Barton Fink – Delírios de Hollywood

[rating:4.5]

Todo mundo que gosta dos filmes bizarros e elegantes dos irmãos Coen sabe que a primeira obra-prima incondicional de Joel e Ethan foi “Barton Fink – Delírios de Hollywood” (EUA, 1991). A carreira do longa-metragem nos círculos cinéfilos é impecável: foi a primeira produção na história a faturar os três principais prêmios em Cannes (filme, direção e ator), teve três indicações ao Oscar e ganhou a pecha de filme de arte em uma época em que filmes dos EUA, especialmente produzidos dentro de Hollywood, eram solenemente desprezados por amantes de cinema não-comercial. Não são muitos os que sabem, contudo, que “Barton Fink” nasceu de um tremendo bloqueio criativo vivido pelos irmãos Coen.

Na época, entre 1989 e 1990, Joel e Ethan estavam escrevendo “Acerto Final”, um longa-metragem sobre o mundo dos gângsteres no qual depositavam muita esperança. Os dois, porém, travaram. Levaram meses para completar o roteiro. No desespero por não conseguirem acertar o tom, Joel e Ethan começaram a rabiscar um outro texto, sobre um roteirista em crise que (adivinha!) não conseguia nem sequer começar a pôr no papel o enredo de um filme para o qual tinha sido contratado. Deram ao sujeito o nome de Barton Fink e ambientaram a época, por razões diversas (que serão explicadas adiante), em 1941.

A produção foi rápida e espontânea, quase um parque de diversões se comparado ao difícil parto de “Acerto Final”. Por razões que só os deuses do cinema podem explicar, o projeto concebido como uma espécie de temporada de férias resultou bem melhor do que o filme sério oficial dos Coen (embora “Acerto Final” seja bacana). Em “Barton Fink”, os irmãos abandonaram o status de surpresa promissora que cultivavam desde a estréia, com “Gosto de Sangue”, em 1984, e viraram cineastas consagrados. Também foi com “Barton Fink” que eles completaram uma galeria de colaboradores fiéis que os acompanhariam durante toda a carreira vindoura: o fotógrafo Roger Deakins e o compositor de trilhas Carter Burwell, entre outros.

O enredo: Barton Fink (John Turturro) é um roteirista teatral promissor, em 1941. Ele acaba de escrever uma peça de sucesso, que está na Broadway, quando recebe uma proposta milionária de um estúdio de Hollywood. Apesar da firme convicção de que o teatro é uma arte mais nobre do que o cinema, ele fica seduzido pela grana. Resmungando, embarca para Los Angeles com uma máquina de escrever e pede para ficar hospedado em um hotel vagabundo. Barton acredita que os artistas, para produzirem boa arte, precisam viver em dificuldades. Ele quer evitar a boa vida de Los Angeles. É uma espécie de auto-punição por ter aceitado um trabalho milionário: ele sua em bicas dentro de um quarto apertado. O lugar é tão quente que a cola do papel de parede derrete, enquanto Barton luta contra as folhas em branco.

Evidentemente, o filme é construído como uma crítica ácida à indústria do cinema, defendendo sem cerimônia a idéia de que Hollywood é um inferno (preste atenção às seqüências finais, quando a afirmação vira algo literal) para um artista de verdade, um cara que vê o que faz como arte e não apenas como diversão ligeira. Como os Coen não deixam pedra sobre pedra, o próprio papel do artista também é devidamente satirizado (o escritor se leva a sério demais, é pomposo e ostenta o tempo inteiro um ar superior, mesmo produzindo banalidades).

O primeiro trabalho que o estúdio lhe pede para fazer é o roteiro de um filme de luta livre. Ele resmunga mais um pouco, acha que está sendo subvalorizado, mas nada pode fazer a não ser aceitar. No hotel, o sujeito faz um amigo na pessoa de Charlie Meadows (John Goodman), um estranho caixeiro viajante que tenta ajudá-lo com o roteiro. Também tem um caso com a secretária do comerciante, Audrey Taylor (Judy Davis). Como quase todos os protagonistas dos irmãos Coen, vai perder o controle sobre seu destino aos poucos, enquanto se embaralha com o roteiro e se envolve em assassinato.

A trama de “Barton Fink” é uma colcha de retalhos construída com pedaços de histórias verdadeiras e referências obscuras, a começar pelo próprio protagonista: Barton Fink é uma mistura de William Faulkner e Orson Welles. Nos anos 1940, Faulkner realmente foi contratado em Hollywood para fazer um filme de luta livre, e fazia tudo a contragosto, pelo dinheiro, louco de vontade de retornar logo aos romances. A trajetória seguida pelo roteirista da ficção (da consagração nos palcos de Nova York para Hollywood) também não deixa dúvida: é uma referência a Welles, que fez o mesmo caminho antes de dirigir “Cidadão Kane”, também lançado em 1941.

Coincidências? Claro que não. Joel e Ethan Coen têm fama de nunca esclarecer sobre a verdadeira inspiração dos seus roteiros (eles negaram zombeteiramente que “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” fosse baseado em Homero), mas já admitiram que retiram idéias de histórias reais. Na verdade, não existem coincidências em filmes dos irmãos Coen. Existem, sim, humor sofisticado e cínico, ironia crítica, diálogos impagáveis, personagens deliciosos e um flerte evidente com o film noir (a caracterização da época, a fotografia pesada e escura, a clássica personagem da mulher fatal). “Barton Fink” é uma comédia de humor negro de primeira classe.

Este foi o filme que marcou a maturidade artística dos irmãos Coen; definiu não apenas o tom surreal dos roteiros que os dois iriam trabalhar dali para a frente, mas também o universo cool e divertido em que todos os seus trabalhos passariam a ser ambientados. A galeria interminável de grandes filmes que os dois enfileiraram a partir dele (“Fargo”, “O Grande Lebowski”, “O Homem Que Não Estava Lá” e muitos outros) deve muito a “Barton Fink”. Ainda por cima, arrancaram performances perfeitas do elenco, da performance histriônica de John Turturro, no papel-título, à química inigualável deste com o tom fanfarrão de John Goodman. “Barton Fink” é jóia, pode crer.

Infelizmente, o DVD não é tão bom quanto o filme. A Universal lançou o longa-metragem no Brasil com áudio Dolby Digital 2.0 (ou seja, sem efeitos em surround). As imagens têm enquadramento original preservado (widescreen anamórfico). Não há extras no disco.

– Barton Fink – Delírios de Hollywood (EUA, 1991)
Direção: Joel Coen
Elenco: John Turturro, John Goodman, Judy Davies, Michael Lerner
Duração: 117 minutos

6 comentários em “Barton Fink – Delírios de Hollywood

  1. Fico em dúvida, mas acho que esse é o melhor dos Coen que eu assisti. Sempre tem um pouco de subjetividade numa escolha dessas, mas para mim Barton Fink bate Fargo de longe, e talvez empate com Onde Os Fracos Não Têm Vez.

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  2. Gostaria de entender o que aconteceu no final do filme, o que realmente aconteceu, porque os acontecimentos são confusos e gostaria que alguem me esclarecesse.
    Obrigado

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  3. Para quem vai ver este filme, acho bom gostar de filmes no qual no final você fique com vontade de explodir a cabeça de quem criou o filme, pois você verá que no final não há realmente um desfecho.

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  4. O final do filme é a própria síntese da crítica que os Cohen traçam à indústria cinematográfica de Hollywood e seus clichês. Reparem que a mulher que Barton Fink encontra na praia, é a única a lhe inspirar a beleza (aquela beleza que ele interminavelmente buscou o filme inteiro e para a qual a indústria – representada pelo dono da produtora- não dava a mínima). O diálogo final é esclarecedor pois quando barton diz à moça que é bonita, pergunta-lhe se trabalha em cinema ao que ela responde “está brincando…” Moral: Não há possiblidade do novo, do inventivo, da beleza enfim, dentro da indústria de Hollywood.

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  5. Reparem que no final do filme, ele finalmente encontra algo realmente belo na figura da moça na praia, mas se vocês perceberam (claro que perceberam), ela é igual ao quadro que ficava durante todo o filme no quarto de Barton, sobre a mesa onde ele tentava em vão escrever a historia de seu filme, e isso simboliza a beleza inexistente ou invisivel do cinema: esteve lá, na cara dele, por todo o filme e ele não viu.
    O mais interessante pra mim foi a tal caixa. O que tinha dentro? E o mais importante: como diabos Barton Fink não sentiu curiosidade em saber o que havia dentro? Ótima piada interna dos irmãos Coen.

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  6. Gostei muito do filme mas Fargo é imbatível para mim.
    Fargo é imbatível porque é simples.Esse filme tem tantas referências que acho um pouco disperso, Fargo é consistente ,fala do cidadão comum com mais propriedade.
    Nesse filme me chamou a atenção o escritor falar tanto do cidadão comum mas não ouvi-lo, e mais engraçado ainda é que quem tem problemas de ouvido é seu vizinho de quarto mas o surdo é o escritor. Quando ele dança naquela festa o “cidadão comum” o irrita profundamente e da sua boca sai num rompante o que ele pensa realmente e el diz, “Eu sou um escritor “diz isso de uma forma arrogante de quem se sente sempre em um patamar acima do comum.
    Em outro momento do filme ele mostra a inveja que tem da inteligência do escritor mais velho. Quando descobre que a secretária e amante do outro escritor escreve por ele , ele explode e diz que o outro é uma farsa. Bem, as verdades nesse filme, são todas explosivas.E ele que o tempo todo fala do cidadão comum, não vê que o cidadão do quarto ao lado, seu amigo e confidente, não tem nada de comum, simplesmente porque ele sabe o que significa “cidadão comum”. O maluco seu vizinho diz para ele várias vêzes que ele é surdo.
    O que o agente pede para ele sem parar, é para ele fazer um filme sobre luta para ser visto por cidadãos comuns mas ele não ouve, fica sempre procurando uma resposta genial para um filme.
    Esse eu vizinho por outro lado, tem também uma maneira peculiar de tentar entender as cabeças e o sofrimento que há dentro delas, pensa que livra as pessoas do sofrimento que ele vê nelas e nele próprio, cortando suas cabeças e fica esperando que alguém possa fazer isso por ele também algum dia.
    Será que existe realmente alguém comum?????Essa é pergunta que o filme faz .
    E qual é a intenção dos Cohen???? Retratar o absurdo do comum, acho que em Fargo fazem melhor.

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