Closer – Perto Demais

[rating:4.5]

Sabe aquele poema de Carlos Drummond de Andrade, chamado “Quadrilha”? É aquele que diz assim: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria…”. O filme de Mike Nichols, “Perto Demais” (Closer, EUA, 2004), segue mais ou menos essa linha. Trata-se de um retrato cruel, pessimista até o osso, dos relacionamentos humanos. Indo na contramão dos romances quase sempre otimistas de Hollywood, “Perto Demais” escancara o amor como um sentimento egoísta, capaz de levar pessoas normais a mentir, trair e humilhar, mesmo sabendo claramente que estão destruindo a vida de outros. Desde já, é um dos grandes filmes de 2004, e um dos longas-metragens mais desiludidos já levados à tela grande.

A crítica internacional tem se dividido ao falar de “Perto Demais”, mas a maioria aponta como destaque da película as atuações de Natalie Portman e Clive Owen, como dois dos quatro sujeitos que protagonizam a obra. Não estão errados, mas talvez tenham esquecido que, por trás de grandes atuações, é preciso sempre existir um grande texto. O roteiro de Patrick Marber, baseado em peça do próprio autor, é a verdadeira jóia da coroa de “Perto Demais”. Marber disseca as vicissitudes do ato de amar de maneira implacável, mostrando que é impossível dissociar, em qualquer relação sentimental, aquilo que é concreto do que é apenas idealizado e, portanto, ilusório.

Patrick Marber criou quatro personagens inesquecíveis, e compôs diálogos com um refinamento impecável, ousando conseguir algo muito raro em Hollywood: dar uma voz distinta, única, a cada um deles. Vejamos. Dan (Jude Law) é um jornalista que escreve obituários. É um homem inseguro da própria capacidade, meio solitário e um bocado ambicioso. Bem diferente da stripper Alice (Natalie Portman), norte-americana recém-chegada a Londres, com quem ele se envolve após um atropelamento. Alice é jovem, quase uma adolescente, e mostra traços da impulsividade e da autoconfiança típicas de alguém da sua idade. Esses traços de sua personalidade aparecem nos diálogos: Alice fala rapidamente, crivando o interlocutor de perguntas e utilizando constantemente verbos no imperativo (“faça isso, diga aquilo”). Dan fala baixo e quase nunca olha nos olhos o interlocutor.

A fotógrafa norte-americana Anna (Julia Roberts), que clica Dan para o lançamento de um livro, é bem diferente: calada, observadora, enigmática. Tenta se manter distante e demonstrar menos as emoções. É uma mulher calejada, já passou por um casamento, e talvez por isso seja a mais cética e mais cautelosa dos personagens; a cautela é tanta que se transforma em passividade. Anna é uma personagem que quase não age, ela apenas reage aos demais. Se Alice é a garota das perguntas, Anna é a mulher das respostas. O dermatologista Larry (Clive Owen), com quem a fotógrafa se envolve, por sua vez, tem um senso de humor aguçado, mas um tantinho vulgar, traço confirmado pelas metáforas quase sempre agressivas que utiliza (“Peixes. Temos que respeitá-los”, diz, em uma visita a um aquário gigante. “Fomos peixes há muito tempo, antes de sermos macacos”). Larry é um macho ferido – e um macho ferido, a natureza ensina, é um negócio meio perigoso.

Marber define seus personagens sem que seja necessário informar muitos detalhes do passado de cada um ao público. Ele tem a confiança dos grandes escritores. Os roteiristas de Hollywood, em geral, costumam escrever personagens que raciocinam e falam de modo bem parecido, mesmo quando são pessoas diferentes. “Perto Demais” se afasta desse clichê. Tudo bem, os quatro protagonistas são pessoas de classe média alta, inteligentes, bem informadas e espertas. Mas cada um tem a sua inflexão, a sua forma de falar. “Perto Demais” é o sonho de qualquer ator. Talvez seja por isso que a crítica tanto elogia Owen e Portman: porque eles têm um texto exemplar para recitar, e dos quatro são os personagens com mais energia, carisma e empatia. Talento não tem tanto a ver com isso.

É claro que os dois estão perfeitos nos papéis. Natalie talvez seja a única atriz-mirim de Hollywood que atravessou a adolescência e chegou à idade adulta sem pausas no percurso. Owen surpreende ainda mais, já que nunca tinha sido visto fora dos filmes de aventura (“Rei Artur”). Mas as performances de Jude Law e Julia Roberts não ficam atrás. Ocorre que desses dois a crítica já sabia o que esperar. Aliás, é de uma ironia cruel que Jude Law tenha sido eleito o homem mais bonito do mundo em 2004. Isso reforça ainda mais a excelência de sua atuação, pois Dan não é um homem particularmente interessante, embora esteja longe de ser feio. Passivo e pouco ético, o jornalista não tem o magnetismo nem a energia de Larry, de longe um sujeito bem mais fascinante.

A cinematografia de “Perto Demais” é simples, mas sofisticada, como convém a um filme que é exclusivamente apoiado em diálogos. O diretor Mike Nichols, do alto dos 73 anos, é um veterano que sabe disso bem demais para deixar que detalhes técnicos diluam a força das palavras. Por isso, toda a parte técnica é despojada, embora aqui e acolá mereça destaques. Os espectadores podem lembrar, por exemplo, da balada “The Blower’s Daughter”, que abre e fecha o filme com delicadeza cortante. A canção realça o sentimento de impotência, de melancolia, que ronda os quatro personagens e os impede de serem felizes. Mas Nichols tem o cuidado de não deixar que nada se intrometa da violência verbal do texto de Patrick Marber.

As palavras ferem em “Perto Demais”. São duras como aço e afiadas como navalhas. Os personagens do filme compartilham uma característica: todos falam com franqueza desconcertante, coisas que os seres humanos normais – nós, ali na platéia – normalmente apenas pensamos, e não temos coragem de dizer; as vezes, não temos coragem nem de pensar. Nesse sentido o filme revela traços de sua origem teatral, com frases curtas e verborragia constante. Em certo momento do filme, por exemplo, um dos personagens rompe o casamento com o outro, anunciando que está tendo um caso com um terceiro. A pessoa abandonada, chorando, lamenta:

– Você me amava mesmo?
– Sempre te amei. Odiaria te magoar.
– Então por que está me magoando?
– Porque sou egoísta. Acho que serei mais feliz com ela.

Parece real? Não. Mas a crueza desse tipo de diálogo tem o impacto de um soco para quem já viveu momentos parecidos. “Perto Demais” é o tipo de filme que desperta reações controversas da platéia. Uma parte odeia, outra ama, pouca gente fica indiferente. O que mais incomoda, na verdade, são esses momentos em que o espectador se reconhece em qualquer uma das ações repulsivas que os quatro personagens cometem, em diferentes momentos da narrativa. Particularmente, eu saí da sessão me sentindo miseravelmente solitário. O filme teve o poder de trazer de volta, com força, cada uma das burradas que cometi nos meus relacionamentos antigos – as pequenas chantagens emocionais, as trapaças, os rompimentos, os atos de egoísmo movidos por puro desespero.

Alguns estudiosos da Sétima Arte costumam dizer que o cinema deve ser um espelho da vida, e que os filmes devem funcionar como janelas para que o espectador se reconheça neles, se auto-analise e se torne uma pessoa melhor. Um bom filme, segundo essa lógica, funciona como uma sessão informal de terapia. “Perto Demais” é exatamente isso: um filme de carne e osso, feito de coisas reais, de coisas que doem. Se o cinema é feito para provocar reflexão no espectador, então “Perto Demais” é cinema de alta qualidade.

O DVD brasileiro, da Columbia, contém apenas o filme (enquadramento original widescreen 16×9) e uma trilha Dolby Digital 5.1, de seis canais, em inglês. Há apenas um videoclipe como extra.

– Closer – Perto Demais (Closer, EUA, 2004)
Direção: Mike Nichols
Elenco: Natalie Portman, Clive Owen, Julia Roberts, Jude Law
Duração: 104 minutos

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4 comentários em “Closer – Perto Demais

  1. Achei ótimo filme, do ponto de vista psicológico este filme mostra o que pensamos em muitos relacionamentos, e não temos coragem de assumir, no filme quando Larry fala sobre Anna na questão da depressão na minha visão foi bem o que entendi, inclusive ele explora bem o lado psicológico de cada personagem, e vive sem meios termos talves sem romantimo e bem racional até como proteção própria, e em relação a insegurança de Dan, vejo que Alice serve na verdade como um socorro , a vida em que Dan levava talvez conseguencia da pouca vivencia com a mãe falecida, Alice ainda jovem traz um pouco desta juventude irreverente que Dan não viveu, acredito que cada expectador tenha feito a relação do filme com sua própria vida, e cada um tem a sua história, fica difícil julgar qualquer filme se é bom ou ruim, mas todos no geral mexem com nossas vidas se formos analisá-los, basta filtrar o postivo de livros, filmes ou qualquer influncia que tivermos, eu pelo menos faço isso, Ótimo filme, valeu.

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  2. O filme é de um realismo fora de sério…Único, com uma sonoplastia perfeita, com Bebel Gilberto cantando clássicos da Bossa Nova como “Canção da Benção”, “Tanto tempo”, “Mais feliz” traz à película o ar de enigmatismo que conaduna com as cenas.

    Cada texto é um tapa na cara de quem escuta ou mesmo o assiste. Dói, fere, corta, machuca, magoa, faz morrer…e é assim com esserealismo todo que CLOSER vem pra sacudir nossos pensamentos, e rever atos anteriores com antigos relacionamentos…

    Serve pra mim, pra você e pra todos nós.
    Closer sem dúvida mostrou a vida como ela é qdo aspessoas abre mão do q consideram felicidade para se aventurar e novas paixões tornando tudo fugaz.

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  3. De primeira vista achei o filme chato e apelativo, mas olhando pelo ponto de vista explicitado acima passo a perceber que o filme é de uma qualidade rara, pois foge do comum e ao mesmo tempo nos mostra o real.

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