Zelig

[rating:5]

“Zelig” (EUA, 1983), um dos menos lembrados filmes de Woody Allen, é também um dos mais estranhos, adoráveis, originais e criativos. Trata-se de um falso documentário que funciona como elo perdido entre “Cidadão Kane” “e “Forrest Gump – O Contador de Histórias”. Durante anos, essa pérola pouco conhecida do genial autor norte-americano esteve ausente das locadoras e lojas de home video brasileiras. “Zelig” não existe em VHS. Por sorte, contudo, foi incluído no pacote que a 20th Century Fox dedicou a Woody Allen no formato digital. Ainda bem: “Zelig” é uma obra-prima condenada injustamente ao esquecimento.

Por que tamanha injustiça teria sido cometida? Certamente porque “Zelig” não se encaixa, nem de longe, nas convenções que definem os gêneros cinematográficos. Para começar, o formato do filme não é o da ficção clássica. Não. “Zelig” é um documentário, a biografia de um anônimo. Leonard Zelig foi um sujeito, muito famoso na virada entre os anos 1920/30, que tinha a curiosa capacidade de adquirir as capacidades físicas e mentais daqueles com quem convivia. No meio de negros, Zelig virava um negro; de gordos, tornava-se gordo; de índios, ganhava aparência de índio; de nazistas, parecia um nazista; de psicólogos, passava-se por psicólogo. A inédita capacidade fez dele um caso internacionalmente estudado por médicos e psicólogos.

Você nunca ouviu falar de Leonard Zelig? Tudo bem, não se preocupe. Leonard Zelig jamais existiu, a não ser na cabeça de Woody Allen. Daí a primeira e mais radical inovação do filme: trata-se de um documentário, escrito e dirigido no formato clássico dos documentários (ou seja, uma colagem de cenas de arquivo pessoal, pedaços de telejornais, fotografias, depoimentos de pessoas que conheceram o objeto do filme, gravações caseiras em áudio), de alguém que não existiu. O próprio Allen voltaria a usar a técnica, em 1999, no ótimo “Poucas e Boas”, embora de maneira mais suave, criando um violonista imaginário e dando a ele uma vida.

Uma das grandes sacadas do diretor novaiorquino foi a utilização de entrevistas de personagens verdadeiros, que comentam sobre Leonard Zelig. O filme abre com um depoimento irônico da ensaísta Susan Sontag, que ousa interpretar Zelig (saque a piada: um dos livros mais famosos de Sontag chama-se “Contra a Interpretação”). Outros pesos-pesados da intelligentsia norte-americana, como o escritor Saul Bellow e o psicólogo Bruno Bettelheim, também comparecem dando seus depoimentos sobre a folclórica figura. Ou seja, “Zelig” vai fundo em um recurso que Allen já havia utilizado, com sucesso, em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, cinco anos antes, quando colocou o filósofo Marshall McLuhan no papel dele mesmo.

A estratégia dá um nó na cabeça do espectador. Ao editar as falas de Sontag e Bellow logo na abertura do longa-metragem, Woody Allen dá a impressão à platéia que vai narrar a vida de um personagem verdadeiro. Quando Leonard Zelig aparece, no entanto, o golpe de mestre fica claro: Zelig é interpretado por ele mesmo, Woody Allen, em uma das mais dinâmicas e hilariantes interpretações de sua carreira (observe, por exemplo, a seqüência em que ele vira gordo, ou as brilhantes cenas, já perto do final, que se passam em Berlim, e tente se segurar para não rir).

Zelig passa a ser estudado por juntas médicas, mas a única pessoa que o compreende é Eudora Fletcher (Mia Farrow), psicóloga que usa uma técnica mista de psicanálise e hipnotismo para conseguir diagnosticar, e quem sabe até curar, a condição de Zelig. Aqui, Woody Allen vai fundo na mensagem: é o amor, e não sessões de terapia, hipnotismo ou aspirinas, que levam alguém a encontrar o seu eu interior.

Muitas das obsessões que rondam a obra de Allen estão no filme, desde elementos banais como o hipnotismo (“O Escorpião de Jade”) até detalhes insistentes, como a ascendência judia, o jazz (mais uma vez, belíssima trilha sonora) e a timidez. O humor de “Zelig”, contudo, não segue o mesmo rumo do fantástico “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, onde era escrachado e aberto. Aqui, o humor é crítico, mas refinado e contido. Muitas vezes não provoca gargalhadas, mas sorrisos no canto dos lábios. O filme está repleto de piadas escondidas, como a de Susan Sontag, coisas que somente cinéfilos ou intelectuais vão reconhecer como piadas. “Zelig” é biscoito fino.

Claro, não é preciso ser gênio para gostar do falso documentário de Woody Allen. O diretor fez cinema do mais alto nível técnico. Convocou, por exemplo, o excelente fotógrafo Gordon Willis, o “Príncipe das Trevas” de “O Poderoso Chefão”, para recriar imagens que pudessem passar por cenas de um verdadeiro documentário. Willis fez um trabalho de cair o queixo. Filmou com câmeras de 8mm e atirou os negativos na banheira cheia de água. Usou equipamento de televisão e mandou amassar as fitas. Filmou com todo tipo de câmera, filme e iluminação, raspando os negativos no chão e submetendo-os a frio, calor e umidade, para estragá-los. As imagens têm o ritmo e a aparência de um documentário verdadeiro. É um trabalho de mestre.

É impossível, aqui, não fazer um paralelo entre “Zelig” e “Cidadão Kane”, o mais conhecido falso documentário da história do cinema. A obra-prima de Orson Welles abre com uma reportagem de mentira, cujos negativos foram submetidos ao mesmo processo de desgaste. Woody Allen não passou incólume à semelhança, e incluiu no filme uma seqüência inteira em que Zelig e a doutora Fletcher fazem uma visitinha à mansão de William Randolph Hearst, na Califórnia (EUA). O magnata dos jornais, como é bem sabido, serviu de inspiração para Welles criar a figura-título de seu filme.

Na referida cena, engraçadíssima, as imagens de Woody Allen e Mia Farrow foram inseridas em trechos antigos rodados na verdadeira mansão de Hearst, que incluem a atriz Marion Davis e o comediante Charles Chaplin. A inserção dos personagens do filme em imagens históricas verdadeiras faz de “Zelig” o precursor e inspirador de “Forrest Gump”. Aqui, Leonard Zelig aparece com o papa Pio XI, no Vaticano, e, no trecho mais engraçado do filme, atrapalha um famoso discurso de Adolf Hitler, em uma Munique (cidade-berço do nazismo) lotada. Pena que “Zelig”, por ser tão à frente de seu tempo, foi mal compreendido por público e crítica, e tenha saído do Oscar de mãos abanando. Sorte nossa que existe o DVD.

O disco brasileiro de “Zelig”, como toda a coleção de Woody Allen lançada pela Fox, é bem rarefeito. O filme tem imagens widescreen, no formato original com que foi produzido, e trilha de áudio Dolby Digital 2.0. Um trailer acompanha o pacote. Não há documentários.

– Zelig (EUA, 1983)
Direção: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Buckwalter, Marvin Chatinover
Duração: 79 minutos

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Um comentário em “Zelig

  1. Este filme de Woody Allen é uma verdadeira obra prima, seja como documentário-ficção, seja como interpretação e recursos teatrais e cinematográficos.
    O polimorfismo cultural, histórico, e artístico que, como em outros trabalhos de Woody Allen, aparece neste film, manifesta o profundo caráter cosmopolita de sua arte. Até em questões religiosas parece emergir uma doutrina universal, um ideal panteista.
    È interessante constatar que o amaranhado histórico que passa pela câmara reproduz uma estranha e atraente contemporaneidade dos fatos. Como se episódios e lugares fossem de uma única matriz temporal. A trilha musical é riquíssima de jazz e das motivações inconfundíveis da cidade de New York e de todo seu folclore musical. Nem faltam reminiscências de outras obras-primas do genial diretor e intérprete.
    È inconcebíbel constatar que uma obra desse porte não tenha levado os merecidos prêmios. Entretanto ficará no rôl das obras imortais do cinema.

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