Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos

[rating:4]

É uma pena que o documentário seja um gênero tão desprezado, especialmente no Brasil. Não fosse isso, o sensacional poema cinematográfico “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos” (Brasil, 1999), de Marcelo Masagão, seria certamente lembrado por todos como um dos melhores e mais originais filmes brasileiro da década de 1990. Vencedor do Festival do Recife no ano em que foi produzido, o filme traça um painel deslumbrante do século XX, contando as histórias de famosos e anônimos através do casamento de uma trilha sonora suave e melodiosa com imagens de arquivo e fotografias.

A idéia, de lirismo comovente, é de uma simplicidade absoluta. Aliás, surpreendente é que ninguém tenha pensando antes em fazer algo parecido. O projeto de Masagão nasceu de uma idéia do autor para um CD-Rom. Ele conseguiu uma bolsa da Fundação MacArthur para criar o disco, contendo uma visão pessoal dos 100 anos mais importantes da história humana, a partir de uma pesquisa extensa em arquivos de imagens e jornais. Trabalhou três anos na idéia e, no meio da pesquisa, decidiu que estava reunindo material suficiente para um longa-metragem.

O resultado é fascinante. Toda a dinâmica do filme – que é bem ágil, ao contrário do que muitos esperam de documentários em geral – é construída a partir do choque entre três elementos: imagens, música e textos curtos. Não há palavras faladas. Através de legendas econômicas, Masagão faz comentários e dá informações, quase sempre complementando, e não apenas repetindo, aquilo que o espectador vê. A música dá o toque lírico ao resultado final, transformando o documentário numa espécie de poema visual.

Além de hercúleo trabalho de pesquisa, um dos maiores destaques do filme é a montagem esperta – ao todo, foram 2 mil horas no estúdio.,A edição lança mão de artifícios simples para gerar momentos de bom-humor e beleza ímpares, como o momento em que os dribles desconcertantes de Garrincha são colocados lado a lado aos passos de dança de Fred Astaire, criando um belíssimo momento que enfatiza o gênio humano.

Um detalhe importante é que não apenas os gênios do bem marcam presença em “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”; os monstros do século XX também têm espaço generoso. O filme contrapõe Einstein a Hitler, Picasso a Stalin, Nijinski a Mussolini, a II Guerra Mundial à invenção do avião, a bomba atômica à psicanálise. Masagão parece querer dizer que os instintos humanos de criação e a destruição são duas faces de uma mesma moeda. Uma coisa não sobrevive sem a outra.

O cineasta também resiste à idéia de construir a história do século XX apenas com famosos. Lembra daquele poema de Bertold Brecht que enfatiza o papel dos anônimos nos grandes eventos da humanidade? Pois o diretor alinhava celebridades e anônimos, criando fictícios personagens banais e fundindo-as com eventos reais. Em um dos segmentos, por exemplo, fala sobre o magnata Gerald Ford, responsável pela difusão do automóvel, e a intercala narrando a vida (fictícia) de um dos operários que trabalhava na fábrica dele – e que jamais possuiu um carro. Tudo isso com poucas legendas e sem palavras, lembrando a todo instante que o cinema é a arte da imagem em movimento.

Produzido com a ridícula quantia de R$ 140 mil, “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos” é um filme que merece ser redescoberto por todos que gostam de um cinema original e emocionante. Em DVD, o longa-metragem não é fácil de ser encontrado – foi lançado em uma boa edição independente pelo autor. O som é Dolby Digital 2.0, e o disco traz um punhado de curtas-metragens também dirigidos por Masagão. Biscoito fino para cinéfilos.

– Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (Brasil, 1999)
Direção: Marcelo Masagão
Documentário
Duração: 73 minutos

4 comentários em “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos

  1. Eu assisti duas vezes o documentário e tenho certeza de uma coisa, se ele tivesse sido feito lá nos EUA ou Europa ele teria ganho todos os prêmios possíveis, este documentario precisa ser mais divulgado aos brasileiros, pois é um lindo resumo de todo o seculo 20.
    ME SINTO ORGULHOSO EM SABER QUE FOI IDEALIZADO POR UM BRASILEIRO.

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  2. ótimo quero ver novamente enpolgante, fiquei curiosa com cada lembrança, parabens, só poderia ser um brasileiro, mesmo, ainda vai ser muito comentado, agradeço o professor por nos mostrar esse documentario.

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