Eleição

[rating:4]

Alexander Payne construiu reputação como cineasta independente de olhar especialmente crítico sobre a América a partir do segundo trabalho como diretor: “Eleição” (Election, EUA, 1999). Por um equívoco do marketing que promoveu o longa-metragem, perfeitamente compreensível por sinal, a obra foi um retumbante fracasso de bilheteria. É que, por se tratar de um filme sobre o universo escolar norte-americano, “Eleição” foi vendido como comédia adolescente, quando não é. Ou melhor, é bem mais do que isso – trata-se de uma sátira demolidora sobre a classe média dos EUA, com humor mais ácido e inteligente do que a média.

Os dois personagens principais são professor e aluna de uma modorrenta cidadezinha. Ao contrário do que muitos poderiam esperar, contudo, não se trata de um filme sobre a paixão avassaladora de um homem mais velho por uma ninfeta. Bem ao contrário. Jim McAllister (Matthew Broderick), um dedicado e premiado professor de escola média no estado conservador do Nebraska (EUA), sofre de antipatia congênita por Tracy Flick (Reese Whiterspoon, indicado ao Globo de Ouro pelo papel). A aluna, ambiciosa e empreendedora ao extremo, é a única concorrente à eleição para o grêmio estudantil, cargo que ela claramente vê como um degrau a mais na sua escada particular para vencer na vida.

Payne a retrata como uma criatura mecanizada que persegue uma versão suburbana do “sonho americano” sem refletir sobre o que faz. Tracy é uma aluna estudiosa, quase perfeita, que em teoria deveria ser amada por Jim, um professor que valoriza os bons estudantes. Mas por algum motivo ele não a suporta. Tenta ignorá-la até mesmo quando faz uma pergunta à classe e ela é a única a saber a resposta, situação que incomodamente se repete com freqüência alarmante. Por causa dessa antipatia, Jim acaba estimulando o galã da escola, Paul (Chris Klein), a lançar uma candidatura alternativa ao grêmio, apenas para pôr uma pedra no caminho de Tracy. O filme atribui a antipatia ao decisivo papel da aluna na demissão de outro professor (Mark Harelik), um bom amigo de Jim. Mas o buraco é, na verdade, mais embaixo. Tracy e Jim são os dois lados dessa moeda chamada “sonho americano”.

Alexander Payne conduz o espetáculo dramático com humor afiado. A câmera adota a narração e o ponto de vista de Jim, pondo a platéia na posição de, também, antipatizar com Tracy – ela é perfeita demais, ambiciosa demais, irritante demais. A narrativa, porém, não poupa o próprio professor, enfocando-o como alguém impessoal, fútil e vazio, um fracassado de paletó e gravata. As cenas que mostram o relacionamento frio e quase assexuado com a esposa (Molly Hagan) são uma demonstração inequívoca do fracasso de Jim como homem, como pessoa. Ensinar é tudo o que lhe resta. E a decisão aparentemente boba de se colocar contra Tracy dentro da escola pode se revelar uma estratégia perigosamente suicida para alguém como ele.

Alexander Payne acerta duplamente na escalação do elenco: Reese Whiterspoon é uma atriz claramente mais talentosa do que fazem crer as comédias bobas que ela já protagonizou, e Matthew Broderick não só é bom ator como ainda traz, como bagagem para um público um pouco mais velho (digamos, na faixa dos 30 anos), a lembrança do seu personagem mais famoso, o estudante farrista Ferris Bueller, do clássico oitentista “Curtindo a Vida Adoidado”. Ao vê-lo enterrado na identidade de um professor secundarista anônimo, não dá para reprimir um pensamento que Payne certamente deve ter orquestrado com um quê de sadismo: “Então é nisso que se transforma um aluno gazeteiro quando cresce – um professor fracassado, exatamente aquilo que ele mais odiava?”. Muito bom.

Remando ao contrário da maré, “Eleição” não poupa seus personagens, revelando-se muitas vezes mais cruel com eles do que poderíamos imaginar. É justamente nesse ponto que “Eleição” se afasta de outra pérola independente que lida com o mesmo universo estudantil, o ótimo “Três é Demais”, de Wes Anderson, que ampara seu protagonista com indisfarçável carinho. Em resumo, “Eleição” é um filme inteligente que alfineta sem pudor, mas com elegância, a hipocrisia do “sonho americano”, e merece ser redescoberto pelo público que faria dos trabalhos posteriores de Payne (os bons “As Confissões de Schmidt” e “Sideways”) verdadeiros ícones do cinema independente dos EUA.

O DVD é da Paramount. Tem vídeo com enquadramento original (wide 2.35:1), som razoável (Dolby Digital 5.1, porém com fraca exploração dos canais traseiros) e apenas um comentário em áudio, sem legendas, do diretor.

– Eleição (Election, EUA, 1999)
Direção: Alexander Payne
Elenco: Matthew Broderick, Reese Whiterspoon, Chris Klein, Jessica Campbell
Duração: 103 minutos

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Um comentário em “Eleição

  1. Assisti esse filme a pouco tempo e adorei. Eu amei o Tracy Flick, o melhor trabalho de Reese witherspoon que já vi. Mas uma coisa me intrigou( e irritou) quando fui a procura de críticas sobre filmes. Muitos dos blogs americanos tratam ela como vilã, coisa que discordo totalmente, afinal, na minha visão, não há vilões nesse filme.
    Ela rasgou os cartazes na véspera da eleição e ainda,quando acusada, ameaça o senhor M. no interrogatório. Mas poxa, ela teve um ataque nervoso, não planejou arrancar tudo premeditadamente. O sr. M implica com ela desde o começo,e Tracy sabe disso, sem ele nem haveria disputa. Além disso, ainda tentou fraudar a eleição no último momento só pra sentir que tinha algum controle naquele momento atribulado que ele estava e descontar suas frustrações em Tracy. Se eu tivesse que votar em alguém certamente seria nela. Apesar de ser ultra-ambiciosa ela me parece uma pessoa honesta

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