Narradores de Javé, Os

[rating:4]

Javé, um pequeno vilarejo no sertão nordestino está a ponto de ser inundado para a construção de uma barragem. Os habitantes do lugarejo, formado praticamente por uma única rua de terra batida, prometem reagir. Esse enredo prosaico, singelo, é o mote de “Os Narradores de Javé” (Brasil, 2003), um dos mais refrescantes e originais longas-metragens produzidos no Brasil nos últimos anos.

A história, ao contrário do que se pode imaginar, não tem um herói mitológico como Antônio Conselheiro e nem batalhas com centenas de figurantes. A reação do povo sim ples e ingênuo do lugar, onde Judas perdeu as meias (as botas devem ter ficado uns 500 quilômetros ates), é pacífica: escrever um livro narrando a história de Javé, para provar às autoridades políticas que o lugar merece ser tombado como patrimônio histórico e, assim, evitar a inundação.

O encarregado de escrever o livro é o único habitante de Javé que sabe e escrever. Acontece que Antônio Biá (José Dumont) também é um mentiroso nato e já inventou poucas e boas sobre os moradores do vilarejo, sendo por isso expulso. Numa tentativa desesperada de impedir o desaparecimento da cidade, o povo de Javé o traz de volta. E as confusões estão apenas começando.

O filme de Eliane Caffé tem muitas semelhanças com o trabalho anterior dela, “Kenoma”, a começar pelo protagonista. José Dumont dá mais uma demonstração de que é um ator excepcional, construindo um Antônio Biá carismático, engraçado, sempre com uma frase cortante na ponta da língua. A composição do personagem é tão marcante que ameaça deixar cacoetes do ator pelo resto da carreira, como aconteceu no Jack Torrance que Jack Nicholson fez em “ O Iluminado”.

O resto do elenco surge como maior trunfo da autora. Caffé reúne atores de primeira linha (Gero Camilo e Nelson Xavier estão excelentes) a moradores humildes das duas cidades onde o filme foi feito, Lençóis e Gameleira da Lapa (BA). A cineasta fez um trabalho assombroso de preparação do elenco, a ponto de impedir o espectador de identificar quem é profissional e quem é amador. Está aí um filme que rivaliza tranqüilamento com “Cidade de Deus”, nesse aspecto.

Se o elenco beira a perfeição, o roteiro brinda o espectador com um dos textos mais engraçados dos últimos tempos, celebrando a vida rural do brasileiro simples à maneira do Ariano Suassuna de “O Auto da Compadecia”, um primo-irmão do filme. Só que “Os Narradores de Javé” ainda vai mais longe, ao trabalhar com afeto a questão da memória.

Esse tema vem à tona com força quando os moradores começam a relembrar, cada um a seu modo, os episódios da fundação do lugarejo. O filme de Eliane Caffé deseja reafirmar a maneira como memória afetiva tem, no coração do homem, um lugar único e especial. E há diferenças: uma trilha sonora moderna do DJ Dolores, usada com economia, e uma fotografia abrasiva, sem brilho, que captura a luz abrasante do sertão com um toque de realismo.

A montagem ágil, que se mostra capaz de entrelaçar com fluidez os vários “causos” contados pelos habitantes para o livro de Biá, é outro trunfo. “Os Narradores de Javé” não é cinema comercial, mas deixa transparecer em cada cenário, em cada figurino, a produção carinhosa. Até mesmo os espertos créditos iniciais imprimem velocidade à narrativa, que recorre aos flashbacks com freqüência sem jamais perder o ritmo. Filmão, que merece ser visto por todo mundo que se orgulha de ver o Brasil na tela.

O filme de Eliane Caffé demorou mais de um ano para aparecer em formato DVD, e só o fato de conseguir espaço no disputado mercado de vídeo já merece aplausos. Som e imagem estão OK, e há ainda um pequeno making of como aperitivo.

– Narradores de Javé (Brasil, 2003)
Direção: Eliane Caffé
Elenco: José Dumont, Gero Camilo, Nelson Xavier, Luci Pereira
Duração: 100 minutos

15 comentários em “Narradores de Javé, Os

  1. Assisti ontem à noite (e vi Sangue Negro à tarde, depois comento nesse 😀 ). Realmente um filmaço. O tema da memória social é o leitmotiv do filme e é interessante como ele mostra através dos relatos como a memória de uma cidade vai sendo construída por meio de seu povo. Nota 10.

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  2. Talvez seja melhor comparar o trabalho de fotografia (no sertão) com o de “eu, tu, eles” do que com os filmes de Guel Arraes, os quais não se pretendem realistas.
    Os cacoetes de José Dumont (sempre ótimos) não viriam desde ‘o homem que virou suco’? Ou tô errado de novo?

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  3. Boa observação, Joêzer. Neste caso em particular, não me lembro exatamente o motivo, fiz a comparação com o Guel, mas de fato me parece inadequada dentro do contexto. Vou mudar (só não poderia fazer com o filme que você indicou, porque não o assisti). Quanto ao Dumont, não tenho certeza, penso que existe uma diferença razoável de tom entre os dois trabalhos que você citou.

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  4. Filme engraçado que trata de dois assuntos muito tristes: a desapropriação de terra e do analfabetismo com muita leveza e singeleza. Trabalhei o filme com meus alunos de oitava série que escreveram resenhas críticas sobre ele e adoraram.

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  5. Nossa! o elenco é de encher os olhos, ouvidos e alma, como o povo nordestino é apaixonante! Quanto a historia, pra mim foi um grande presente assistir esse filme neste fim de semana, e ver a importancia da leitura e escrita tão estampadas no enredo, a senhorinha que tenta ler e esquece dos fregueses, a ansiedade do povo em contar suas histórias, a luta pela sobrevivencia e pelo patrimonio historico imaterial… uma delícia de filme.

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  6. Eu axeii o filmee muitoo legall.. e axeii poucoo pra turma daa cidade quandoo Biá não os ajudouu pq não tinha história e noo finall acabouu tendoo uma história para ser contadaa…

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  7. Gostei do filme mais achei que poderia ter sido melhor. O filme que conta a história antiga do povoado brasileiro, historia interessante por que cada um dava uma versão da cidade para dar um motivo sem a represa invadir e devastar tudo e tentam acha um monumento historico, o unico fato de a cidade não ser devastada.

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  8. o filme foi muito interesante e muito legal eu nao gostei do final porque na ora que os moradores
    de jave precisaram do Antonio Biá ele nao agudou ele deveria ter ajudado a cidade.

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  9. Gostei muito do filme, tive a oportunidade de assisti-lo duas vezes no colegio!
    E olhando nesse site os comentarios vi como as pessoas perdem seu tempo escrevendo (xingando)sobre o filme sem ao menos ter assistindo, bom pelo menos foi o que eu percebi.Todos tem o direito de expor sua opiniao, mas com consciencia do que elas fazem.
    Obrigado!

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