Superman – O Filme

[rating:4.5]

“Você vai acreditar que um homem é capaz de voar”. O slogan acompanhava o material de divulgação de “Superman – O Filme” (Superman, Inglaterra, 1978), meses antes de o longa-metragem entrar em cartaz, no Natal de 1978. Não foram poucas as pessoas que duvidaram que o cineasta Richard Donner pudesse dar vida ao maior ícone dos quadrinhos. Mas o diretor conseguiu criar uma fórmula infalível para os filmes de super-heróis: atores de credibilidade, efeitos especiais inéditos usados com economia, roteiro misturando comédia, romance e aventura em doses iguais. O resultado é um dos mais originais – e certamente um dos melhores – filmes de aventura já feitos.

Até aí, nenhuma grande novidade. Essa opinião é compartilhada por quase todos os especialistas em cinema baseado em quadrinhos. O que pouca gente sabe, contudo, é que a produção de “Superman – O Filme” foi uma bagunça, totalmente fora dos padrões normais, com onze unidades filmando simultaneamente, dois filmes saindo do forno ao mesmo tempo e um diretor esperando nos sets pela demissão de outro colega. Com tudo isso, apenas um DVD especial poderia dar conta do filme e de tantas histórias de bastidores.

Voilá: este disco existe, no Brasil, desde 2004. “Superman – O Filme” é duplo, e segue mais ou menos o padrão dos DVDs de resgate de filmes históricos. O disco 1 é dedicado ao filme, com imagem original (widescreen anamórfica) remasterizada, som Dolby Digital 5.1 explosivo, e um comentário de áudio (legendado em português) do diretor, em conjunto com o roteirista Tom Mankewicz.

O segundo disco vai mais longe: tem um documentário dividido em três partes, com pouco mais de uma hora de duração, e mais cenas excluídas, testes do elenco, galeria de fotos e trailers. O documentário, com legendas, disseca todos os detalhes da produção. É vendo-o que o espectador toma consciência da tarefa arriscada que foi a produção de “Superman” – algo como se “O Senhor dos Anéis” fosse produzido em 1978, quando as verbas para filmes dessa magnitude não chegavam a valores astronômicos como os que vemos hoje, e o computador ainda era uma raridade nos estúdios de filmagem.

Para começar, “Superman” não foi feito por Hollywood, mas por produtores europeus. As filmagens duraram um ano, e Richard Donner foi pressionado até o fim para cumprir prazos e orçamentos, a ponto do colega Richard Lester ter sido convocado para ficar de prontidão, no caso de Donner ser demitido (isso de fato aconteceu, após a finalização de “Superman”; Lester então jogou no lixo todas as cenas que Donner havia filmado para “Superman II”, que deveria ter ficado pronto ao mesmo tempo, e começou tudo do zero).

O ponto mais forte de “Superman” é o roteiro sólido. Surpreende, de fato, que o texto tenha ficado tão limpo e ágil, pois nada menos do que seis pessoas trabalharam nele, em períodos diferentes. Tom Mankewicz, que amarrou o resultado final, fez um trabalho de mestre. Desenvolveu a trama sem pressa, injetou muito humor (os ajudantes atrapalhados do engraçadíssimo Lex Luthor, e a caracterização hilariante de Clark Kent, alter-ego humano do homem de Krypton, são provas disso) e soube encaixar perfeitamente os efeitos especiais, impressionantes para a época, com as cenas de diálogo.

O filme abre com um longo prólogo em Krypton. Esta é a única nota destoante da produção: 10 ou 15 minutos a menos, aqui, não fariam diferença. Mas os produtores queriam aproveitar a presença imponente de Marlon Brando, que faz Jor-El, o pai do Super-Homem. Antes que o famoso Homem de Aço apareça, depois de 1h10 de projeção, ainda vemos cenas da adolescência do rapaz – na melhor delas, ele corre mais rápido do que um trem e é observado por uma Lois Lane ainda garotinha, dentro do veículo, em uma seqüência sensacional e muito bem feita.

As aparições do Superman em Nova York (no filme, a cidade é Metrópolis, mas na verdade se trata da Big Apple, com Estátua da Liberdade e tudo) dão partida à trama do gênio do crime Lex Luther, em uma caracterização impagável de Gene Hackman (as perucas que ele usa para esconder a calvície são simplesmente hilariantes), e abrindo espaço para a paixão platônica do herói pela repórter Lane (Margot Kidder). Vendo “Superman” e a perfeita mistura de gêneros elaborada pelo filme, um espectador atento vai estar observando a gênese dos melhores longas de super-heróis.

Se você fizer uma comparação, as séries “Homem-Aranha” e “X-Men” (principalmente as criações de Sam Raimi) bebem generosamente nesta fonte, utilizando a mesma receita (humor + romance + aventura) com tecnologia mais atual. Mas nem o problema da tecnologia ultrapassada, de fato, atrapalha o prazer de conferir “Superman”, porque os efeitos especiais continuam razoavelmente convincentes. Em 1978, então, o público realmente acreditou que um homem podia voar – e o slogan preciso acabou por garantir o filme à posteridade.

– Superman – O Filme (Superman, Inglaterra, 1978)
Direção: Richard Donner
Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Marlon Brando, Margot Kidder
Duração: 151 minutos

4 comentários em “Superman – O Filme

  1. Se não me engano, uma das seis pessoas que trabalharam no roteiro foi o próprio roteirista e criador da saga O Poderoso Chefao, Mario Puzo, numa primeira versão do roteiro do Superman com 400 páginas.

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  2. Você falou que seu filme preferido é “Três homens em conflito”, faroeste do Sérgio Leone. O meu é esse aí, Superman (1978), pelo simples fato de ter sido o primeiro filme que assisti num cinema, quando eu tinha seis anos de idade. Às vezes me pergunto: se filmes são, no fim das contas, uma questão relativa — e nesse ponto eu concordo com o filósofo Kant, a despeito da universalidade subjetiva do belo que há em cada um de nós –, qual seria então a função da crítica? Alguem diria: “pra fazer a opinião de gente que só gosta de obras de arte segundo os críticos”. Eu jamais diria que meu filme preferido é Cidadão Kane, Encouraçado Potemkin ou qualquer filme de Bergman ou Fellini, embora respeite a importância dessas obras para o cinema. Como a grande maioria, gosto de filmes por pura empatia, independentemente de serem desse ou daquele autor. Entretanto, as pessoas sofrem enorme pressão — e até preconceito — por adorarem filmes que os críticos fuzilam. O que podemos fazer ?

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  3. Não há resposta simples para sua pergunta. Há muitos trabalhos acadêmicos sobre a função da crítica, Gilx. Recomendo o livro “A Função da Crítica”, de Terry Eagleton, onde ele explica que a crítica de arte nasceu em um contexto histórico muito complexo em que cumpria a função da resistência cultural a determinados poderes estabelecidos. Para reflexão, deixo a célebre frase de André Bazin a respeito da crítica de cinema: “A função do critico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte”.

    Dê uma olhadinha no link a seguir: http://www.bdetudoverdade.com.br/2006/iat_coluna_exibe.php

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