Som do Trovão, O

[rating:1.5]

De alguns anos para cá, especialmente meados da década de 1990, a Teoria do Caos vem ganhando generoso espaço no cinema. Algumas pessoas podem pensar que isso é um sinal do apocalipse, ou coisa parecida, e não estão totalmente erradas: a humanidade começa a compreender que a possibilidade, ainda que remota, de tecnologias avançadas permitirem viagens no tempo, para citar um exemplo de idéia fascinante vinculada à Teoria do Caos, pode representar uma ameaça ao futuro da humanidade. Esse foi o impulso que levou o romancista Ray Bradbury a escrever o conto “A Sound of Thunder”, transformado em “O Som do Trovão” (EUA/Alemanha/República Checa, 2005) pelo cineasta Peter Hyams. Infelizmente, apesar de ancorado numa premissa fascinante, o longa-metragem afunda em um emaranhado de clichês, incluindo péssimas interpretações, efeitos especiais risíveis e uma história previsível e cheia de buracos.

Na verdade, já se esperava que o filme não fosse a oitava maravilha do mundo. Depois de entrar em produção em meados de 2002, ele enfrentou a falência da produtora que o custeava durante a fase de pós-produção e, depois, a recepção fria dos executivos da Warner, que postergaram durante dois anos seu lançamento nos cinemas. “O Som do Trovão” só vingou em setembro de 2005, e acabou bombardeado por críticos, acabando por faturar a ridícula quantia de US$ 1,8 milhão depois de quatro semanas em cartaz nos EUA, isso após custar a bagatela de US$ 52 milhões. Em resumo, um dos maiores fiascos do cinema norte-americano em muito, muito tempo.

Em tese, o fato de inspirar desprezo por parte de público e crítica não significa necessariamente que um filme seja ruim. O faroeste “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino, é um bom exemplo. Afundou a carreira do diretor, levou um estúdio à falência e praticamente decretou a morte do gênero, recebendo pesadas críticas negativas por ocasião do lançamento. Visto hoje, em retrospectiva, pode até não parecer uma obra-prima, mas está longe de ser ruim.

De qualquer forma, vai ser difícil que “O Som do Trovão” receba uma reavaliação positiva num futuro próximo. O filme de Peter Hyams (diretor do fraco “Fim dos Dias”, com Arnold Schwarzenegger) é perfeitamente simbolizado pelo ridículo penteado grisalho que enfeita a cabeça de Ben Kingsley, um ator talentoso que interpreta suas poucas falas com indisfarçável ar de constrangimento. Ele merecia coisa melhor. E nós também, já que o conto de Bradbury é uma pérola.

O pior é que o enredo é promissor. O cientista Travis Ryer (Edward Burns) comanda uma empresa especializada em levar milionários ao passado e organizar caçadas a animais pré-históricos. Esses bichões, no entanto, precisam estar prestes a morrer, pois causar uma alteração no ecossistema do passado, mesmo simples, pode provocar sérias mudanças no futuro. A jóia da coroa é a tour no qual ricaços podem abater um tiranossauro. O passeio dura só cinco minutos e é rigorosamente organizado. Em certa viagem, porém, algo dá errado, e Ryer precisa voltar ao passado para descobrir qual detalhe imperceptível poderia ter causado o aparecimento de plantas carnívoras e animais letais na Nova York de 2055.

Os equívocos do longa-metragem são tantos que é complicado até enumerá-los. Começam pela escalação do protagonista, o fraco Edward Burns, que interpreta como se estivesse de ressaca. O ar de fastio de um ator tão bom e versátil como Ben Kingsley, contudo, deixa evidente que o fato de um ator ter ou não talento é insignificante, nas mãos do diretor Peter Hyams; todo o elenco atravessa o filme sem vontade, sem raça, sem expressão, recitando diálogos como se lessem a lista telefônica. Outro problema grave é a direção de arte equivocada, que vê o futuro como um mundo de fortes tons amarelos e vermelhos, como se a iluminação de néon dos anos 1980 de repente voltasse à moda, 70 anos mais tarde.

Em uma produção tão cara, seria de se esperar que ao menos os efeitos especiais se salvassem, mas nem isso acontece. As cenas que se passam nas ruas da Nova York futurista, ou na selva de 65 milhões de anos atrás, dão mostras claras de que foram produzidas com os atores atuando sobre fundo azul, pois quase sempre é evidente que os humanos e os cenários foram filmados em separado. Se olhar com atenção, você vai perceber o recorte digital no contorno dos personagens, em praticamente todas as cenas que envolvem cenários abertos e/ou efeitos digitais, como os animais selvagens que infestam a Nova York modificada pelo lapso temporal. Um detalhe desses, numa época cujo padrão de mistura entre atores e seres inanimados é “O Senhor dos Anéis”, não passa despercebido, e denuncia o desleixo com que a produção foi conduzida.

Até mesmo em pontos aparentemente insignificantes é possível perceber falhas. Os animais selvagens que aparecem no futuro, por exemplo, pertencem a espécies que cruzam répteis, aves e mamíferos indiscriminadamente, algo que a evolução dificilmente permitiria. O bando de macacos babuínos que ataca o grupo de personagens no Central Park, por exemplo, tem a carapaça dura de uma tartaruga. Outro bicho carnívoro é um cruzamento de morcego com lagarto que tem uma força capaz de rasgar o teto de um carro. São espécies claramente improváveis, ainda mais quando o filme finalmente revela qual o elemento que foi afetado pela excursão ao passado.

Finalmente, há o roteiro, escrito a seis mãos por Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Gregory Poirier. Nesse aspecto, o tratamento dado ao conto instigante de Ray Bradbury é não apenas fraco, mas cheio de erros evidentes, como a ridícula teoria de “ondas” de tecido temporal, que não tem nenhum fundo científico e aparece apenas para criar momentos de tensão.

O melhor exemplo, porém, está na tecnologia imaginada para viajar ao passado. Os passageiros ficam presos firmemente por barras de metal, sem pode mover nem a cabeça. Quando rompem a barreira do tempo, porém, aparecem milagrosamente caminhando, livres, em uma espécie de túnel translúcido que abre uma passarela sobre a selva do passado. Depois, quando voltam ao futuro, ressurgem amarrados de novo. Como pode? Ninguém explica. Quem disse que um filme ruim se preocupa com coisas como credibilidade e plausibilidade?

O lançamento em DVD da Europa Filmes é ruim. O disco simples traz imagem cortada nas laterais (4:3, em tela cheia) e som Dolby Digital 2.0. Nos EUA, o disco pelo menos tem o enquadramento original (wide 2.35:1) e som de última geração (Dolby Digital 5.1) e apenas um trailer como extra.

– O Som do Trovão (A Sound of Thunder, EUA/Alemanha/República Checa, 2005)
Direção: Peter Hyams
Elenco: Edward Burns, Catherine McCormack, Ben Kingsley, Jemima Rooper
Duração: 103 minutos

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Um comentário em “Som do Trovão, O

  1. Gostei da história do filme. Uma pena os efeitos especiais terem sido tão fracos, e a história ter sido bastante mal explicada em algumas partes. Não tenho profundo conhecimento científico na área a ponto de ter certeza se uma única borboleta iria causar uma série de eventos, como foi abordado do filme seguindo fielmente a Teoria do Caos. Não entendi aquela passarela “mágica” criada pela máquina do tempo quando eles voltavam ao passado.. ela simplesmente surgia ali, sem mais nem menos. Achei ridículo. Um outro fator é a abertura do portal espaço-tempo. Tudo bem que estamos discutindo apenas teoria, mas prefiro acreditar que esta tecnologia será, no mínimo, mais barulhenta, como nos filmes “De volta para o futuro”, com uma série de raios e pequenas explosões quando o portal era aberto. Agora, caso não tenham percebido, o que mais me intrigou foi o fato de o vulcão explodir minutos depois que o Rex foi morto. Duas coisas: Se o vulcão iria explodir, não iria deixar vestígios do animal, e portanto, não precisaria de toda aquela preocupação de matá-lo somente quando estivesse sobre o pântano, pois seus vestígios iriam desaparecer de qualquer forma. Outra coisa: A borboleta! Ela teria sido morta de qualquer maneira com a explosão do vulcão! Muito mal explicado o filme.. Mas adoro a temática de viagens no tempo, e só por isto achei o filme no mínimo interessante.. Porém, pessimamente explicado.

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