Amadeus

[rating:5]

Figurinos suntuosos, cenários deslumbrantes, música genial, atores em ponto de bala. Essas são qualidades menores de “Amadeus” (EUA, 1984), o filme de Milos Forman sobre o genial compositor austríaco Wolfgang Mozart. Sim, qualidades menores; existem pelo menos dois outros aspectos do longa-metragem vencedor de oito Oscar que o tornam uma obra superior, uma das maiores cinebiografias já produzidas. Uma delas é a magnífica coleção de cenas antológicas, que parece nunca terminar e faz as três horas de filme passarem rápido como um esquete teatral. A outra, apontada pelo ator F. Murray Abraham, são, nas palavras do ator F. Murray Abraham, “a mais sublime descrição verbal de música já escrita”.

É a mais pura verdade. E o mais interessante é que o projeto tinha tudo para se tornar um filme, no mínimo, melancólico, já que oferece um retrato minucioso e detalhista de um sentimento extremamente negativo: a inveja. Munido de muita sensibilidade, porém, Milos Forman contorna esse detalhe com perícia, construindo um personagem principal fascinante, um sujeito corroído pela inveja a alguém que ama, ao mesmo tempo anjo e demônio, artista e canalha. E esse homem não é Mozart. Sim, você leu direito. “Amadeus” tem sido vendido como uma biografia do gênio europeu, mas é na verdade uma versão ficcionalizada da relação deste com seu mais ferrenho rival: o compositor italiano Antonio Salieri, vista do ponto de vista do último.

Na peça de Peter Schaffer, original que o filme adaptou (em um trabalho do próprio dramaturgo), Salieri era um homem odioso, que usou sua influência na corte da Viena do século XVIII para frear o sucesso de Mozart. O italiano, compositor oficial do imperador austríaco, não era um cínico calculista, mas um homem passional e absolutamente apaixonado por música; movia-o um sentimento ambíguo de devoção e inveja, de admiração e rancor pelo talento do colega. Ele soube reconhecer em Mozart, antes de todo mundo, o gênio que gostaria de ter sido – e é esse sentimento dilacerante de desejo não consumado que o filme retrata com absoluta perfeição. Ao lado de “Touro Indomável”, feito por Scorsese quatro anos antes, “Amadeus” é o mais complexo e perfeito retrato cinematográfico de um sentimento filmado na década de 1980.

Não há segredo no sucesso artístico de um projeto de tamanha envergadura, a não ser a simplicidade para sublinhar e realçar as lindas melodias do compositor austríaco, que soam durante todo o filme, com as palavras certas, nos momentos certos. É por isso, precisamente, que as cenas mais emocionantes de “Amadeus” são aquelas que mostram Salieri lendo as partituras de Mozart. Ele ouve os sons na cabeça, e se emociona profundamente, chegando a chorar de emoção mais de uma vez. Profundamente religioso, oriundo de uma família rígida de camponeses, ele classifica aquela música de “a voz de Deus”.

E por que a revolta? Porque o homem Mozart não corresponde ao que Salieri espera de um artista tão genial. Mozart é apenas uma “criança obscena”, um garotão irresponsável, que gosta de beber e jogar, e trata o próprio dom com um desleixo que beira a irresponsabilidade – um choque lindamente ilustrado pelo filme na primeira vez que Salieri o vê, quando o austríaco está praticando uma brincadeira erótica com sua futura esposa, Constanza (Elizabeth Berridge), durante uma festa no castelo do imperador da Áustria (Jeffrey Jones). Salieri espia a cena escondido. Nascia, ali, uma mistura de amor e ódio profundamente arraigada que o acompanharia pelo resto da vida. O italiano não se conformova: como era possível que alguém tão dedicado e estudioso, como ele próprio, não tivesse o talento natural de um almofadinha como Mozart?

O filme é narrado em retrospectiva por um Salieri já velho, à beira da morte, internado em um hospício. Durante uma longa conversa com um padre que lhe vai ministrar a extrema unção, o italiano o brinda (e a nós, espectadores) com uma confissão desconcertante, repleta de detalhes, sobre como “matou” Mozart. Aliás, o filme jamais cai na tentação de afirmar, ou mesmo sugerir, que Salieri realmente teve alguma participação na morte do artista, aos 35 anos. Fica ao público a tarefa de decidir qual a real responsabilidade dele nesse fato. De qualquer modo, as cenas com Salieri já velho rendem alguns dos momentos mais emocionantes do filme. Enquanto o vê falar, o espectador experimenta todo um espectro de emoções: raiva, revolta, pena, alegria, irritação, cumplicidade. Coisas que só um grande roteiro consegue extrair de palavras.

Bem, não só palavras. F. Murray Abraham, o ator que interpreta Salieri, nos brinda com uma performance antológica, cheia de olhares e gestos sutis, cheia de sutileza e alma. Tom Hulce, o intérprete de Mozart, com sua alegria juvenil e a risada de criança travessa que o define, faz um trabalho magnífico; mas Abraham ultrapassa todas as expectativas, tornando seu personagem uma figura absolutamente real, trágica e cômica ao mesmo tempo, um homem de carne e osso submetido aos mais avassaladores sentimentos. Quando ambos estão juntos em cena, o filme quase solta faíscas.

Observe, apenas como exemplo, o primeiro encontro entre ambos, quando o imperador austríaco toca para Mozart uma peça de boas vindas, escrita por Salieri após grande esforço. O gênio sorridente não faz desdém da música, mas recusa polidamente as partituras porque diz que já as decorou. Confrontado com a impossibilidade de ter aprendido a música escutando-a apenas uma vez, o gênio austríaco não apenas a refaz ao piano, como cria de improviso, em cima dela, uma melodia contagiante e muito superior. É claro que uma demonstração tão cabal de talento apenas dispara o ciúme de Salieri – um ciúme que o faz sentir uma dor tão avassaladora que é quase física.

Os momentos antológicos são tão fartos que apenas citá-los todos deixaria esse texto longo demais. Mas algumas cenas merecem atenção toda especial, porque poderiam facilmente encher uma compilação dos melhores momentos do cinema: o baile de máscaras em que Mozart, bêbado, executa uma melodia complicadíssima de cabeça para baixo ao piano, demonstrando toda a extensão de seu talento; a belíssima seqüência final, quando um Mozart moribundo dita uma música completa a Salieri (incluindo arranjos para todos os instrumentos de sopro e cordas!), de maneira tão rápida que o italiano não consegue acompanhá-lo. E não perca, acima de tudo, as lindas descrições metafóricas da música de Mozart feitas por Salieri. A verdade é que, se tivesse sido capaz de descrever de modo tão completo a criação do colega, na vida real, poderia ter abandonado a profissão de maestro e seguido a de poeta. Teria se dado melhor.

A Warner lançou no Brasil duas versões do filme, sendo uma simples e outra dupla. A edição simples traz o corte exibido nos cinemas (158 minutos), com ótima qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (wide 2.35:1), sem extras. A edição dupla contém, no disco 1, a versão do diretor, com 22 minutos a mais e mesmas especificações técnicas (DD 5.1 e wide 2.35:1), mais um comentário não legendado de Milos Forman e Peter Schaffer. O disco 2 tem um documentário (61 minutos) repleto de detalhes de bastidores e entrevistas com todos os envolvidos.

A rigor, não existem grandes alterações na edição mais longa. Forman explica que os cortes para exibição no cinema aconteceram simplesmente porque ele e os produtores acharam que a duração estava longa demais para um público não familiarizado com música clássica. A cena mais significativa incluída mostra um encontro entre Salieri e Constanza, quando o compositor italiano sugere à mulher de Mozart que poderia facilitar as coisas para o marido dele em troca de um favor sexual. Não é muito importante, embora ilustre bem o quão Salieri se sentia mal agindo com tanta inveja contra o artista que mais admirava.

– Amadeus (EUA, 1984)
Direção: Milos Forman
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Jeffrey Jones
Duração: 158 minutos (versão normal), 180 minutos (versão do diretor)

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6 comentários em “Amadeus

  1. Só faltou lembrar a maquiagem, Rodrigo.

    Afora as atuações e a música, evidentemente, foi o que mais me impressionou. Parte do trabalho de Abraham não teria sido tão sublime se não fosse a transformação pela qual passou.

    Rodei a fundo pelo site esses dias e – apesar de não conseguir parar de ler suas resenhas e ótimas referências, que parecem intermináveis – notei que não há perfis de atores e diretores, notícias sobre o cinema, nem sobre as grandes premiações. Em virtude de seu trabalho acadêmico não lhe deve sobrar tempo para tal, não é?

    Porque o que se vê na internet são portais pobres em informações e qualidade, ao contrário do seu, mas que primam pela quantidade de detalhes diversos, com estilos mais modernos. O que certamente atrai mais leitores, já que não são muitos os que compartilham ou entendem suas ideias. Há quanto tempo criou o CR?

    Abraços!

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  2. Percebi agora esse comentário que me havia passado batido. Acho que você mesmo respondeu à pergunta formulada, André. O pouco tempo que tenho para o site, prefiro gastar escrevendo críticas (os perfis que há nele foram feitos sob encomenda e remunerados). Quanto ao CR, desde agosto de 2003.

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  3. Esse filme é constantemente criticado pelos músicos, com o argumento de que ele não reproduz a vida de Mozart com fidelidade. Acho isso a maior bobagem. Parece que têm ciúmes de Mozart; que quando alguém o populariza, precisam mostrar que a popularização o vulgarizou. Gostei muito da crítica, da observação a respeito de quem é o verdadeiro protagonista – Salieri -, e enfatizaria que, apesar de baseado em fatos reais, o filme é ficcional.

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  4. A atuação de F. Murray Abrahan mostra que não há limites para a interpretação. Filme simplesmente magnífico.Estará para sempre em minha lista top 10 dos maiores filmes da história. Já perdi a conta de quantas vezes já assisti. Acabei de adquirí-lo em blu ray e o que já era excepcional ficou, em alta definição, deslumbrante.

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