida: a visão que SAM tem nos últimos segundos de filme, junto da Lila. Aí recorro a esse site. Ora, se tudo era alucinação do moribundo, por que o Sam teve a visão da Lilla? Se aquele era o momento em que eles se conheceram (sam e lila), ele provavelmente viu o que o morto viu, certo? ou foi uma “visão” do além?
    Daí vem minha hipótese: na capa do filme em inglês tem uma frase cuja tradução é mais ou menos:”entre o mundo dos vivos e dos mortos tem um lugar que ninguém pode ficar”. Acho que naquele momento em que Sam e Lila estão acudindo Henry eles acabam entrando subconscientemente naquele mundo surreal, naquele sonho, que na verdade é o filme inteiro. Essa conexão pré-morte envolveu os três em um lugar “que ninguém pode ficar”. tanto é que henry morre (foi pro inferno ou céu) e sam e lila seguem vivos, a partir dali provavelmente juntos – ninguém ficou na zona “nebulosa” a não ser por poucos minutos, onde tempo, espaço e sentido…não fazem sentido! De alguma forma, Sam vivenciou aquele tormento junto com henry naquele processo de tentativa salvamento e não somente Henry alucinou com os personagens ao seu redor. Talvez Lilla também, embora ela aparentemente não tenha tido tal visão, como Sam. Agora, o fato de ela também ter interagido naquele momento pré-morte acabou envolvendo-a nessa experiência surreal e por isso que Sam se viu com ela. Se ela fosse só uma figurante como o menino do balão talvez eles não tivessem se relacionado. Sei lá, posso estar viajando, mas em nenhuma crítica houve uma explicação (ou tentativa de) sobre a visão que Sam teve de seu futuro com Lilla.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s