Em Algum Lugar do Passado

[rating:3]

Um filme massacrado pela crítica e amado pelo público passa, via de regra, por um processo curioso após o lançamento. Depois de alguns anos, é natural que ocorra uma reavaliação da obra e aí, quase sempre, os analistas conseguem perceber qualidades que haviam antes passado despercebidas. Este é o caso do drama romântico “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in Time, EUA, 1980), uma interessante tragédia amorosa que lida de modo problemático com a questão dos paradoxos temporais causados por viagens no tempo.

Quem nunca assistiu ao primeiro longa-metragem do ator Christopher Reeve após “Super-Homem” deve ser avisado que a produção não se enquadra no gênero da ficção científica. Apesar do tema, trata-se de uma produção de época, cheia de pompa e circunstância, passada no conservador e sisudo sul dos EUA do início do século. Ou seja, o filme está mais para “E o Vento Levou” do que para “De Volta Para o Futuro”. Na verdade, o tema da viagem no tempo é secundário. “Em Algum Lugar do Passado” lembra mais uma obra romântica de meados do século XIX, quando o tema do amor impossível era extremamente popular.

Esse enfoque foi, talvez, responsável pelas críticas negativas. Aparentemente despreocupado com as questões científicas que envolvem o tópico das viagens temporais, o roteirista Richard Matheson deixou incríveis buracos no texto, que fazem a trama ter sérios problemas para ser levada a sério. O maior exemplo está no relógio de bolso que dá partida à trama. Antes de abordar o paradoxo, porém, é preciso explicar resumidamente a história do filme, que envolve um homem apaixonado por uma mulher que viveu 68 anos atrás.

A abertura do filme flagra o dramaturgo Richard Collier (Reeve) na noite de estréia de uma peça sua, na pequena Millfield (EUA). Ele recebe a estranha visita de uma senhora idosa, que lhe entrega o tal relógio de bolso e faz uma súplica: “volte para mim”. Collier não entende nada. Oito anos depois, contudo, o sujeito enfrenta um bloqueio criativo e viaja para tentar superá-lo. Numa passagem fortuita por Millfield, ele se hospeda no clássico Grand Hotel e se apaixona pela foto de uma bela mulher, pendurada na parede do salão histórico do lugar.

Obcecado, Collier tenta se informar sobre a mulher. Descobre que ela foi Elise McKenna (Jane Seymour), uma atriz famosa que fez uma peça no teatro do hotel, no ano de 1912. Mas a maior surpresa vem depois. Durante a pesquisa para saber mais detalhes sobre McKenna, Collier descobre que era dela o relógio de bolso que ele possui. Intrigado, o rapaz começa a pesquisar sobre as chances reais de fazer uma viagem no tempo para encontrá-la. Acaba ouvido de um psicólogo que a hipnose poderia, em tese, permitir a experiência científica inédita.

Quem assistir ao filme vai perceber o paradoxo do relógio quando assistir à cena em que Elise McKenna se torna a proprietária do objeto. E esta é apenas uma das muitas cenas que ilustram paradoxos semelhantes relacionados com a viagem para o passado. Isto é algo que filmes como “De Volta Para o Futuro” solucionaram com criatividade, e que “Em Algum Lugar do Passado” não parece nem um pouco interessado em resolver.

Apesar disso, os defensores do filme não vêem o menor problema nesse detalhe, até porque há uma segunda leitura possível para explicar a bizarra experiência de Richard Collier: ele apenas teve um sonho incrivelmente longo e real, e não retornou realmente ao passado, apesar de todas as evidências em contrário. O mais curioso, entretanto, é que amantes do longa-metragem – sempre românticos empedernidos – costumam rejeitar essa segunda leitura, pois ela implicaria em aceitar a natureza impossível do amor obsessivo de Collier. A verdade é que as pessoas querem acreditar que o amor pode tudo, até mesmo romper a barreira do tempo, e “Em Algum Lugar do Passado” oferece essa possibilidade sedutora, mesmo que por apenas alguns instantes.

Para além desses problemas de lógica, “Em Algum Lugar do Passado” é um filme interessante. Possui uma caprichada produção de época, com figurinos impecáveis, apesar de ter sido feito com o magro orçamento de US$ 5,1 milhões. O diretor Jeannot Szwarc (de “Tubarão 2”) conduz a trama de forma burocrática, comum, sem brilhar mas sem comprometer. Um destaque importante está na trilha sonora, que usa incessantemente a “Rapsódia Sobre um Tema de Paganini”, de Rachmaninoff, para criar o clima melancólico de romance impossível que o longa-metragem pede. “Em Algum Lugar do Passado” é açucarado, mas nesse nível funciona muito bem. Para românticos inveterados, é uma ótima pedida.

A Universal cometeu um sério deslize ao lançar essa obra cult no Brasil em DVD, em 2005. Ao invés de aproveitar a boa edição comemorativa de 20 anos, disponível nos EUA desde 2000, a distribuidora preferiu montar o DVD com imagens em tela cheia (ou seja, com cortes laterais no enquadramento original), trilha de áudio Dolby Digital 2.0 (com apenas dois canais) e nenhum extra. O disco importado contém vídeo e áudio remasterizados, comentário em áudio do diretor e um ótimo documentário de 50 minutos, que relembra as filmagens e analisa o sucesso da obra.

– Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, EUA, 1980)
Direção: Jeannot Szwarc
Elenco: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer, Teresa Wright
Duração: 103 minutos

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9 comentários em “Em Algum Lugar do Passado

  1. Nao acho que tenha sonhado, na história, o pobre Richard gasta muita energia e tempo para entrar em transe, e toda a esperiencia vivida que ele conta no livro, especialmente a noite de amor com Elise, mostra que ele realmente esteve com ela por mais de um dia.

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  2. Na questão do relógio, Elise ficou com ele depois da noite de amor que teve com Richard, pois ele o esqueceu lá. E sobre ser um sonho, é impossivel, pois Elise já idosa disse ”volte pra mim” e deu o relógio

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  3. Correções: 1ª, o filme foi lançado no Brasil em widescreen. 2ª, não existe viagem no tempo e o Collier usou o recurso de auto-hipnose que ele leu no livro da McKenna e que aprendeu com seu antigo professor. 3ª, a senhora que aparece no começo é a própria McKenna, e ela provavelmente teve um amor platônico com alguém parecido com o Collier e ficou apaixonada pelo Collier. 4ª, ele nunca esteve em outra época, a não ser em pensamento, pois a sugestão de outra época foi tão forte que ele se viu (mas não estava) em outra época, tanto que ele até usava uma roupa mais velha do que a época para a qual ele viajou. 5ª, o Collier literalmente morreu de ilusão, pois ficou dias sonhando com a McKenna sem comer e beber (sem sair do lugar, na realidade). 6ª, para quem acredita em Paraíso, foi para lá que Collier encontrou a McKenna e somente lá eles podem ficar juntos. Aqui no Planeta Terra foi impossível. 7ª, não existe romance, pois o romance é apenas a ilusão de que amamos alguém. Ninguém quer morrer de ilusão.

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  4. DEIXAMOS ASSIM!!! É BOM SONHAR, TEMOS APENAS UMA VIDA E MILHARES DE SONHOS,E A CADA MINUTO QUE PASSA É UMA CHANCE DE MUDAR TUDO PARA SEMPRE….SEJAM FELIZES…

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  5. Na verdade, nenhum filme de volta do tempo soluciona o paradoxo da viagem sem apelar para universos paralelos como o de volta para futuro 2. Assisti depois de muitos anos este filme que funcioan como entretenimento, mas ele torna o paradoxo evidente, pois o relógio surge do nada, violando a lei da conservação da energia. A atriz entrega o relógio a ele que o leva a 1912 e ela acaba ficando com ele e depois ela o devolve novamente. A questão é quem fez ou comprou o relógio, pois não foi nenhum dos dois. Assim, a conclusão é que o relógio brotou do nada. É óbvio que os autores tinham consciência do paradoxo, mas acharam que era mais importante usá-lo como símbolo de união entre os dois eventos. Se fosse possível voltar no tempo, quem voltou não poderia ter a intenção, pois só ele seria uma causa que geraria um efeito que desmantelaria a relação causa e efeito, gerando o paradoxo de viagens no tempo.

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