Era Uma Vez no Oeste

[rating:5]

“Vi três casacos iguais a esse há pouco tempo, esperando um trem. Dentro dos casacos, havia três homens. Dentro dos homens, três balas”. A frase poderia soar como piada ou, pior, como clichê de terceira categoria, se fosse pronunciada no momento errado ou por um personagem equivocado. Não é o caso. Esse é apenas um dos abundantes momentos antológicos de um dos mais fantásticos faroestes de todos os tempos: “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era una Volta il West, Itália/EUA, 1969), obra-prima de despedida do gênero feita pelo italiano Sergio Leone.

O autor da tirada impagável é o personagem clássico dos maravilhosos western spaghetti que Leone dirigiu na década de 1960: um pistoleiro sem nome, de passado misterioso, futuro incerto e objetivo desconhecido. Em “Era Uma Vez no Oeste”, o então iniciante ator Charles Bronson substituiu Clint Eastwood, protagonista dos três filmes anteriores do diretor. Basicamente, é o mesmo personagem da trilogia dos dólares, com uma pequena e significativa diferença: ao invés de andar com um cigarro apagado na boca, Bronson carrega uma gaita. Por isso, é apelidado de “Harmonica” por um co-protagonista, o bandido Cheyenne (Jason Robards, em esplêndida atuação).

A dupla se encontra pela primeira vez em um bar. Cheyenne acaba de fugir da prisão e descobre que alguém tentou jogar nele a culpa pela chacina de uma família da região, fazendo os assassinos usarem casacos idênticos às roupas que o bando dele usa – a mesma utilizada pelos homens que haviam tentado matar o gaitista. No mesmo bar está Jill (Claudia Cardinale), viúva que herdou a fazenda da família assassinada. Não vai demorar muito para que todos comecem a desconfiar que um certo Frank (Henry Fonda), capanga de um rico proprietário de terras na região, esteja por trás dos atos criminosos.

O filme de Sergio Leone é, nas palavras do próprio diretor, uma ópera de violência. Está correto. Leone é um estilista nato e construiu um filme silencioso, carregado de tensão e humor cínico, que explode em violência no momento certo, causando o máximo de impacto possível no espectador. O cineasta italiano tinha tudo para fazer um filme patético: ele não falava inglês, mas construiu o roteiro nessa língua; pediu para que o maestro e colaborador habitual Ennio Morricone escrevesse a trilha sonora (quatro temas, um para cada personagem principal) antes de filmar uma única cena, algo impensável em Hollywood; e dispensou o uso de storyboards, afirmando que tinha cada uma das cenas gravada da mente.

Leone estava certo, como sempre. Sua capacidade como criador dispensava esses artifícios banais. As quase três horas de “Era Uma Vez no Oeste” flagram um gênio no ápice de sua forma. Tome a seqüência de abertura como exemplo. Três temidos pistoleiros aguardam a chegada de um trem que traz algo esperado com ansiedade. A platéia não sabe o que é. Em onze minutos, sem diálogos e sem música, Leone estica a tensão a um ponto insuportável, utilizando apenas sons naturais (o rangido de um velho moinho, o zumbido de uma mosca, o apito do trem ao longe) e sua marca registrada – a combinação de closes dos rostos tensos e suados dos atiradores com paisagens panorâmicas de tirar o fôlego.

Como essa seqüência antológica existem muitas outras: a chacina da família irlandesa que desencadeia a trama; a longa tomada sem cortes da chegada de Jill à cidade de Tombstone, uma vila em construção; o ataque solitário de Cheyenne ao trem cheio de bandidos. A fotografia espetacular de Tonino Delli Colli valoriza cada rosto, cada plano, cada imagem, e consegue a proeza de combinar com perfeição os tons verdes da vegetação rasteira que predomina no deserto espanhol, onde a maior parte do filme foi produzida, à poeira vermelha de Monument Valley (EUA), onde Leone gravou algumas seqüências panorâmicas (o diretor mandou importar sacas do pó vermelho para espalhar nas locações interiores, como bares e fazendas, na Itália).

Aliado a tudo isso, Leone oferece uma direção de arte impecável, produzindo momentos que influenciariam vários grandes cineastas nos anos seguintes. Os casacos cor-de-terra da gangue de Cheyenne, por exemplo, tornaram-se um símbolo usado por assassinos de vários filmes feitos depois. Leone também exigiu que todos os atores usassem maquiagem que simulava a pele queimada pelo sol abrasivo, o que deu um realismo inédito à produção.

Outro acerto está na trilha sonora literalmente antológica, com quatro temas que se revezam, um melhor do que o outro (o emocionante lamento que acompanha os passados de Harmonica, em gaita e guitarra, ressoou em várias outras obras do mestre Morricone, enquanto os toques secos do banjo no tema de Cheyenne serviram de inspiração para a “Marcha Imperial” da série Star Wars).

Há ainda um quarteto de atores no melhor da forma. Robards quase rouba a cena como o cínico Cheyenne; Henry Fonda usa os olhos azuis como contraponto formidável para a frieza de um dos assassinos mais desalmados que o cinema já produziu; Bronson não precisa abrir a boca para impor respeito; e Cardinale está linda como nunca – e ainda fala grosso, como uma verdadeira dama desbocada, muito em voga nos anos 1960.

Os diálogos são a cereja no topo do bolo: apenas quinze páginas de conversas, o que daria algo em torno de 15 minutos em um filme normal. “Era Uma Vez no Oeste”, porém, não tem nada de normal. Não é à toa que Leone é o diretor predileto de Quentin Tarantino. O norte-americano se orgulharia de ter escrito a conversa seca entre Harmonica e Cheyenne, quando o primeiro entrega o outro ao xerife da cidade: “A recompensa por esse homem é de cinco mil dólares, certo?”, pergunta Bronson. “Judas se contentou com 4970 moedas a menos”, provoca Robards. “Não havia dólares naqueles dias”, retruca o pistoleiro. “Ah, mas filhos da p… já existiam”. Antológico é pouco.

Para completar, vale ressaltar que a edição brasileira de “Era Uma Vez no Oeste” é dupla e traz o filme remasterizado, com uma trilha sonora nova em folha em Dolby Digital 5.1 e imagens totalmente recuperadas, sem um arranhão sequer. No disco dois, um documentário de 70 minutos, dividido em três partes, disseca a trajetória de Sergio Leone no cinema e os bastidores da produção, incluindo entrevistas dos diretores Alex Cox, John Millius e John Carpenter, que babam o ovo do italiano. Há ainda um curta-metragem antigo sobre a importância das ferrovias para o Oeste norte-americano, galerias de fotos e pôsteres. Conclusão: um dos maiores lançamentos em DVD já feitos até hoje, obrigatório para amantes do bom cinema.

– Era Uma Vez no Oeste (C’Era una Volta il West, Itália/EUA, 1969)
Direção: Sergio Leone
Elenco: Henry Fonda, Jason Robards, Claudia Cardinale, Charles Bronson
Duração: 165 minutos

6 comentários em “Era Uma Vez no Oeste

  1. Belíssimo filme de Leone. O primeiro volume de sua “trilogia da América” (trilogia temática, já que os três filmes possuem roteiros muito diferentes e sem qualquer conexão entre as tramas), é o que se sai melhor no teor político (que está exagerado e caricato em Quando Explode a Vingança). É Charles Bronson decretando o fim do Velho Oeste, numa representação da Morte em si (há também uma interpretação equivocada de que ele seria uma entidade sobrenatural…). Não só a Morte, mas do ciclo de violência que guia a vida de Harmonica e também a dos outros personagens no decorrer da trama: um grupo de pessoas (arquétipos do faroeste) lutando pela sobrevivência num mundo que está crescendo e os esmagando; um mundo que não entendem e que dificilmente irão se adaptar, com excessão de Bronson (o único que decide construir a estação para garantir a chegada da ferrovia e, conseqüentemente, do progresso). Claudia é o ponto de vista do espectador, sendo uma forasteira naquela região. O três outros são os personagens clássicos do Velho Oeste: o pistoleiro misterioso (Bronson), o vilão inescrupoloso (Fonda) e o fora-da-lei ambígüo (Robards). Soma-se ao elenco o dono da ferrovia (Gabriele Ferzetti), representando o mundo novo e sendo o resposável pelo teor político da obra.

    Um clássico para ser visto e revisto sempre.

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  2. foi o melhor e o mais completo comentário que eu li sobre este clássico do cinema, que eu escolhi como uns dos dez melhores filmes que assisti ( + de 1000).
    silvio

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  3. Rodrigo
    Como sempre, tua critica esta excelente.Nem vou falar muito do filme pois ja disseste tudo.O que quero dizer e da minha satisfacao ao ver esse filme quando do seu lancamento em Porto Alegre num cinema que era um show ,desde sua projecao ao som, coisa normal nos cinemas de hoje mas na epoca era pouco comum. Sai feliz, faceiro( com um sorriso de uma ponta a outra ponta na orelha,extasiado abobado,e nem sei mais o que.Mas que foi uma coisa maravilhosa e sensacional foi.Que belo filme,que roteiro,que musica,que fotografia,que dialogos , interpretacoes e tudo mais perfeito. Uma obra -prima .Ja vi umas cinco vezes e nao me canso.Tudo isso vale em dobro pra outro filme , Meu odio sera sua heranca ,que considero um pouco mais por nao ter , nao sei bem dizer se e o bom e o mau, o mocinho e o bandido e sim so homens gordos , velhos ,decadentes em fim de carreira e com um codigo de lealdade acima de tudo e que me impressionou muito com sua violencia com cenas longas coreografada e em camera lenta nunca vista no cinema.Iria pra uma ilha com esses dois mais Tempos modernos,Pacto de sangue,Sete samurais,Chinatonw,M o vampiro de Dusseldorf,Morangos silvestres,A primeira noite de tranquilidade,Rocco e seus irmaos,Boulevard do crime,Quanto mais quente melhor, Nos que nos amavamos tanto, Cantando na chuva,Pagador de promessa,CIdade de deus,Declinio do imperio amaericano,Os esquecidos,E o vento levou,Memorias di carcere,Los Angele-cidade proibida,Quem tem medo de virginia woolf,O sol por testemuha,Sindicato de ladroes,Tres homens em conflito etc… Gostou dos filmes Rodrigo?Fico por aqui e parabens pelas tuas criticas que sao as melhores do mundo . Um abracao. Sander

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  4. Assisti “Era Uma Vez no oeste”,no Cine Santo Antônio,em Passa tempo,no ano de 1971.Eu tinha apenas 10 anos,não consigo entender como me deixaram assistir ao filme,indicado para maiores de 16. Aquela cena do garoto ( Enzo Santianello), filho do fazendeiro McBain,assustado e correndo com uma garrafa de leite na mão,para ver o que estava acontecendo,a tal cena,sublimada pelos acordes de Ennio Morricone,é um impacto não só para a história dos grandes Westerns,como também para a vida daquele garoto de 10 anos,que tornou-se “Historiador de Cinema”,e que também tem um filho chamado Ennio Roberto.No decorrer dos anos,eu fui dos poucos nesse “planeta” que torceu para que Morricone um dia fosse reconhecido pela Academia de Hollywood, ganhando um “Oscar”,sendo assim o “Oscar Honorífico”(2OO7),(em Contribuição a Indústria do Cinema).Parabéns Morricone,parabéns Sergio Leone e parabéns a todo elenco desse grandioso Western.

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  5. Era uma vez no Oeste não é apenas um “bangue-bangue”. É um épico moderno e majestoso, melancólico e furioso, visceral e, pelo menos para mim, intimista. Nem se discute as qualidades da fita, Rodrigo o fez na declaração de amor acima, o que se pode dizer é que este é um dos melhores filmes já feitos. Maravilhoso.

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