Kung Fu Futebol Clube

[rating:3.5]

Junte em um caldeirão influências díspares como filmes de Bruce Lee, faroestes spaghetti, Pelé, jogos de fliperama e/ou Playstation, comédia adolescente norte-americanas e efeitos especiais criados com computadores caseiros. Imaginou o resultado? Pois é provável que a salada resultante na sua cabeça seja bem diferente de “Kung Fu Futebol Clube” (Shaolin Soccer, Hong Kong/China, 2001), a estridente brincadeira de Stephen Chow que lançou o cineasta chinês nos Estados Unidos e tornou-se coqueluche entre jovens cinéfilos descolados. O filme pode ser encontrado em um pouco divulgado DVD nacional da distribuidora Buena Vista.

É engraçada e incomum a maneira como a comédia adolescente chinês, co-produzido em Hong Kong, chegou às terras brasileiras. O longa-metragem foi vendido para a distribuidora norte-americana Miramax dentro de um pacote que incluía, entre outros, o épico “Herói”. Os filmes faziam parte de um lote de obras recomendadas pelo diretor Quentin Tarantino aos irmãos Bob e Harvey Weinstein, donos da Miramax. Alguns filmes, como o citado “Herói”, tiveram lançamento de respeito nos EUA. Outros, como “Kung Fu Futebol Clube”, foram atrasados em muitos meses, e até reeditados, para poderem agradar às platéias ocidentais.

É compreensível que “Kung Fu Futebol Clube” tenha soado como uma piada exótica para o espectador médio norte-americano, já que o escopo da trama é fincado em uma combinação de esportes pouco comuns no país dos ianques: futebol e artes marciais. Se o público dos EUA curte pancadaria oriental (desde que devidamente “ocidentalizada”, o que significa coreografias mais realistas e discretas, o que não é o caso deste filme fantasioso), não entende nada de futebol. Pois jogue no lixo toda e qualquer tentativa de dar ao filme uma aparência de realidade comum, e você terá nas mãos um produto no mínimo bizarro.

A trama é clássica, do tipo que você já viu muitas vezes antes. Técnico decadente de futebol (Man Tat Ng) monta, com a ajuda de um jovem mendigo praticante de um estilo decadente de kung fu (o diretor e roteirista Chow), um time de futebol formado por lutadores que sobrevivem em subempregos. Os atletas aplicam ao jogo princípios da luta, transformando-o em um esporte completamente diferente, onde pulos de cinco metros de altura, cambalhotas impossíveis e chutes que entortam e derrubam traves são comuns. Dessa forma, entram em um torneio internacional cujo patrocinador é o arqui-rival do técnico (Yin Tse), um sujeito rico, arrogante e trapaceiro. No meio da confusão há até espaço para o jogador-mendigo arrumar uma paquera com uma timida garota operária que faz pão, numa venda no meio da rua, usando, também, uma técnica de kung fu.

Estranho? Pois espere até ver o filme. Embalado por uma trilha sonora épica surrupiada dos antigos faroestes italianos, “Kung Fu Futebol Clube” é criativo até a medula, mas extremamente exagerado, mais ou menos como se os personagens de “Jaspion” resolvessem chutar bolas com pernas mecânicas de velocidade supersônica. O futebol praticado no filme, obviamente, é um arremedo de esporte que serve apenas como veículo para malabarismos impossíveis, como os inacreditáveis chutes desferidos pelo proagonista e capitão do time. Basta dizer que, no primeiro tiro que experimenta, com uma lata de cerveja, o rapaz manda o objeto do outro lado da cidade (e a latinha ainda destroça um muro!). Isso é só o começo.

As seqüências de futebol são deliciosas, um verdadeiro espetáculo de humor campy, exagerado, com uso brilhante de computação gráfica (perceba que a bola quase nunca é de verdade, e sim gerada por computador) e um verdadeiro show de edição do desconhecido Kit-Wai Kai. Não dá para levar a sério um filme em que a mocinha conquista o protagonista com um par de tênis furados, remendados com pedaços de pano com a estampa da Hello Kitty, mas “Kung Fu Futebol Clube” não foi feito mesmo para ser levado a sério. A segunda metade da produção – especialmente depois que o time dos futi-ninjas entra em ação de verdade, dentro do torneio – é alucinada e alucinante, mostrando que as artes marciais podem, quando bem utilizadas, funcionar de modo exemplar dentro de qualquer gênero cinematográfico, inclusive a comédia.

A Buena Vista lançou no Brasil uma versão fraca do filme de Stephen Chow. Além de sair em um disco sem nenhum extra, o filme veio na versão com que foi exibido nos EUA, com 26 minutos a menos do que a oriental. A versão completa, de 113 minutos, só pode ser encontrada nos discos lançados na Ásia, pois a Miramax colocou no mercado dos EUA o filme cortado. Pelo menos o formato da tela (widescreen anamórfico) e a trilha de áudio, em chinês e português nos formatos Dolby Digital 5.1, estão intactos.

– Kung Fu Futebol Clube (Shaolin Soccer, Hong Kong/China, 2001)
Direção Stephen Chow
Elenco: Stephen Chow, Vicki Zhao, Man Tat Ng, Yin Tse
Duração: 87 minutos

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5 comentários em “Kung Fu Futebol Clube

  1. Simplesmente fantástico. Infelizmente só fui assistir esse filme em 2010. Estamos tão bitolados em obras hollywoodianas que esquecemos estas maravilhas.
    Um filme que tem ação, romance puro, força, determinação, comédia, suspense e com tantos efeitos especiais de primeira não pode ser esquecido ou ignorado.
    Parabéns a todos que admiram o cinema dessa forma. Livre.

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