Bendito Fruto

[rating:4]

Você lê alguma sinopse cretina sobre “Bendito Fruto” (Brasil, 2005) e faz uma careta, pois imagina que comédia romântica fazendo crônica da vida no Rio de Janeiro é pretexto para mostrar, pela enésima vez, cartões postais devidamente maquiados da realidade carioca para gringo ver. Aí você vai ao cinema, mais por dever cívico de prestigiar o cinema nacional do que por prazer, e descobre que está diante de uma comédia romântica original e encantadora, que reúne no mesmo saco temas pesados como racismo, violência urbana, trabalho infantil e homossexualismo, mas aborda-os de forma suave, amarrados em uma trama firme e cheia de qualidades. Ou seja, artigo raro no cinema nacional. Que maravilha é poder ser surpreendido, vez ou outra, por um filme inesperado falado em português.

Na verdade, um nome vem à mente como um soco quando os primeiros minutos de projeção começam a rolar: Eduardo Coutinho. Grande mestre do documentário nacional, o estilo de Coutinho está impresso em cada fotograma de “Bendito Fruto”, um filme que narra a história de duas pessoas de classe média baixa, que poderiam fazer parte da maravilhosa galeria de personagens do primoroso “Edifício Master”. Mas quem diabos é esse tal de Sérgio Goldemberg, diretor do filme? Uma pesquisa rápida revela que é formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, trabalha na Rede Globo como roteirista (“Brasil Legal”) e foi assistente de direção durante cinco anos de… Eduardo Coutinho. Ah, bom! Está explicada a semelhança.

“Bendito Fruto” nasceu de um recorte de jornal. Certo dia de 2000, o diretor leu no jornal uma notinha falando sobre a explosão de um bueiro numa rua do bairro de Botafogo. A tampa do bueiro, 130 quilos de ferro, caiu em cima de um táxi. O incidente serve no filme de ponto de partida para a ficção, promovendo um inesperado encontro de dois antigos amigos de colégio, Edgar (Otávio Augusto) e Virgínia (Vera Holtz), que não se viam há anos. Edgar é cabeleireiro, tem um pequeno salão e é solteiro. Virgínia está viúva e fica interessada no ato.

O problema é que existe um empecilho, o centro emocional do filme, um vulcão de energia chamado Maria (Zezeh Barbosa). Na aparência ela é empregada de Edgar, e tem até um modesto quartinho com umas coisas no apartamento apertado do mulherengo cortador de cabelos. De fato, Maria é mulher de Edgar há muitos anos, embora ele não tenha coragem de assumir a relação. A chegada de Virgínia promete mudar tudo – para melhor ou para pior, dependendo do ponto de vista – e detona uma tremenda confusão envolvendo uma galeria impagável de personagens suburbanos, incluindo um DJ brasileiro que mora na Espanha (Evandro Machado), um ator de novelas (Eduardo Moscovis) e duas manicures, a balzaca Telma (Lúcia Alves) e a espevitada Chiquita (Camila Pitanga).

A conjunção de talentos é completa em “Bendito Fruto”. Da homogênea e fantástica atuação do elenco afinado (desde “Cidade de Deus” não se via algo parecido no cinema nacional) até a fotografia naturalista de Antônio Luiz Mendes, tudo contribui para criar um filme com cara de Brasil, desde a luz esfuziante que bate nas frutas expostas no balcão da lanchonete no Botafogo até o labirinto geográfico que faz um burguês se perder dentro de um favela. Melhor ainda: “Bendito Fruto” prova que temas socialmente fortes podem ter no cinema uma abordagem leve, cômica até, sem que se perca um milímetro sequer de de denúncia social.

De certa forma, “Bendito Fruto” faz um contraponto interessante a longas como “Amarelo Manga”, que observa a mesma realidade – e tenta fazer a crônica dos mesmos personagens – com amargor e denuncismo. Ou seja, substitua o tom negativo que domina o filme de Cláudio Assis por um astral suave e para cima, sem no entanto recorrer àquele velho clichê do carioca tranqüilão que conhecemos muito bem. “Bendito Fruto” evita muito bem esses clichês.

Além disso, aqui não existe aquele tom teatral que domina a maior parte dos diálogos de produções brasileiras, e os atores falam como se fossem personagens de carne e osso. A estética é toda muito simples, sem movimentos elaborados de câmera, tratamento de cor ou qualquer tipo de rebuscamento estético; o efeito geral é de documentário mesmo, o que reforça a cara de Eduardo Coutinho do longa-metragem.

Na sua resenha sobre “Bendito Fruto”, o crítico Kléber Mendonça Filho fez uma observação que merece comentário. Ele diz este é o tipo de longa-metragem que tem “cheiro de Brasil” e poderia servir de referência para a construção de uma indústria nacional cinermatográfica, ao invés da produção estéril e brega que vem dominando as bilheterias, de coisas como “Sexo, Amor e Traição”. Ele tem 100% de razão. “Bendito Fruto” tem potencial comercial e qualidade cinematográfica, duas coisas que não costumam andar juntas no cinema, muito menos no Brasil. E isso não é pouca coisa.

Filme pobre, DVD pobre. O disco é um lançamento da LK-Tel. Mantém o filme com enquadramento original (letterbox), tem áudio em formato Dolby Digital 2.0 e, como extra, apenas um pequeno making of.

– Bendito Fruto (Brasil, 2005)
Direção: Sérgio Goldemberg
Elenco: Otávio Augusto, Zezeh Barbosa, Vera Holtz, Lúcia Alves
Duração: 90 minutos

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6 comentários em “Bendito Fruto

  1. Muito bom| realmente a cara do Brasil,
    Excelente o trio Otávio augusto, Zezeh Barbosa e Vera Holtz.
    Filme para representar o Brasil em festivais no exterior.
    Excelente fotografia.

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  2. Um filme bom, leve e divertido, que consegue chamar a atenção sem se apoiar em samba, mulata, palavrao gratuito, nudez e futebol, tão corriqueiros no cinema nacional. Acho que o questionamento ” – mas quem diabos é sergio goldemberg ” foi infeliz, tem um tom preconceituoso e desnecessário. Poderia o sr ” critico ” aproveitar o espaço para falar um pouco sobre novos talentos, como o caso do sr. sergio goldenberg, e “falar “de seu trabalho e não necessariamente falar de forma enfadonha do que não gostou. Todas pessoas tem um começo profissional, acho que menos o sr Rodrigo Carreiro, que já nasceu reconhecido como….como ?? enfim…. Que tal olhar o cinema nacional de forma positiva, usar os meios de comunicação para apresentar a nova safra de escritores, roteiristas, diretores, enaltecer mais que criticar simplesmente?

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  3. Sílvia, recomendo que você releia o texto com espírito, digamos, desarmado. Além de dar quatro estrelas, chamei-o de “comédia romântica original e encantadora”, e logo no primeiro parágrafo! Realmente fico triste de perceber que você não leu o texto – e se leu, não entendeu, ou até pior, leu com preconceito – e não percebeu a ironia que fiz com a expressão que você, erroneamente, interpretou com crítica negativa. Ademais, acho que seria interessante você ler um pouco sobre o site antes de criticá-lo – o Cine Repórter nasceu em 2003 e eu trabalho como crítico desde 1997, portanto não sou um iniciante, como você parece acreditar. Melhor sorte da próxima vez, tá? Abraços.

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  4. Adorei!
    Não conhecia o diretor!
    Adorei a maneira como ele “amarrou” tudo, adorei a fotografia e a atuação dos atores, que na minha opinião todos estão muuuuuuuuuuuiiiittto bem e confortáveis no papel. É uma comédia
    leve, bem humorada e de muito bom gosto.
    Um ótimo filme

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  5. Excelente filme!
    Já assisti duas vezes e recomendo a quem quiser se divertir e se envolver.
    A cena da Zezeh e do Otavio,este com uma toalha presa na cintura, dançando ao som de Linha do Horizonte é deli ciosa de se ver pela beleza da musica e pela comicidade da dança do Otavio.

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  6. Mas afinal o que acontece nessa pocilga de gringo? É de amargar ver tanta mediocridade ou desfaçatez nas fuças dessas criaturas envolvidas no mitiê do cinema nacional. O filme pode ter suas qualidades formais e técnicas o que não é novidade, dado que já se produz audiovisual com certo esmero, inclusive porque a produção de cinema no Brasil está em grande parte atrelada ao negócio da televisão zona sul Rio de Janeiro, ou seja a rede Globo. Mas o que espanta mesmo é o argumento do filme. No meu entender o filme não é um filme de denúncia porra nenhuma, pelo contrário é um filme maldoso, racista e perigoso na medida em que assevera o quê já está acontecendo. A morte, o extermínio, o genocídio de pessoas por critérios meramente raciais e/ou sociais, o que significa a mesma coisa porque a pobresa tem cor. Todos sabemos que o Brasl tem adotado escancaradamente política racial de enbranquecimento, e essa tônica é recorrente nas produções da televisão brasileira e de todo o seu parque midiático; inclusive é bom lembrar que essa orquestração não é só local. Hollywood taí pra provar. No caso do filme, alguns momentos testemunham o que estou falando. A morte e a homossexualidade como caminhos para a interrupção da procriação de descendentes; a bebidinha de receita doméstica da persongem de Vera Holtz servida para os demais personagens faz lembrar a lavoura do câncer: tê tê tê, tá, tá, tá!! olha o câncer lá no fulano ou na fulana!!! só faltou o filme versar sobre a medicina e os seus requintes de crueldade; por ultimo a personagem de Lucia Alves está num cemitério, a câmera passeia por sobre as carneiras como a quantificar o tanto de mortos, deposita flores no túmulo da jovem executada num tiroteio entre polícia e traficantes, olha para trás e a câmara foca um homem com cara de povo e a fala eufemística de Telma se dirigindo ao túmulo da morta: “…ah! e estou namorando…”; esse namorando aqui é o mesmo que dizer: “estou cozinhando” ou então ” estou cortando a grama” ou ainda “eliminar os cravos e as espinhas” são tambem eufemismos para tratar dessa barbárie confirmada pelas estatísticas oficiais de quase cinquenta mil mortos por ano. Vasculhe qualquer país em estado de guerra declarado e compare os números de mortos com os numeros do Brasil. Por que será que aquele câncer mortal veio para um Stive Jobs e não para… (complete você). Logo o filme não denuncia, mas aponta caminhos para execução do projeto racista dessa que é a mais execrável classe social do planeta: a burgesia brasileira.

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