Expresso do Terror

[rating:2.5]

O método incomum de Sergio Leone produzir filmes, na década de 1960, serviu como exemplo para muitos cineastas obscuros. Utilizando apenas um ou dois atores conhecidos e muita criatividade, o diretor italiano mostrou que não era preciso gastar fortunas em orçamento para produzir filmes interessantes. O método gerou enorme quantidade de seguidores, alguns de qualidade superior (Sergio Corbucci, por exemplo). Eugenio Martín jamais se destacou entre os melhores aspirantes a Leone, talvez por não ter militado nas fileiras do spaghetti western, mas aprendeu direitinho a lição. É o que fica claro após uma conferida em “Expresso do Terror” (Horror Express, Inglaterra/Espanha, 1973), seu filme mais famoso.

Para criar a delirante mistura de horror satânico setentista com ficção científica, Martín teve à disposição um orçamento minúsculo. Não hesitou: gastou-o com os salários de dois dos atores mais conhecidos e prolíficos do cinema de horror B, os amigos e grandes estrelas do gênero Christopher Lee e Peter Cushing. Ambos haviam feitos várias grandes obras para a produtora inglesa Hammer na década anterior, e andavam meio esquecidos. Com a dupla, um punhado de cenários de segunda mão – basicamente, comprou a preço de banana uma réplica de trem de luxo construído para um filme espanhol de 1971 – e um roteiro criativo, Martín elaborou um filme cheio dos excessos dos anos 1970, mas que transpira garra e criatividade.

Na verdade, “Expresso do Terror” é um clássicos das madrugadas da televisão aberta brasileira. Já foi exibido centenas de vezes, principalmente em meados dos anos 1980. Sendo assim, é bem provável que os fãs de cinema de horror feito com baixo orçamento já estejam familiarizados com o título. A premissa da obra é bem simples, funcionando como uma espécie de variação violenta de “Assassinato no Expresso Oriente”, thriller da lavra de Agatha Christie que fez razoável sucesso na mesma época.

Quase toda a trama se passa dentro de um trem de luxo que corta as planícies geladas da Sibéria. A história diz respeito ao arqueólogo Alexander Saxton (Lee). Durante uma expedição à Manchúria, em 1906, o professor encontra um ser meio homem, meio macaco, de dois milhões de anos, perfeitamente preservado em gelo. Esperando revolucionar a ciência com a descoberta, Saxton a embarca em segredo no trem, para Londres. Mal deixa a estação, porém, a carga congelada passa a ser suspeita de estranhos assassinatos, quando passageiros e membros da tripulação começam a aparecer mortos, com os olhos esbranquiçados. Será que o monstro está vivo?

“Expresso do Terror” é o tipo de filme que não deve ser levado a sério. Se analisados de perto, os detalhes do roteiro escrito por Julian Zimet e Armand d’Usseau não se sustentam. É o caso, por exemplo, na alucinada explicação para a origem do misterioso homem-macaco, que envolve a análise de amostras de sangue retiradas dos olhos da múmia. O líquido, examinado em microscópico, seria capaz de guardar as imagens vistas pelo estranho ser em toda a sua existência, uma teoria que não tem o mínimo respaldo científico (aliás, chega a ser hilário imaginar que o sangue possa funcionar como uma espécie de câmera de televisão em estado líquido).

Por outro lado, a relativa despretensão do longa-metragem o deixa livre para realizar um coquetel alucinado de gêneros, sem muita preocupação com verossimilhança. É daí que vêm os diálogos bem-humorados (“Não somos monstros, somos ingleses!”), as pitadas de ficção científica (os roteiristas não deram bola para o fato de que, em 1906, o homem ainda não soubesse como se parecia a Terra vista do espaço) e a interessante teoria religiosa que permite a interpretação de que Satanás pudesse ser um extraterrestre. No todo, o filme acaba funcionando, mesmo que às vezes pareça um samba do crioulo doido, desde que o espectador não espere encontrar uma obra-prima. Atente ainda para a curta e louquíssima intervenção de Telly Savalas, que havia trabalhado com o diretor na sátira “Pancho Villa” pouco antes.

O DVD nacional, da Works Editora, tem como base o lançamento internacional da Image Entertainment. O disco é simples, não tem extras, e traz uma cópia apenas razoável do filme, com qualidade de imagem (o aspecto original, 1.66:1, é preservado em formato letterbox) e som (Dolby Digital 2.0) OK.

– Expresso do Terror (Horror Express, Inglaterra/Espanha, 1973)
Direção: Eugenio Martín
Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Alberto de Mendoza, Telly Savalas
Duração: 87 minutos

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2 comentários em “Expresso do Terror

  1. “O método incomum de Sergio Leone produzir filmes, na década de 1960, serviu como exemplo para muitos cineastas obscuros. Utilizando apenas um ou dois atores conhecidos e muita criatividade, o diretor espanhol mostrou que não era preciso gastar fortunas em orçamento para produzir filmes interessantes.” Espere um pouco, “diretor espanhol”? Sérgio Leone era italiano.É dele mesmo que está falando quando se refere à “diretor espanhol”?

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