Bons Companheiros, Os

[rating:5]

Um detalhe interessante a respeito da recepção ao trabalho de Martin Scorsese é que, via de regra, os filmes que ele dirigiu não fizeram muito sucesso de crítica quando foram lançados. As exceções a essa regra seriam “Taxi Driver” e “Touro Indomável”, duas obras-primas inquestionáveis, que ainda não chegaram a ser unanimidades positivas quando chegaram aos cinemas. Já “Os Bons Companheiros” (Goodfellas, EUA, 1990) não fez muito sucesso nos meses que se seguiram após o lançamento comercial. Foi preciso uma reavaliação crítica, algum tempo depois, para que o longa-metragem pudesse ser considerado um dos grandes trabalhos de Scorsese. E essa afirmação atualmente parece inquestionável.

Algumas pessoas gostam de comparar “Os Bons Companheiros” à legendária trilogia de Coppola sobre a máfia. A comparação não é apropriada, embora ambos os trabalhos registrem a saga de um mafioso. Enquanto Coppola trabalha com um registro nostálgico, operístico e bastante estilizado, Scorsese é muito mais dinâmico e realista. Além disso, o ponto de vista sobre a máfia é muito diferente. Coppola providencia uma janela para o espectador espiar o funcionamento da camada mais alta na hierarquia mafiosa. Scorsese joga o foco do seu filme em um mafioso comum, que ocupa uma posição intermediária na mesma hierarquia. As duas obras são complementares.

Em termos de estilo, não há dúvida de que “Os Bons Companheiros” deixou uma marca profunda no cinema ocidental do fim do século XX. Isso parece especialmente adequado no que se refere à montagem. Basta observar os primeiros 10 ou 15 minutos de projeção para identificar, no filme, a origem do modo de narração adotado, por exemplo, pelo orgulho nacional que foi “Cidade de Deus”. É impossível imaginar o filme de Fernando Meirelles sem a existência do épico mundano de Scorsese.

A narrativa em off que mostra o narrador conversando em tom coloquial com o espectador, por exemplo, tem origem em Scorsese, bem como um truque de edição utilizado à exaustão em filmes posteriores: o congelamento de uma cena na metade, enquanto o narrador continua a falar sobre o personagem que aparece na imagem estática. “Cidade de Deus” usa e abusa do recurso, e esse é apenas um exemplo facilmente reconhecível aos brasileiros. Em Hollywood esse recurso acabou virando sinônimo de filme “alternativo”, “bacana” ou “da hora”, qualquer que seja a expressão que indique “moderno”.

A abertura de “Os Bons Companheiros” é fascinante. A frase que abre o longa-metragem fisga a platéia instantaneamente, e se tornou antológica: “Até onde consigo me lembrar, sempre quis ser um gângster”, afirma Henry Hill (Ray Liotta). Antes, uma curta e violenta seqüência já deixou a platéia em estado de alerta. A partir daí, o filme volta a 1955, quando Henry era criança, e podia ver a movimentação dos mafiosos de Little Italy, em Nova York, pela janela do quarto. O longa acompanha a trajetória de Henry dentro da máfia até 1988.

“Os Bons Companheiros” não conta uma história comum, mas uma saga completa, com a ascensão e a queda de um criminoso para quem o crime é algo tão natural como respirar ou comer – um estilo de vida, algo que está acima de questionamentos morais. Ray Liotta mata a pau no papel principal (observe as cenas da época em que Henry está viciado em cocaína, com o nariz vermelho e o suor frio banhando a testa), mas tem a seu lado um elenco de sonho, que inclui Robert De Niro e Joe Pesci (premiado com o Oscar) como dois amigos de infância que compartilham com ele posições intermediárias na hierarquia criminosa do grupo.

Scorsese dá um jeito de informar o espectador sobre a passagem do tempo usando a trilha sonora (outra lição devidamente aprendida por Fernando Meirelles). Além disso, proporciona algumas seqüências antológicas, como a apresentação dos gângsters que integram a quadrilha (com uma câmera subjetiva caminhando por entre as mesas de um restaurante e sendo saudada pelos mafiosos, um a um) e a entrada de Henry com a namorada Karen (Lorraine Bracco, excelente) pela porta dos fundos de um restaurante. A câmera percorre os corredores intrincados do local, mostrando diversos ambientes, sem cortes, até que os dois cheguem ao salão principal. Impressionante, como todo o filme.

A edição especial de “Os Bons Companheiros” é dupla e bastante interessante. O disco 1 contém o filme, com imagem original (widescreen 1.75:1) e som Dolby Digital 5.1, mais dois comentários em áudio. O primeiro traz Scorsese e mais nove colaboradores, entre roteirista, montadora, atores e produtores. O segundo apresenta o gângster Henry Hill e um agente do FBI.

O disco 2 é dedicado aos documentários. Três, ao todo, que juntos somam 50 minutos. Há ainda um featurette (4 minutos) que compara os storyboards com as imagens finais presentes no filme. Todo o material está legendado em português. O lançamento é da Warner.

– Os Bons Companheiros (Goodfellas, EUA, 1990)
Direção; Martin Scorsese
Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco
Duração: 145 minutos

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3 comentários em “Bons Companheiros, Os

  1. Assisti a este filme ontem e gostei bastante. Notei que durante o filme, várias vezes o som de uma cena começa antes que a anterior termine. Lembro de uma cena de uma conversa em que (se não me engano) duas pessoas conversavam e era possível ouvir uma campainha tocando, pouco antes do fim desta cena, quando cortou para outra com alguém em frente a uma porta. Achei bem interessante isso, e acredito que o propósito seja criar uma transição mais suave entre uma cena e outra.

    Quanto ao que você disse sobre a comparação com “Cidade de Deus”, faz todo o sentido. Excelente texto!

    Um abraço!

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  2. Rob, essa dessincronia entre os cortes na imagem e na trilha de áudio é mais ou menos comum. Os manuais de edição recomendam essa técnica para que as transições entre os planos seja mais suave e menos abrupta. Mas é fato que a elegância como Scorsese conecta esses cortes (seu exemplo é ótimo) não se alcança com facilidade, não. Parabéns por notar isso, esse tipo dedetalhe costuma passar desapercebido!

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