Morte num Beijo, A

[rating:4.5]

A primeira imagem de “A Morte num Beijo” (Kiss Me Deadly, EUA, 1955) é inesquecível. Uma mulher desesperada, descalça e vestida apenas com um roupão, corre à noite no meio de uma estrada. Quem é ela? De que está com medo? As perguntas pipocam na cabeça do espectador, ao mesmo tempo em que os créditos aparecem e provocam mais estranhamento, pois sobem pela tela de baixo para cima, ao invés do contrário, que seria o normal. Combinadas, os dois elementos inovadores anunciam uma obra sombria e impactante, que ousa trabalhar além dos limites do film noir para construir uma atmosfera de pesadelo constante.

Visto em retrospectiva, “A Morte num Beijo” é um audacioso comentário pessimista sobre a paranóia da Guerra Fria e o medo de um Holocausto atômico, fantasmas que assombravam a população norte-americana do período. Seguindo a tradição do noir, Aldrich utiliza personagens ambíguos e amorais, além de um visual repleto de sombras e espaços escuros, para comentar a situação política da época. Talvez por isso, o Congresso dos EUA chegou a colocar o longa-metragem no topo de uma lista de produções não-recomendáveis à juventude, sob a alegação de que a obra propagava valores morais distorcidos.

Uma observação curiosa é que Aldrich parece ter perseguido intencionalmente a sensação de desorientação que a platéia compartilha com o protagonista, o detetive particular Mike Hammer (Ralph Meeker). Na época, por exemplo, não era comum que um personagem secundário fosse apresentado, na primeira cena, de modo tão incisivo. Assim, Hammer pára o carro para dar carona à mulher assustada, imaginamos que o ponto de vista da narrativa será o da moça. Calculadamente, Aldrich dá ao casal o tempo necessário para rápidas apresentações, e para que a platéia imagine que o filme enfocará o relacionamento dos dois. Lego engano.

Pois depois, após uma parada num posto de gasolina, o carro de Hammer é parado e eles são pegos por um bando de sujeitos bem-vestidos. A moça, que não quis explicar de quê estava fugindo, é torturada e morta; Hammer escapa quase por milagre, pulando do carro após ele ser jogado numa ribanceira. Para aumentar ainda mais a desorientação de Hammer (e de nós, do lado de cá da tela), os gângsteres falar de ressurreição. O detetive não entende nada, e nós também não, mas decide investigar o caso. Só então fica claro que o verdadeiro protagonista é Mike Hammer. Com essa extravagância de retardar a anunciação do personagem principal, Aldrich antecipava “Psicose”, de Alfred Hitchcock, em cinco anos.

A investigação de Hammer não é fruto de altruísmo ou preocupação por uma mulher que mal conheceu, mas apenas alimento para o próprio ego; afinal, ele foi espancado e perdeu um carro novinho (“você é o tipo de cara que só olha para si, que malha para não ter barriga”, diz a mulher, quando o vê) por algo que não entende. Sim, Mike Hammer é o mais amoral e desagradável de todos os detetives noir. Investigadores clássicos do estilo, como Sam Spade, são duros e cínicos, mas mantêm um senso claro de justiça, coisa que Hammer não possui. Ele é um homem capaz de mandar a própria amante – a secretária, que ele se recusa a assumir como namorada – sair com outros homens, só para conseguir uma informação.

Utilizando métodos incomuns como esse, Hammer dribla as tentativas de policiais e bandidos para frear a investigação que conduz, e segue rastreando as pistas escassas, que o levam a se deparar com jornalistas desaparecidos, cientistas e barões da máfia, todos envolvidos com um caso complicado, que a envolvente narrativa conduzida por Robert Aldrich jamais explica totalmente. Essa é, afinal, uma característica dos melhores filmes noir: a atmosfera é mais importante do que o enredo, coisa que “A Morte num Beijo” honra com folga. O final é uma pérola que teve grande influência em “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino. Grande filme.

O DVD brasileiro foi lançado pela Continental. A qualidade geral é apenas razoável, com imagem ligeiramente arranhada (formato original 4:3) e som OK (Dolby Digital Mono). O principal extra é a montagem original do final do filme, apresentada em segmento separado de menos de um minuto. Apesar da curta duração, a mudança é considerável – e bastante sombria, ficando claro o motivo de tal montagem ter sido vetada pelo estúdio.

– A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly, EUA, 1955)
Direção: Robert Aldrich
Elenco: Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart, Juano Hernandez
Duração: 106 minutos

Um comentário em “Morte num Beijo, A

  1. KISS ME DEADLY ( A Morte num Beijo / EUA; 1955 ), é uma obra-prima do ” film noir ” norte-americano. O filme é considerado pelo historiador de cinema A.C. Gomes de Mattos , ” o último dos grandes filmes noirs puros ” e nada deve aos clássicos absolutos do gênero ( The Maltese Falcon, The Postman Always Rings Twice, Laura, Detour, The Big Sleep , entre outros ). O diretor Robert Aldrich foi buscar no autor mais desprezado da ficção policial hard-boiled que inspirou as películas do gênero – Mickey Spillane- o material para essa obra-prima e recheou a história com as tensões da Guerra Fria, a sordidez da sociedade capitalista e o legado miserável da humanidade. Como disse muito bem o crítico de cinema Luís Carlos Merten, ao se referir à exibição do filme na TV paga , toda a truculência do personagem Mike Hammer torna-se ninharia com o desfecho da trama, quando a ” caixa de Pandora ” disputada pelos personagens ( à maneira do falcão maltês do filme de John Huston ) se revela um artefato bélico atômico- e tudo o mais perde o sentido.
    Contrariando a opinião de muitos, o detetive Mike Hammer foi brilhantemente vivido por Ralph Meeker, que conseguiu tornar o personagem crível, humanizando-o para além dos clichês do investigador particular dos filmes noir. Meeker em KISS ME DEADLY e Dana Andrews em LAURA ( no papel do detetive Mark McPherson ) talvez tenham sido os dois únicos atores a compor com perfeição e sem a afetação direta dos clichês , os melhores detetives do film noir. É claro que Humphrey Bogart criou um tipo antológico, mas é difícil separar o Sam Spade de THE MALTESE FALCON , do Philip Marlowe de THE BIG SLEEP- ambos parecem ser o mesmo, apesar do primeiro ser personagem de Dashiell Hammett e o segundo de Raymond Chandler !
    Por várias razões, é preciso colocar KISS ME DEADLY no topo da produção do film noir, como um dos mais representativos exemplares desse ” gênero “, além de reabilitar Ralph Meeker como um grande ator, que ofereceu no filme de Aldrich, uma atuação perfeita e , portanto, impecável e definitiva de Mike Hammer.
    ( Adriano Miranda-Franca-SP- Professor e Historiador de Cinema )

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s