South Park – Maior, Melhor e Sem Cortes

[rating:4.5]

As aparências enganam. À primeira vista, um desenho animado que traz como protagonistas quatro garotos de oito anos parece ser um daqueles musicais da Disney, educativos e cheios de lições de moral. Deve ter sido isso que levou o Ministério da Justiça brasileiro a dar a “South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes” (South Park: Bigger, Longer and Uncut, EUA, 1999) a classificação etária de 14 anos para um filme claramente adulto.

Fãs do cartoon mais desbocado da TV, podem descansar tranqüilos. O primeiro longa-metragem dos americanos Trey Parker e Matt Stone não está chegando às telas brasileiras adocicado. É um desenho animado, mas dos seus congêneres guarda apenas uma semelhança: trata-se de um musical. O filme é uma das obras mais politicamente incorretas já produzidas em Hollywood. Faz com que obras-primas da baixaria, como “Quem Vai Ficar Com Mary?”, pareçam singelas canções de ninar.

Não é exagero não. Uma associação de pais norte-americana baseada no Colorado (ironicamente, o Estado onde fica a fictícia cidadezinha de South Park, lar dos personagens do filme) chamada Media Index teve a manha de contar cada uma das expressões profanas (o estúpido enunciado politicamente correto é deles) pronunciados pelos garotinhos durante os 80 minutos de projeção. O resultado: o longa-metragem tem apenas 399 palavrões, ou uma média de cinco palavrões por minuto. O detalhe é que nada menos que 128 deles vêm acompanhados de gestos obscenos, sem contar com 221 cenas de violência. Em outras palavras: quem não gosta de piadas politicamente incorretas e gozações com minorias raciais e religiosas deve passar longe desse filme.

Já quem gosta de rir e não dá bola para os chavões da sociedade ultraconservadora dos EUA, no entanto, só tem uma coisa a lamentar: para chegar ao Brasil, “South Park” demorou 13 longos meses. Já o DVD veio melhor do que o norte-americano, incluindo dois clipes e três trailers. O filme mais engraçado do ano passado deve ser assistido legendado, o que dá oportunidade para conferir as vozes originais do quarteto e curtir a participação especial de astros como George Clooney (o galã de Mar em Fúria, outra estréia da semana), Minnie Driver (Gênio Indomável) e Eric Idle (integrante do impagável grupo inglês Monty Python). Eles dublam personagens secundários.

O roteiro do longa-metragem, como a maioria dos episódios do desenho (exibido no Brasil nos canais Multishow e MTV), é mero pretexto para as baixarias hilariantes perpetradas por Parker e Stone. O verdadeiro alvo dos dois era a Motion Pictures Association of America (MPAA, o órgão que decide a faixa etária de exibição dos filmes por lá). A associação comprou a briga e exigiu inúmeras mudanças na história – para deleite dos cineastas. “Cada vez que eles pediam para mudar alguma cena, voltávamos com algo dez vezes pior”, garante Parker.

Filme pronto, o órgão decidiu carimbá-lo com a classificação NR-17. Faixa etária impensável para o produto de um estúdio gigante como a Paramount, já que a maior parte dos cinemas nos EUA se recusa a exibir esse tipo de filme. O estúdio, que estava gastando a bagatela de US$ 21 milhões com a produção, brigou nos bastidores e conseguiu baixar a censura para R. Isso sem que os criadores retirassem uma cena sequer da montagem final. Ponto para a dupla de humoristas.

No filme, os garotos Cartman, Kenny, Stan e Kyle vão ao cinema, assistir ao longa-metragem da dupla canadense Terrance & Phillip, dois malucos com grande talento para piadas grosseiras e muita flatulência. Pretexto para a primeira gozação explícita com a MPAA: os guris são proibidos de entrar no cinema porque o tal filme é proibido para menores de 18 anos, mas subornam um sem-teto com grana “para uma garrafa de vodca” e ele compra os ingressos. O filme dentro do filme é um festival de baixarias e traz a genial “Uncle Fucka”, um amontoado de palavrões cabeludos de fazer chorar de tanto rir. Alguns deles são tão absurdos que nem mesmo alguns americanos conseguiram decifrá-los.

Vocabulário em dia, os meninos vão à escola no dia seguinte e despejam os palavrões, logo repetidos à exaustão pelos outros alunos. É a vez de os pais se indignarem e organizarem um levante contra os astros canadenses, a quem consideram culpados pela destruição da moral e dos bons costumes da juventude americana. O protesto se alastra pelos EUA e termina com a prisão e condenação à morte de Terrance & Phillip. O Governo canadense reage bombardeando a casa da família Baldwin (uma das dezenas de cenas de matar de rir) e abrindo um conflito armado que pode virar a Terceira Guerra Mundial. Enquanto isso, Satã e o seu amante infernal, Saddam Hussein, aguardam a tal guerra para dominar o mundo.

As cenas no inferno são impagáveis e intraduzíveis: basta dizer que Satã é um malvadão sensível que dorme com o livro “Satã é de Marte, Saddam é de Vênus” na cabeceira, enquanto o ditador iraquiano abusa do charme para sodomizar o gigante vermelho. Cabe à garotada de South Park alertar os pais para a burrice que estão a ponto de cometer.

South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (South Park: Bigger, Longer and Uncut, EUA, 1999)
Direção: Trey Park e Matt Stone
Animação
Duração: 80 minutos

Um comentário em “South Park – Maior, Melhor e Sem Cortes

  1. Adorei o filme!
    Simplesmente genial! Já tinha assistido uma vez e agora, alguns anos depois, achei ainda mais extraordinário! O politicamente incorreto faz a gente pensar criticamente, olhar as coisas de maneira mais atenta, sem as barreiras dos preconceitos, dos julgamentos moralistas! Nesse aspecto, South Park é, repetindo, genial!
    Além disso, as escolhas visuais contribuem para dar o tom absurdo do filme, tornando-o extremamente coerente, metaforizando os absurdos tratados nas formas absurdas do desenho – e a figura bizarra do canadense é uma sacada fantástica e muito engraçada!
    Nota 10!!!!!!!!!

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