Receita para a Máfia, Uma

[rating:3.5]

“Uma Receita Para a Máfia” (Dinner Rush, EUA, 2000) é um filme independente norte-americano, mas não um filme comum. Talvez seja, ao contrário, um dos trabalhos mais esquisitos a chegar ao Brasil em muito tempo. Trata-se de um filme que narra os bastidores e o cotidiano de funcionários, proprietários e clientes de um restaurante verdadeiro em Nova Iorque. O mais curioso é que o trabalho saiu da mente do proprietário do lugar, um rico publicitário de 64 anos, Bob Giraldi. Antes de “Uma Receita Para a Máfia”, Giraldi havia dirigido um único filme, em 1989. Isso tudo pode levar o espectador a crer que “Dinner Rush” não passa de um comercial de luxo do restaurante do diretor. Talvez até funcione assim, mas vai mais longe do que isso. “Uma Receita Para a Máfia” é afetado, mas criativo e charmoso. Poderia ser descrito como um encontro bizarro do dinamarquês “A Festa de Babette” com o painel multi-personagens de “Short Cuts”.

O filme apresenta uma dúzia de personagens interessantes, cruza várias histórias individuais e utiliza esse emaranhado de relações pessoais para filosofar sobre família e sobre a tendência da sociedade contemporânea para transformar tudo – até um simples jantar – em espetáculo (no caso, dos sentidos). O filme, então, é um show, no verdadeiro sentido da palavra. Um show temperado com receitas saborosas e coloridas.

O restaurante onde quase todas as cenas foram filmadas, o Gigino Trattoria, fica no rico bairro de Tribeca, em Nova York. Detalhe importante: Bob Giraldi possui sociedade em outros nove restaurantes (em Londres, Hong Kong e lá mesmo, na Big Apple). Fazer esse filme foi, segundo ele, uma maneira de celebrar a arte de comer bem e apresentar, para o público leigo, os bastidores de um restaurante de alto nível. A rigor, o filme foi apenas um hobby de um milionário. Mas o resultado final é mais interessante do que isso.

Os 98 minutos de projeção do longa-metragem transcorrem em uma única noite. O Gigino Trattoria está particularmente lotado. Por ser o restaurante da moda em Nova York, é o tipo de lugar onde se demora três meses para conseguir uma reserva. Ou em que freqüentadores demoram 40, 50 minutos aguardando na fila sem poder demonstrar o mais leve traço de irritação. O motivo de tanta paciência está na cozinha (locação que, junto com o salão principal do restaurante, domina a película). Ou melhor, nos pratos que o jovem chef Udo Cropa (Edoardo Ballerinni) prepara. Udo é grosso e mulherengo, mas craque com as panelas. Com a providencial ajuda de Duncan (Kirk Acevedo), um apostador compulsivo, cria pratos cujo visual é capaz de fazer um asceta desistir do jejum.

A ironia disso é o que o pai de Udo, Louis (Danny Aiello), é um tradicionalista que sempre usou o lugar como fachada para fazer apostas. Louis gosta de ver os fregueses comendo, mas prefere uma boa lingüiça assada, para irritação do filho. A relação inversamente proporcional que os dois mantêm com o ato de comer sublinha com inteligência um dos grandes temas do longa, o embate tradição X modernidade. Esse assunto aparece também em vários outros relacionamentos que o enredo vai traçando, como a própria relação paternal que Louis estabelece com Duncan, cujo estilo de cozinhar (e também de viver) é menos refinado. Outra subtrama que evidencia essa temática é o aparecimento de dois mafiosos “liberais”, que rompem a ética romântica de Louis e exigem sociedade no restaurante.

Além deles, há muitos outros personagens interessantes: uma garçonete (Summer Phoenix) que é artista plástica de qualidade, uma atendente (Vivian Wu) que mantém um romance simultâneo com Udo e Duncan e um barman (Sean Harris) estilo ‘enciclopédia ambulante’ que serve drinques e responde, por alguns dólares, a qualquer pergunta dos clientes. É dele a frase que dá o tom do filme: “Nos dias de hoje, comer se transformou em um show”. É isso. A câmera ágil de Giraldi, reforçada por uma montagem veloz, transita entre a cozinha (os bastidores), caótica como os corredores de uma emergência hospitalar, e o salão principal (o palco), lugar onde o show não pode parar. E não pára mesmo. Nem com um blackout, que mergulha o ambiente na luz de velas por alguns minutos, feito sob medida para a equipe técnica mostrar como se constrói um filme plasticamente belo. É tão belo que fica, às vezes, estéril.

A fotografia do filme é um destaque óbvio, especialmente nas cenas que se passam na cozinha. Lá, o filme se transforma numa versão turbinada de “A Festa de Babette”, exagerada pelas comidas exóticas e multicoloridas que Udo bola, enquanto trata os funcionários à base do grito e dá em cima da amiga de uma crítica gastronômica, que vai ao lugar tanto pelo jantar quanto pelo ritual de sedução que envolve o chef. São cenas divertidas e literalmente deliciosas. Comida e sexo estão interligados no filme, são como cara e coroa de uma mesma moeda. Enquanto isso, o roteiro de Giraldi vai cruzando as diversas tramas com uma desenvoltura e naturalidade que lembram o Robert Altman dos melhores momentos.

Isso segue até os quinze minutos finais, quando um ato um tanto inesperado de Louis dá um novo rumo à trama, encaminhando-a rumo a um final meio decepcionante. Tudo bem, nem tudo é perfeito, embora o elenco, obviamente se divertindo, esteja bem perto disso. Uma menção especial deve ser dada a Danny Aiello, muito à vontade no papel do alter ego do cineasta. É verdade que Aiello já interpretou o dono de um restaurante italiano, mas em “Faça a Coisa Certa” o lugar estava mais para Pizza Hut do que para paraíso da nouvelle cuisine. Através do personagem dele, fica evidente que Giraldi é um nostálgico de carteirinha, e que “Dinner Rush” funciona como uma despedida em grande estilo de um mundo de glamour que parece tê-lo deixado para trás.

Uma informação final: o título original faz referência bem-humorada ao “engarrafamento” que ocorre no restaurante durante a noite em questão, quando nada menos do que 264 pratos são servidos aos clientes. Aliás, uma boa sugestão é forrar o estômago antes de ir ao filme. Assistir à película antes do jantar pode significar correr o risco de incomodar outros espectadores, se você não conseguir controlar os roncos no estômago. Depois da sessão, a dica é dar uma passada no site do restaurante e dar uma olhada nas receitas maravilhosas que preparam por lá. Só que fazer igual vai ser difícil.

O DVD [é da Europa filmes, que o lançou com imagem cortada nas laterais (fullscreen 4×3) e trilha de áudio Dolby Digital 2.0. Há documentário, cenas cortadas e até entrevista com o diretor, numa boa galeria de extras.

– Dinner Rush (EUA, 2000)
Direção: Bob Giraldi
Elenco: Danny Aiello, Edoardo Ballerini, Mike McGlone, Vivian Wu, Sandra Bernhard
Duração: 98 minutos

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2 comentários em “Receita para a Máfia, Uma

  1. Boa noite, meu amigo. Há muito tempo assisti este filme. Peguei por acaso numa locadora em função de Danny Aiello, de quem gosto muito. Não vi nada demais, a princípio. Mas confesso que foi uma grata surpresa já nos primeiros 15 minutos. Na época achei que era só uma produção simples, despretensiosa de algum estúdio querendo lavar algum dinheiro. Mas hoje, sabendo da história desse filme, confsso que entendi aquela…pulga que me ficou atrás da orelaha, afinal, no final das contas eu amei o filme. É que eu sou publicitário. Não rico, mas sou. Rsrsrsrs.

    Brigado pela preciosa informação. adorei mesmo.

    Grande abraço.

    Ah, fiquei fã do seu site/blog/blag, o que for.

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