Por Um Punhado de Dólares

[rating:4.5]

Clint Eastwood já estava com 33 anos em 1963, e Hollywood ainda era um sonho distante. Entre tentativas de virar cantor country e bicos como construtor de piscinas em Los Angeles (EUA), ele embarcou na carreira de ator de TV e foi descoberto por um cineasta ainda mais desconhecido, que lhe enviou uma proposta. O diretor italiano Sergio Leone oferecia o papel de protagonista num faroeste local. Clint aceitou por farra, pois teria a oportunidade de conhecer a Itália e a Espanha, em cujos desertos o longa-metragem seria rodado. Quis o destino, entretanto, que o tal filme o pusesse no mapa. “Por Um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari, Itália/Espanha/Alemanha, 1964) levou os faroestes B produzidos na Europa, chamados de western spaghetti, aos cinemas internacionais, e revelou o talento de um dos diretores de estilo mais pessoal da história do cinema.

Embora tido por muitos como marco inicial dos faroestes baratos feitos na Itália, “Por Um Punhado de Dólares” não foi o primeiro filme do estilo, uma vez que pelo menos 25 outros westerns já haviam sido lançados no país europeu, nos primeiros anos da década de 1960. Foi o filme de Leone, no entanto, que abriu os olhos dos cinéfilos de outros países para a boa qualidade das produções italianas. Além disso, reza a lenda que foi Leone, junto com o assistente Sergio Corbucci (que juntos haviam feito “O Colosso de Rodes” em 1960), o primeiro homem a perceber que o deserto de Almeria, na Espanha, oferecia paisagens adequadas para westerns. Portanto, não é errado considerar o italiano como pioneiro do subgênero.

A inspiração para “Por Um Punhado de Dólares” veio de um filme japonês. Em “Yojimbo”, lançado três anos antes, Akira Kurosawa apresentava a saga de um samurai sem nome que se via no meio de uma disputa entre dois grupos de criminosos. Sergio Leone simplesmente transportou a ação para o Velho Oeste. Um misterioso pistoleiro (Eastwood) chega a uma pequena cidade dominada por duas gangues, os Rojo e os Baxter, e vê na disputa dos grupos uma oportunidade para ganhar dinheiro de ambos os lados. A trama é uma espécie de rascunho que seria refinado nos dois filmes seguintes do diretor, ambos reapresentando o mesmo personagem principal.

“Por Um Punhado de Dólares” é o mais fraco exemplar da famosa “trilogia dos dólares”, mas nem por isso é um filme ruim. Todos os elementos do estilo de Leone já estão lá: as longas tomadas silenciosas e carregadas de tensão que precedem os duelos, o uso generoso de closes nos rostos suados e queimados de sol dos personagens, o humor negro.

É verdade que todos esses elementos, que se tornariam marca registrada do diretor nos trabalhos seguintes, ainda não aparecem na sua forma perfeita, mas já deixam antever a qualidade superior do cineasta, e certamente demarcam a diferença qualitativa entre Leone e os demais diretores italianos que se dedicariam ao estilo, como Sergio Corbucci e Damiano Damiani. Esses últimos não são ruins, mas estão longe do apuro estético e do domínio absoluto da linguagem cinematográfica demonstrados pelo homem por trás da câmera de “Por Um Punhado de Dólares”.

Um outro ponto que encontra eco na filmografia de Leone é a trama irregular, quase um pretexto para que o diretor possa exercitar seu modo personalista de filmar. Essa frouxidão no enredo permite, contudo, que a personalidade do herói sofra pequenas mudanças no decorrer da trama, de forma que ele se transforma de mero oportunista em um sujeito com coração (no início do longa, que o personagem de Clint Eastwood é um sujeito amoral, interessado apenas em ganhar dinheiro. Já no final, ele é capaz de ter atitudes altruístas, como quando liberta uma família da tirania do chefe de uma das gangues da cidade).

De qualquer forma, o filme cresce na segunda metade, quando Leone imprime um ritmo mais acelerado, utiliza enquadramentos originais (como imagens que ilustram o ponto de vista do protagonista de dentro de um caixão, por exemplo) e cria tomadas de composição exímia. Boa parte desse trecho acontece em cenas noturnas e Leone se sai muito bem no trabalho com a iluminação, valorizando o estilo chiaro-escuro nas cenas passadas em interiores, compondo enquadramentos que parecem roubados de pinturas de Vermeer.

O filme desemboca em uma linda seqüência, que mostra um duelo tenso entre o “homem sem nome” e os remanescentes de uma das gangues. O final acentua o caráter mítico do personagem de Clint Eastwood, sugerindo que ele manipula os adversários para induzi-los a atribuir a ele uma aura quase sobrenatural.

Há um paralelo evidente entre este filme e “Django”, a obra de estréia de Sergio Corbucci. O ponto de partida de ambos parece ter sido o mesmo personagem principal: um homem misterioso, de passado desconhecido e rápido no gatilho, que enfrenta sozinho um bando de malfeitores. Leone, que delinearia em termos estéticos e narrativos todo o gênero do western spaghetti, também recebeu influência do ex-pupilo, e seus filmes seguintes reforçam a aura mítica do “homem sem nome”.

A curiosidade é que o misterioso pistoleiro de passado desconhecido tem, na verdade, um nome: é chamado de Joe por alguns personagens, embora o filme jamais deixe claro se este é mesmo o nome dele ou se é apenas um apelido popular para alguém cujo nome não se conhece (seria o correspondente a algo como “Zé”, em bom português).

A edição do filme em DVD brasileiro é pobre, contendo apenas o filme (em formato widescreen letterboxed) e uma trilha de áudio no formato Dolby Digital 2.0, em inglês. Não há extras, e qualidade da imagem não passa do razoável. Pior: há uma pequena falha de sincronia nas legendas, que aparecem um pouco depois do diálogo correspondente. Esse problema se agrava perto do final do filme, mebora não seja algo tão grande. A obra também conta da caixa “Trilogia do Homem Sem Nome”, alnçada pela Fox, com qualidade de imagem idêntica.

– Por Um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari, Itália/Espanha/Alemanha, 1964)
Direção: Sergio Leone
Elenco: Clint Eastwood, Gian Maria Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp
Duração: 100 minutos

5 comentários em “Por Um Punhado de Dólares

  1. O filme em si é excelente, nota 10. Agora com relação a qualidade do DVD é péssimo, nota 0.
    Eu comprei este DVD e sinto que fui totalmente enganado. As informações contidas na capa do DVD não são a realidade. A capa parece com cópias de DVD piratas (imagem muito mal feita), a dublagem do filme é horrível. E diferente da nota do editor o DVD só possui versão dublada, não tem áudio original (em inglês) coisa nenhuma.

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  2. Vitor, minha edição é da Continental. Não sei qual é a sua, mas o áudio da minha é em inglês. Aí vai uma dica: fique sempre desconfiado das edições de empresas pequenas, como Continental, Magnus Opus, LK-Tel. É muito comum que informações da capa estejam incorretas. Minha sugestão é que nesses casos você sempre peça para tocar o DVD antes de comprar, só pra checar.

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  3. Certa vez, eu estava “assoviando” uma música na casa de minha madrasta. De repente, ela me pediu para repetir a música. Era uma música de Ennio Morricone intitulada: “Titoli”. Anos depois, descobri que quem assoviava essa música era nada mais nada menos que Alessandro Alessandroni (regente do coral: I Cantori Moderni di Alessandroni), que embelezou as principais trilhas sonoras dos filmes de Sergio Leone. É uma pena que a cópia de DVD do “Por Um Punhado de Dólares” tenha sido tão ruim.

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  4. Certa vez, eu estava “assoviando” uma música na casa de minha madrasta.De repente,
    ela me pediu para repetir a música.Era uma música de Ennio Morricone intitulada: “Titoli”.
    Anos depois, descobri que, quem assoviava essa música era,nada mais nada menos que Alessandro Alessandroni(regente do coral: I Cantori Moderni di Alessandroni),que embe-
    lezou as principais trilhas sonoras dos filmes de Sergio Leone. É uma pena que a cópia de
    DVD do :”Por Um Punhado de Dólares”,tenha sido tão ruim.Imagino,que as distribuidoras,na pressa de lançar o filme no Brasil, ocasionou a péssima qualidade da imagem.

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