Amores Brutos

[rating:4.5]

Poucos cineastas estreantes têm estofo para lançar, como primeiro trabalho, um filme denso, pesado e profundamente ambicioso. Em Hollywood, sequer imaginar algo do gênero seria surreal. Por sorte, Alejandro Gonzáles Iñárritu nasceu no México. Trabalhando com atores desconhecidos e orçamentos apertados, ele teve a liberdade criativa para levar em frente o projeto de “Amores Brutos” (Amores Perros, México, 2000). O longa-metragem fez e continua a fazer enorme sucesso no meio dos cinéfilos jovens, por conta de alguns ingredientes que compõem a sua receita: violência, narrativa fragmentada, montagem acelerada e personagens jovens fascinantes.

”Amores Brutos” entrelaça as trajetórias de três pessoas a partir de um acidente automobilístico. Na primeira história, o protagonista é o jovem Octávio (Gael Garcia Bernal, antes da fama). Ele tem uma queda pela esposa do irmão mais velho, Susana (Vanessa Bauche). Octávio dá a ela o carinho que o primogênito da família lhe nega – o cara, um delinqüente envolvido com drogas, é bastante agressivo com a menina – e decide fugir de casa com Susana. Para levantar a grana necessária, ele usa o cachorro Cofi em brigas ilegais.

A segunda história narra a história de uma modelo famosa, Valeria (Goya Toledo). Ela vive um momento especial: acaba de assinar contrato com uma marca de perfumes, está de mudança para um flat luxuoso e o amante, Daniel (Álvaro Guerrero), finalmente decidiu largar a esposa e as duas filhas para ir viver com ela. A vida parece um paraíso, bem ao contrário do que é para Chivo (Emilio Echevarría), um ex-guerrilheiro que foi criado longe da filha, agora adulta, e sobrevive praticando assassinatos de aluguel.

O acidente de carro realiza a conexão entre esses três personagens, provocando mudanças radicais (e muitas vezes imprevisíveis) nas três vidas. Iñárritu dispara, a partir dessa narrativa fragmentada, reflexões sobre uma grande quantidade de temas. O principal deles é a vida na cidade grande. O cineasta contrapõe a vida dura e sem perspectivas no subúrbio de uma supermetrópole, como a Cidade do México, e o dia-a-dia dos burgueses do mesmo lugar. Os problemas de Octávio e Valeria não poderiam ser mais diferentes. Mesmo assim, a certa altura do filme, ambos se encontram sufocados pelas respectivas enrascadas em que se meteram, involuntariamente. Descontando a perspectiva, os dois sofrem da mesma maneira.

Talvez seja essa a principal mensagem do filme vigoroso de Alejandro Iñárritu. Mas o diretor novato não pára aqui. Sua ambição é muito maior. Cada um dos protagonistas vive uma complexa gama de emoções: paixão, arrependimento, desespero, saudade, ciúmes. O roteiro de Guillermo Arriaga é brilhante em dois extremos, tanto na criação de personagens multifacetados e profundamente ancorados na realidade (Octávio, Valeria e Chivo poderiam ser pessoas de carne e osso) quanto no desenvolvimento correto da ação dramática. Os diálogos ágeis, que equilibram humor e dor em proporções iguais, completam o cardápio. A fotografia nervosa, de câmera na mão e cores saturadas, ajuda a dar o clima de urgência que o enredo pede.

A rigor, “Amores Brutos” não tem falhas aparentes. Por isso, se mantém desde o lançamento na lista dos 150 melhores filmes de todos os tempos, segundo a prestigiosa lista do maior banco de dados de cinema da Internet, o Imdb. O único senão do filme de Iñárritu é, talvez, o excesso de pessimismo que sua visão juvenil ainda possui. As histórias que ele conta estão, todas, embebidas em um alto grau de desesperança diante da vida que se descortina para o futuro. Até mesmo na conclusão da terceira trama, que ensaia uma tentativa de redenção, Chivo recorre à violência e ao cinismo para conseguir a sua redenção. Não existe um personagem positivo, e a perspectiva do filme é inteiramente sombria. Mas isso não tira o brilho de uma estréia promissora e talentosa.

Em DVD, “Amores Brutos” está disponível em um pacote básico, que inclui apenas o filme (com imagens em formato widescreen original e trilha de áudio Dolby Digital 5.1), sem material extra.

– Amores Brutos (Amores Perros, México, 2000)
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarría, Goya Toledo, Álvaro Guerrero
Duração: 153 minutos

2 comentários em “Amores Brutos

  1. Comprei o dvd e assisti ao filme: foram 153 minutos ininterruptos sentado no sofá, sem comer nem beber nada, sem ir ao banheiro, sem falar com ninguém, absolutamente hipnotizado pelas cenas e personagens deste maravilhoso filme. Desde já, está na lista dos meus melhores de todos os tempos, apesar o forte tom pessimista.

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  2. O primeiro filme de Iñárritu que vi foi Biutiful. Depois de amar esse filme, fiquei interessada pela obra desse diretor e me recomendaram Amores Perros. Quando li a crítica de Biutiful (depois de ter visto o filme) eu percebi uma prática de alguns críticos que eu considero absurda e vejo também nesta crítica porque o diretor lança mão da mesma coisa. A visão pessimista de mundo do diretor foi amplamente criticada e retirou conceito de ambos os filmes nos sistemas de votação. Aí eu me pergunto: Mas o que é isto? É prática completamente anti-artística reprovar a visão de mundo do autor. Ora não é a arte um espelho do ponto de vista de um artista? O que vejo nessa crítica e que vi na outra não foi uma crítica ao filme e sim à visão de mundo do diretor, o que é um absurdo. cada um tem sua mentalidade. Seria compreensível se dissessem “O público pode não compartilhar da visão pessimista do diretor”, mas tirar pontos do filmes porque a visão do direto é pessimista é muita anti-arte.

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