Plano de Vôo

[rating:3]

O sucesso de público de um thriller irregular como “Plano de Vôo” (Flightplan, EUA, 2005) é um depoimento do estado em que as audiências cinematográficas se encontram atualmente. O filme não é exatamente ruim. É bem interpretado, tem acabamento visual bem caprichado, e certamente oferece uma história intrigante, que prende o espectador na cadeira até os créditos finais. Quem se der ao trabalho de raciocinar um pouco e refletir sobre a trama, no entanto, vai encontrar um enredo inverossímil, repleto de falhas e contradições. Para gostar realmente de “Plano de Vôo”, é preciso não pensar sobre ele – e aparentemente isso vem acontecendo com freqüência assustadora, já que o longa-metragem foi bem nas bilheterias dos EUA (U$ 72 milhões em quatro semanas).

O filme marca o retorno de Jodie Foster como protagonista de uma grande produção após três anos. Curiosamente, a obra apresenta uma semelhança interessante com o filme anterior da atriz, “O Quarto do Pânico”, de David Fincher (“Eterno Amor” e “Meninos de Deus” não contam, pois foram participações pequenas). Em ambos, ela interpreta uma mãe que precisa proteger uma filha de circunstâncias misteriosas, além de serem obras visualmente sofisticadas e claustrofóbicas, porque se passam praticamente inteiras em um único cenário. Talvez a culpa seja das delícias da maternidade, que parecem ocupar atualmente a maior parte do tempo de Jodie. Pelo menos ela prova que o talento continua intacto, já que sua interpretação angustiada e determinada é uma das melhores coisas do filme.

A premissa é muito simples, e apresentada em menos de 20 minutos. Jodie é Kyle Pratt, uma engenheira aeronáutica que acaba de perder o marido em um acidente doméstico. Num vôo de Berlim para Nova York junto com a filha Julia (Marlene Lawston), ela adormece. Quando acorda, a garota desapareceu. Nem ela e nem a tripulação conseguem encontrá-la dentro do avião. Pior: aeromoças e passageiros não parecem lembrar da menina. A garota realmente embarcou e foi seqüestrada por alguém, ou o forte estresse fez Kyle imaginar a situação toda? O filme todo gira em torno dessa dúvida.

A direção do alemão Robert Schwentke, à primeira vista, é correta. O cineasta imprime um tom misterioso ao filme desde as primeiras imagens, ao montar a introdução, sobre a morte misteriosa do marido de Kyle, de maneira cronologicamente não-linear. Dessa forma, não ficamos sabendo muito bem como aconteceu o acidente que matou David, algo que será discutido mais à frente no filme. Além disso, o diretor inclui uma cena noturna, de vizinhos espiando a casa de Kyle pela janela, que funciona em dois sentidos: a mulher pode estar sendo vítima de um complô ou pode estar imaginando coisas. As duas situações alimentam, ao mesmo tempo, as duas linhas de investigação, quando o sumiço de Julia realmente ocorre.

A locação do super-avião, onde os 425 passageiros viajam à noite para Nova York, é quase um personagem do filme. Embora não favoreça o aspecto sufocante do roteiro, pois há muitos espaços vazios, ao contrário do que se espera de um avião, a parte interna da aeronave é responsável por composições visuais e movimentos de câmera bem interessantes, elemento que pode ser um atrativo a mais para alguns. Não que isso seja especialmente relevante para a história narrada pelo filme; muita gente pode considerar cenas virtuosas, como a bela tomada em que o foco da câmera brinca com um desenho traçado por Julia no orvalho formado pela umidade, na janela do avião, como malabarismo gratuito e inócuo.

Talvez a cena não seja tão gratuita assim. Quando Julia desaparece, a primeira reação da platéia é de angústia. Afinal, ela é uma personagem concreta; na cena citada, nós a vimos interagir com o ambiente (lembre-se que, em “O Sexto Sentido”, o personagem de Bruce Willis jamais toca nenhuma pessoa ou objeto, embora pense que toca). Mais tarde, quando parte da tripulação põe em dúvida a existência da garota, a platéia fica confusa, atordoada. Não sabemos o que pensar. E o desenrolar dos acontecimentos vai mostrar que talvez essas reações tenham sido milimetricamente planejadas pelo cineasta alemão. Nada de errado com isso, se ele não tivesse recorrido a trapaças.

Antes disso, porém, há uma das melhores cenas do filme. A certo momento, Kyle desconfia de um homem de origem árabe, que ela pensa ter visto rondando sua casa no dia anterior. Assim que comunica a suspeita, tanto os passageiros comuns – de forma mais ostensiva – quanto o agente de segurança do vôo (Peter Sarsgaard, em mais uma interpretação acima da média), de modo mais sutil, aceitam a desconfiança como um fato, ainda que não exista nenhum indício de que Kyle possa ter razão nas acusações. A seqüência é uma crítica bem urdida sobre o preconceito e a desconfiança que os ocidentais passaram a nutrir por pessoas de traços árabes, após o atentado às torres gêmeas, em 2001.

Com tudo isso, durante os dois primeiros terços, “Plano de Vôo” segue em ritmo de tensão constante. Em certo momento, e sem aviso prévio, o diretor Robert Schwentke muda tudo, dando uma guinada no ponto de vista da trama e revelando detalhes que até então desconhecíamos. E é aí que a fragilidade de “Plano de Vôo” fica evidente. Basta olhar o filme em retrospecto que passamos a perceber os truques do diretor, ao espalhar pistas falsas com o mero intuito de desorientar o espectador. Essas pistas falsas, em última instância, acabam por reduzir os personagens a meros arquétipos, bonecos sem vontade própria, cujas ações, se vistas num contexto mais amplo, passam a não fazer mais sentido.

É impossível apontar as incongruências e contradições do roteiro de “Plano de Vôo” sem revelar mais sobre o mistério central do filme do que a platéia deve saber. Mas pelo menos um grande problema pode ser revelado sem prejuízo: quem, afinal, eram os homens que Kyle Pratt viu da janela do quarto de Julia, na noite anterior ao vôo? Qual a importância dessa cena dentro do contexto dos acontecimentos dramáticos mostrados pelo filme? Por que essa cena foi mostrada com destaque? Responda as perguntas e tenha uma boa idéia de como um cineasta pode, através da montagem, manipular as reações do público. Nesse caso, de forma negativa, pois induz a platéia a imaginar situações que estão longe da verdade.

O DVD é da Buena Vista. O disco é simples, contendo o filme com boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (corte original, wide 2.35:1), e um making of como extra solitário.

– Plano de Vôo (Flightplan, EUA, 2005)
Direção: Robert Schwentke
Elenco: Jodie Foster, Peter Sarsgaard, Sean Bean, Kate Beahan
Duração: 98 minutos

2 comentários em “Plano de Vôo

  1. Rodrigo, o Bruce Willis toca diversas vezes em uma maçaneta de uma porta de sua casa. Portanto, objetos são, sim, movidos pelo personagem…

    A propósito, na crítica saiu “Sexo Sentido”.

    Abraço!

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  2. Obrigado pelo aviso. Já corrigi..

    Quanto à questão dos objetos, é o seguinte: Willis acha que toca na maçaneta. Como o filme é narrado do ponto de vista dele, a gente o vê abrindo portas, mas o final deixa claro que essas ações não acontecem fisicamente (é tudo imaginação do personagem).

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