Matei Jesse James

[rating:4]

“Matei Jesse James” (I Shot Jesse James, EUA, 1949) é o filme de estréia do controverso diretor Samuel Fuller. Como projeto, o longa-metragem diz muito sobre o tipo de cinema que agradava ao cineasta. Embora o legendário pistoleiro norte-americano esteja no título, ele não é o protagonista desse melodrama surpreendente. Esse papel cabe a Bob Ford (John Ireland), o integrante da quadrilha de James que o matou, covardemente, com um tiro nas costas. O filme de Fuller ficcionaliza o episódio, imaginando o que poderia ter acontecido com Ford após o crime que lhe tornou famoso e, ao mesmo tempo, maldito.

A produção de “Matei Jesse James” foi bastante conturbada. Mesmo trabalhando com orçamento reduzido, Fuller não pôde escalar o ator que desejava para o papel de Jesse James, e teve que efetuar mudanças no elenco até dias antes de as filmagens começarem. Mesmo assim, desde o começo, optou por soluções visuais baratas e criativas para cenas menos importantes, de modo que pudesse filmar sem ser importunado.

Essa criatividade com poucos recursos fica evidente já nos créditos de abertura, que não passam de cartazes desenhados com letras no estilo western e colados em uma parede. A câmera passeia pelos cartazes e, imediatamente após mostrar o nome do diretor, move-se rapidamente para a direita e focaliza o rosto do famoso bandido, que abre o filme freneticamente em meio a um assalto. Créditos como os de “Durval Discos” bebem diretamente dessa fonte.

Nessa seqüência, Jesse salva a vida de Ford, baleado no assalto. Os dois se escondem na fazenda do chefe do bando, sob identidades falsas. Acontece que Ford tem uma paixão. A presença de Cynthy Waters (Barbara Britton) na cidade faz Bob Ford considerar seriamente a possibilidade de matar o chefe para ganhar o perdão da Justiça. Sendo homem livre, e contando ainda com o bônus da recompensa pelo sumiço de James, Ford imagina que será fácil se casar e começar uma vida de fazendeiro. O filme traça o retrato da vida de Ford após o crime, bem como as reações da sociedade ao seu ato.

De certa maneira, não seria errado chamar “Matei Jesse James” de um anti-western. Abusando de movimentos de câmera rápidos e firmes, e de um número bem mais abundante de closes em rostos do que o normal, Sam Fuller realiza um excelente estudo sobre a culpa. Após o assassinato, Ford é assaltado pela rejeição social (não tanto pelo assassinato em si, mas pela forma covarde como o realizou) e sobretudo pelo remorso. O sentimento de culpa fica evidente quando o rapaz, contratado para encenar o crime em um espetáculo teatral de segunda categoria, não consegue simular o disparo fatal.

Há cenas memoráveis no longa-metragem, como o encontro de Ford com um violeiro que, sem saber a identidade do sujeito, canta para ele uma balada popular que enaltece James e o chama de “covarde e mesquinho” (a reação de Ford é simplesmente sair do bar, humilhado). Todos os personagens são delineados de maneira firme (observe, por exemplo, a reação da namorada de Bob Ford ao receber a notícia do crime cometido por ele). O final da película contém um belo exemplo do tipo de ironia cruel a que Sam Fuller adorava submeter seus personagens.

É um privilégio que as platéias brasileiras possam assistir a “Matei Jesse James” em DVD, pois o lançamento digital do primeiro filme de Fuller aconteceu em pouqíssimos lugares. A cópia disponibilizada pela Aurora tem imagem boa, som Dolby Digital 2.0 mono, e o disco não contém extras, excetuando-se trechos de críticas e uma sinopse em texto.

– Matei Jesse James (I Shot Jesse James, EUA, 1949)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: John Ireland, Preston Foster, Barbara Britton, Reed Hadley
Duração: 80 minutos

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4 comentários em “Matei Jesse James

  1. O filme, originado de um excelente livro de Ron Hansen, “O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford” deixa todas as adaptações cinematográficas da morte de Jesse James com ares de prosa superficial e insossa. Essa não é diferente. Uma cena marcante desse filme é quando o Bob escuta a música feita pra ele em um saloon, e só. A falta de lirismo na construção da relação entre Bob e Jesse fica clara na tentativa fracassada do diretor em tentar colocar no final do filme aquilo que até antes não tinha feito: os motivos da traição vão além de interesses econômicos ou amorosos. Bob amava Jesse, por isso queria se transformar em quem ele era. Jesse sabia que morreria e presenteou Bob com a arma que o mataria. É a dança da morte como você muito bem escreveu na crítica de “O assassinato…”, Rodrigo.
    O “eu o amava” dito na última cena por Ford no filme “Matei Jesse James” é tardio, o filme inteiro caminhou na falta de lirismo e na negação dessa última confissão.
    Vejo uma tremenda injustiça nas 5 estrelas para esse filme.

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  2. Dei 4 estrelas, Renan. Ressalto apenas que você tenta uma interpretação (muito coerente, aliás) para o que sentia o Robert Ford, mas que afinal de contas não é mais do que uma interpretação. A falta de lirismo é algo que está nela, na interpretação, e não no filme. Abraços.

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  3. Realmente, Rodrigo, tenho consciência dessa interpretação. Para mim, a frustração do filme é ter deixardo uma lacuna enorme, um abismo entre os personagens. Jesse e Bob só não estão mais distantes aqui porque ainda tem a adaptação “Jesse James” com o Henry Fonda. O diretor tinha uma história excelente nas mãos, mas a transformou em um assassinato comum, motivado por interesses amorosos (uma relação com a atriz sem profundidade construída no filme). Se o western é a essência do cinema, vejo que o diretor ignorou as possibilidades de deixar a história com traços marcantes na película.
    É interessante observar a culpa de Bob, mas soa tão mal encaixada, como se fosse motivada pela rejeição pública, que não é digestiva. É claro que isso é pura interpretação.

    À parte, Rodrigo, sou de Ribeirão Preto, SP, e por aqui não encontro os faroestes do Altman. Onde poderia encomendar?

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