Sob o Domínio do Medo

[rating:5]

John Lennon decretou o fim do sonho em 1970. No ano seguinte, Hollywood deu a sua própria versão dessa sentença através de um punhado de filmes transgressores e polêmicos. “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, e “Operação França”, de William Friedkin, mexeram com as platéias, mas ainda conseguiram manter uma certa postura mainstream, o que permitiu que ambos fossem candidatos ao Oscar de melhor filme (o segundo ganhou). Enquanto isso, o mais incendiário dos filmes de 1971 ganhou injustamente o ostracismo. “Sob o Domínio do Medo” (Straw Dogs, EUA), de Sam Peckinpah, é uma obra-prima de múltiplos e ricos significados que – pecado mortal – assume uma arrogante postura amoral.

Peckinpah, considerado por muitos críticos um cineasta tão talentoso quanto irascível, já havia feito pelo menos um filme impecável, o faroeste “Meu Ódio Será Tua Herança”. Mas a película, vista como um canto de cisne do Velho Oeste, transportava a complexa filosofia de violência de Peckinpah para um tempo e um espaço que camuflavam a verdadeira reflexão pretendida por ela. O tema de Peckinpah, que ressoa em todos os filmes que dirigiu, é a inadaptação social. A violência mostrada de forma visualmente estilizada, que perpassa as obras e constitui a assinatura estética do diretor, surge como conseqüência do isolamento a que os marginais de Peckinpah são submetidos pelo meio social em que vivem.

“Sob o Domínio do Medo” escandalizou platéia e crítica, sofrendo todo o tipo de acusação, na época em que foi lançado. A renomada Pauline Kael, maior autoridade da crítica de cinema nos EUA, gostou do filme, mas chamou-o de fascista. Andrew Sarris, outro estudioso de prestígio, achou-o machista. Na Inglaterra, país que serve de cenário para a história, “Sob o Domínio do Medo” teve o lançamento em vídeo proibido até o ano de 2002. Essa foi a punição social dada a Peckinpah por ousar fazer um filme antisocial. Cru, violento, “Sob o Domínio do Medo” exibe cenas dantescas de estupro e morte sem suavizá-las, e ainda por cima se recusa a explicá-las. O lona-metragem é uma espécie de antepassado do francês “Irreversível”, só que com personagens muito mais ricos.

A chave para compreender o filme de Sam Peckinpah está justamente nos personagens. Eles são tão complexos e tridimensionais quanto seres de carne e osso. O roteiro, criado por David Zelag Goodman em parceria com Peckinpah, impede que o espectador simpatize com qualquer um deles. Todos, sem exceção, são párias sociais, só que de espécies diferentes. Eles tomam decisões erradas, e é a reunião desse conjunto de más escolhas que leva os habitantes da pequena aldeia rural da Inglaterra, onde o filme é ambientado, a viver uma explosão incandescente de violência transformada em tragédia coletiva.

O matemático David Sumner (Dustin Hoffman) é um pacato cidadão norte-americano, recém-casado, que se muda para o vilarejo em busca de paz para trabalhar. A aldeia é a cidade natal da mulher de Sumner, Amy (Susan George), uma garota jovem, sensual e atrevida. Os dois não vivem um bom momento conjugal, algo que a razoável distância intelectual entre os dois (as partidas de xadrez jogadas na cama deixam isso claro) apenas amplia.

Sumner está em ambiente hostil. No meio de homens rudes, beberrões e semi-letrados do local, é tratado a gargalhadas. Todos os vêem como covarde, especialmente o bando que contrata para consertar sua garagem, que inclui um ex-namorado de Amy. David percebe o problema, vive tenso, mas não consegue reagir. É um tímido incurável, um vulcão adormecido que, como o filme indica desde o começo, está prestes a explodir.

Quando os desordeiros começam a assediar a entediada Amy, David acha que a culpa é dela. “Eles só faltam me comer com os olhos”, reclama a garota, a certa altura. “Quem se veste desse jeito não devia esperar outra coisa”, retruca o matemático, sem sequer levantar os olhos para a esposa. Ele não percebe que as minissaias são uma maneira que a solitária Amy encontrou para implorar pela companhia do marido ausente. Mas os olhares que ela atrai vêm de outros.

A narrativa de “Sob o Domínio do Medo” cresce em tensão a cada seqüência. A fotografia suja de John Coquillon, repleta de tons de terra, contribui para isso. A ambientação decrépita, contudo, tem um contraponto forte, que é a edição sofisticada, com vários momentos antológicos. A assinatura visual do diretor – as cenas de violência extrema filmadas em câmera lenta – aparece várias vezes, mas com menos destaque do que em “Meu Ódio Será Tua Herança”. Há uma chocante cena de estupro em que a montagem paralela é utilizada com eficiência para contrapor as reações distintas de dois personagens.

O recurso é repetido poucos minutos depois, em uma variação ainda mais refinada: uma das ações mostradas (o mesmo estupro) ocorre horas antes da outra (uma quermesse), mas ambas ganham novos significados quando colocadas lado a lado. Peckinpah estava, em “Sob o Domínio do Medo”, no melhor de sua forma. O tratamento que ele reserva para a longa e sangrenta seqüência final, quando David finalmente perde as estribeiras e parte para a porrada, permite diversas leituras – uma característica das melhores obras de arte, que sempre permitem abordagens diversas sem perder a qualidade.

Alguns críticos propõem uma visão mais antropológica do longa-metragem, vendo David Sumner como uma metáfora dos Estados Unidos: reservado, excêntrico, mas explosivamente violento quando vê seu espaço ameaçado. Outros lêem a trajetória do protagonista como uma fábula sobre o animal adormecido que existe dentro de cada um de nós, e que repentinamente acorda quando nos libertamos das amarras sociais que definem nosso comportamento. “Sob o Domínio do Medo” funciona das duas formas (e outras mais), além de ser excelente cinema.

Embora tenha virado artigo maldito, o longa-metragem tornou-se material de adoração em círculos restritos de cinéfilos. Não é possível imaginar obras atrevidas como “Taxi Driver” ou “Clube da Luta” sem pensar antes em “Sob o Domínio do Medo”. Talvez por isso, o longa ganhou em 2003 uma edição caprichadíssima da Criterion Colection, nos EUA. Imagens brilhando de novas, no corte original, e som Dolby Digital Mono 1.0 sem chiados ou ruídos são apenas a porção obrigatória do disco. O material extra também, ou sobretudo, é de primeira qualidade.

Uma parte desta edição chegou ao Brasil, em um DVD lançado pela Europa Filmes. O disco 1 do pacote da Região 1 aparece simplificado, com áudio inglês original DD 1.0 e legendas em português, além de fichas técnicas dos atores e diretor e trailers de outros lançamentos da distribuidora. A qualidade da imagem é excelente, pois o negativo original foi restaurado, e pode ser visto no corte original, em formato widescreen anamórfico na proporção 1.85:1.

No disco norte-americano, há muito material extra, a começar por duas trilhas de áudio complementares, ambas ausentes do lançamento nacional. A primeira traz a trilha sonora isolada, sem diálogos, para ser ouvida como música. A segunda apresenta o estudioso Stephen Prince comentando detalhes técnicos do filme, citando trechos de críticas e explicando o contexto cinematográfico do trabalho de Peckinpah.

Na parte dos documentários, no disco 2, há uma ótima cinebiografia do cineasta (82 minutos) e entrevistas longas (média de 20 minutos cada) com os atores Dustin Hoffman (nos sets, em 1971), Susan George (em 2001) e com o produtor Daniel Melnick (2001). Nada disso existe no lançamento brasileiro.

Completando o pacote da Região 1, vem o trailer original e uma longa galeria de críticas da época (com as cartas que Peckinpah habitualmente escrevia, comentando e respondendo cada uma delas!). Um folheto de 20 páginas ainda traz, reimpressa, a entrevista dada pelo diretor à revista Playboy, em 1974. Um DVD obrigatório para amantes do cinema polêmico e brutal do maior esteta da violência que Hollywood já viu.

– Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, EUA, 1971)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaghn, David Warner
Duração: 118 minutos

6 comentários em “Sob o Domínio do Medo

  1. Certamente os cinefilos assistiram a performance brilhante do grande ator americano Dustin Hoffmann sobre a direcao do notavel falecido cinestasta Sam Peckinpah neste drama da crua e nua realidade da vida humana ambientado na aristocratica e pudica Inglaterra em area rural…

    Esta obra cinematografica do inicio da decada de 70 foi pribida e banida pela censura do publcio ingles pela exposicao de razoes obvias do que se passa nos bastidores sociais de pequenas
    comunidade rurais inglesas…

    Brilhante sucessao de cenas de alto teor dramaticco e bem realizadas pelo elenco e as manifestacoes da bestialidade e violencia humana sao capazes de perpretar no ambito social, em seu aspecto de comportamental de desvios sexuais os mais diversos, e a reacao cruel da vitima com requintes de abominavel violencia em autodefesa de sua femea e sua propria vida…

    Uma tematica exgtremamente dura, nua e crua da condicao humana a ser melhor estudada e compreendida da mente humana em seus aspectos mis sombrios e doentios…

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  2. Fantastico! Parece uma poema , primeiro eles matam o gato , depois estupram a mulher, o passo seguinte seia asssassinar o casal e o deficiente mental. Isso nos mostra ate onde vai a audacia do ser humano mediante a passividade do outro. Bellissimo filme tomara que saia do ostracismo pois ele é atualissimo. Alias O rio de Janeiro vive uma situaçao semelhante .

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  3. Nossa, li sobre a morte do sidney lumet ojee pensei queessefilme era,mas é do Sam, assisti esse filme no corujão da globo acho que em 1985, quando tinha uns 22 anos, assiti somente essa vez, mas eleé tão marcante que me lembro das cenas até hoje, o filme é muito f%da

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  4. O filme é mesmo uma obra-prima de tirar o fôlego, é daquele tipo de obra que nos afeta como um desastre. Quanto à sua crítica, Rodrigo, só sei que quando eu crescer quero escrever assim. XD

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