Blow Up – Depois Daquele Beijo

[rating:5]

A marca registrada de Michelangelo Antonioni é a incomunicabilidade. No dicionário informal dos cinéfilos de todo o mundo, essa palavra complicada se tornou sinônimo dos filmes do cineasta italiano, por seus retratos agudamente críticos dos valores da burguesia (o casamento, a amizade, a família). Antonioni vê o homem do século XX como um prisioneiro do código de condutas erigido pela sociedade em que vive. “Blow Up – Depois Daquele Beijo” (Blow Up, Inglaterra/Itália, 1966), que ele fez na Inglaterra, é talvez o mais instigante e transcendente dos filmes que fez, porque revolve a mesma temática com a habitual competência, mas consegue ir além disso.

Antonioni baseou livremente a narrativa de “Blow Up” (uma expressão que, traduzida livremente, pode significar “ampliação fotográfica”) em um conto do escritor argentino Julio Cortázar. O contista inclusive aparece nos filmes; ele é um dos mendigos retratados na série de fotos que o protagonista, o fotógrafo de moda Thomas (David Hemmings), prepara para um livro.

O longa-metragem é pesado, hermético e quase não tem diálogos. É um passo firme de Antonioni para retratar o homem como um ser cujo livre-arbítrio é uma ficção, uma teoria irrealizável, pois não existe discurso ou ação que consiga praticar capaz de livrar-lhe do tédio, das amarras sociais, e em última instância da própria noção de felicidade. A felicidade, parece dizer Antonioni, só pode ser encontrada fortuitamente, em breves instantes, e logo desaparece.

“Blow Up” é o retrato de um desses momentos, que aparecem muito raramente na vida de Thomas. O sujeito é um dos mais ricos, famosos e requisitados fotógrafos fashion da “swinging London” (o ambiente febril vivido na capital inglesa, em meados dos anos 1960). Possui um Rolls Royce conversível, uma bela casa, e tem dezenas de modelos gostosas ajoelhando-se a seus pés. Em teoria, leva uma vida de sonho. Mas, na prática, isso não poderia ser mais diferente. A vida de Thomas parece mais um pesadelo sem fim.

Thomas é o retrato do cansaço. Não do cansaço físico, mas de um tipo de cansaço bem mais difícil de derrotar: o cansaço moral. O cansaço da alma. Ele tem tudo, mas não é feliz; vive em estado permanente de tédio. Sua vida chique já se transformou em rotina, uma rotina na qual ele está preso, sem que seus esforços desesperados para sair da letargia surtam qualquer efeito. “Fiquem de olhos fechados que eu já volto”, diz ele a um grupo de garotas, que posa nos estúdios chiques em que trabalha, momentos antes de escapulir por uma porta e sumir durante o resto do dia. Thomas trata funcionários e modelos à base de rompantes de agressividade. Ele tem um comportamento angustiante.

Em um desses dias indolentes, em que acaba de comprar uma hélice gigantesca apenas porque quer e pode (para romper a rotina), Thomas acaba em um parque. Vê nele um casal se beijando, uma cena banal que, mesmo assim, lhe excita. Ele fotografa tudo. É percebido pela mulher, que tenta lhe pedir o filme. Ele recusa. Mais tarde, quando revela o rolo e o submete a incessantes ampliações (daí o título original), Thomas descobre que pode ter fotografado um assassinato em andamento. O resto do filme será construído em torno das tentativas de Thomas em desvendar aquilo que realmente fotografou.

O resultado da investigação é o que menos interessa a Antonioni. O cineasta acreita que os esforços de Thomas para descobrir a trama por trás das fotos são a chave para o breve momento de felicidade que ele experimenta. Enquanto investiga o caso, Thomas sai da rotina e, por isso, é feliz. Obviamente, essa felicidade é um estado transitório, e o resultado da investigação pouco importa para o que vem a seguir: a volta da rotina e, por conseqüência, do tédio.

Se for assistido como um suspense de três atos, portanto, o filme está fadado à decepção; ele é, como bem lembrou o crítico Roger Ebert, um conto de mistério sem o terceiro ato (ou seja, sem a solução final). “Blow Up” aborda a natureza da realidade. O que é real? Algo que fotografamos sem ver, e não podemos provar que vimos, pode ser considerado verdadeiro? Há algo de filosófico nessa pergunta, algo de metafísico, e Antonioni a responde a seu modo: lento, reflexivo, silencioso, com um forte teor de crítica social.

O filme exibe uma curiosa semelhança temática e estética com o também polêmico “A Tortura do Medo”, de Michael Powell. Ambos possuem um fotógrafo como protagonista; são sujeitos incomuns, sociáveis na aparência mas perturbados na essência, que desafiam as regras de conduta sociais. Stanley Kubrick, em “Laranja Mecânica”, prestou homenagem a ambos os filmes. A fotografia de cores exuberantes e movimentos de câmera elegantes de Carlo Di Palma é uma influência decisiva do épico kubrickiano.

O cineasta italiano retrata o ambiente instigante da “swinging London” com um interesse quase antropológico. Repare como Antonioni incluiu no enredo três longas seqüência representando a trinca de valores fundamentais da época (sexo, drogas e rock’n’roll), chegando sempre à mesma conclusão: nada, nem mesmo a energia da juventude e sua febril vontade de contestação, é capaz de retirar o homem da prisão social.

O longa-metragem, embalado por uma trilha discreta do jazzman Herbie Hancock, é um conjunto de seqüências antológicas. O ensaio de Thomas com a linda modelo Verushka na abertura; o quase sinfônico movimento de Thomas para fotografar o casal no parque; o posterior jogo de sedução entre Thomas e a desconhecida; a frenética cena da revelação do filme; a furiosa performance do grupo Yardbirds (com dois futuros ícones do período, Jimmy Page e Jeff Beck, dividindo o palco); tudo isso compõe um admirável e coeso mosaico cinematgráfico da melhor qualidade. E tudo culmina como uma linda e poética seqüência de jogo de tênis imaginário que, de certa forma, resume toda a filosofia por trás do filme.

Vale ressaltar, ainda, o brilhante desempenho de David Hemmings no papel de Thomas. Ele é a alma do filme e encarna perfeitamente a frivolidade da ação retratada na tela. “Blow Up” ganha, em DVD, uma edição apenas razoável, com imagem widescreen 9×16 restaurada, trilha de áudio Dolby Digital 1.0 e dois trailers. Há ainda um comentário em áudio do estudioso de Antonioni, Peter Brunette (sem legendas), e a possibilidade de ouvir a trilha sonora isolada de Herbie Hancock.

Se você gosta de Antonioni, ou pretende descobri-lo, é uma ótima opção. Mas vá com calma. Não procure respostas fáceis no filme e nem espere uma narrativa óbvia, muito menos ágil. Antonioni faz parte do seleto grupo de autores de cinema que melhor se aproximaram do conceito de poesia.

– Blow Up – Depois Daquele Beijo (Blow Up, Inglaterra/Itália, 1966)
Direção: Michelangelo Antonioni
Elenco: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles, Verushka
Duração: 111 minutos

14 comentários em “Blow Up – Depois Daquele Beijo

  1. Vai uma impressão pessoal. A discussão principal do filme, como a do conto, é a da representação do real. A realidade só pode ser acessada por uma mediação (no filme, é a fotografia). Mas a fotografia retrata a realidade ou constrói a sua própria? Lembrando que a fotografia é análoga ao cinema, e que a própria fotografia do filme às vezes é tão exuberante, os enquadramentos tão simétricos, que o espectador sente estar diante não de uma imagem capturada da realidade, mas de uma reconstrução do real pelas mãos do cineasta. Tem uns detalhes bastante metalingüísticos no filme.

    Mas Antonioni não é meu preferido. O jeito como os diálogos são feitos, às vezes, parecem sem sentido, e algumas cenas ficam muito inverossímeis por isso.

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  2. Belo comentário. Bastante interessante a observação sobre a perfeição das composições visuais; em relação a Antonioni, confesso que isso nunca me tinha vindo à cabeça. Mas faz sentido. Afinal, estamos falando do diretor que obrigou seu fotógrafo a pintar a grama de verde, em “Deserto Vermelho”, apenas porque não gostava do tom.

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  3. Rodrigo, aproveitando a discussão, queria pedir mais críticas de filmes emblemáticos pro cinema de diretores como Antonioni, Tarkovski, Eisenstein, Bergman, Godard(a fase pós Dziga Vertov, principalmente), Welles, Griffith etc…Sempre acompanho o cinereporter e sinto falta de análises de alguns filmes que gostaria bastante de saber teu ponto de vista. Espero que leia e compreenda e o sentido do pedido.

    Abração!

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  4. Paolo, bem que eu gostaria de escrever mais sobre filmes clássicos. Nem sempre é possível, infelizmente. Falta tempo para vê-los (ou revê-los, em muitos casos), e principalmente para escrever os textos. Pretendo, ao longo dos próximos meses, me afastar um pouco das críticas sobre lançamentos para mergulhar mais nesse mundo dos clássicos. Mas é um projeto que depende, em muitos graus, de minhas atividades na UFPE, como professor e como doutorando.

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  5. Tá tranquilo. Não achei que era cobrança, pelo contrário. Você foi tão educado no pedido (nem sempre os leitores se dirigem a mim com essa polidez) que eu me senti na obrigação de responder. E, afinal, você tem toda razão. Eu adoraria poder me dedicar 100% ao site, mas infelizmente a vida não é perfeita. 🙂

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  6. Rodrigo, sem palavras para expressar a minha felicidade por ter tido acesso (após anos) a uma explicação mais concreta dessa obra-prima, desse marco cinematográfico que foi “Blow-up”. Eu assisti a esse filme creio que umas quatro vezes, em diferentes momentos, sempre cobrando de mim um entendimento claro da obra. Porém, eu que me gabava de entender Bergman (dentre outros), nunca tive, até ler a sua crítica, a segurança de que havia entendido a mensagem de Atonioni.
    Você citou Roger Ebert. É curioso, eu estou com um livro dele em minha cabiceira. E a crítica dele, apesar de interessante, näo foi mais clara e profissional do que a sua. Parabéns por esse trabalho intelectual de qualidade! Acabei de descobrir esse seu site, e tenho certeza de que a ele retornarei bastante.
    Muito obrigado, Rodrigo pelo seu texto. “Blow-up” é com certeza um dos melhores filmes que já vi. E essas relíquias cinematográficas merecem sempre nossa atenção, bem como uma imponente e inquestionável nota de 5 estrelas!

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  7. Ví blow-up e sentir um mal estar estético do viver. As Personagens -com características bem singulares- parecem que empurram-me em direção a um muro (in)transponível.

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  8. Muito obrigado, Rodrigo. Sua resenha me fez entender melhor a obra, agora tenho mais capacidade para apreciá-la e aprofundar nos detalhes e compreender outras construções no filme. Você diz no texto que há falta de solução de Blow-up, bem, podemos fazer uma interpretação legal de acordo com a questão da comunicabilidade de Antoninoni. Esta é restaurada no final do filme, por um episódio não real, já que em dos comentários muito foi falado sobre isso, a partida de tênis.

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  9. vi ontem o filme…e que filminho bem chato este.mas e claro que eu vou receber criticas de todos os lados por pensar assim.porque estou falando do famoso cineasta ANTONIONI.e incrivel como as pessoas bajulam certos cineastas,como se estes nao pudessem errar,ou fazer filmes fracos.ontem eu analisei bem o filme,na primeira uma hora de filme,e incrivel mas nada acontece.e nao venham voces me falar que ele filma a imobilidade,que o cinema dele e psicologico e toda esta conversinha mole.assisti outros filmes dele e gostei,inclusive uma com o mastroianni e a jeanne moureau acho que se chama A NOITE.este e otimo mas BLOW UP e bem fraco.queria ver se tivesse sido feito na epoca por um cineasta peruano,colombiano ou qualquer um da america do sul.aposto que voces detestariam o filme e o diretor seria queimado vivo como a joana d’arc.mas como tem a GRIFE do ANTONIONI os criticos aplaudem,formulam mil teorias lindas a respeito do filme.vendo o que o cara escreveu sobre o filme,parece que e um filmaço que vc vai adorar,que e a oitava maravilha do mundo.mas o filme e fraco,chato e o final que fica no ar e falha de roteiro sim senhor.mas como foi o ”genio italiano que filmou” e o cortazar que escreveu e perdoado.e nao me venham com as teorias absurdas que o que vale e o cara se ausentar da vida rotineira e mediocre dele,que o personagem nao e feliz,isso tudo e papo furado de critico que adora endeusar sempre estes diretores europeus.e mais piada ainda e pensar que este FILMINHO ganhou a palma de ouro em CANNES.entendam uma coisa:os grandes tambem errar.e nesta,ANTONIONI errou feio.

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  10. parabens pela critica,ja se tornou um abito eu ver um filme e depois ver a critica aqui no cine reporter.cinema é só diverssão ? entretenimento? um filme com uma linguagem mais dificil e que te faça pensar logo para algumas pessoas é Sinônimo de filme ruim,acho isso triste,opinião é opinião e todos temos que respeitar mas falar que um filme é ruim ou chato simplismente poque não compreendeu,isso é um desrespeito a qualquer amante do cinema !

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  11. Acabei de rever e o filme é realmente nota 10
    Quando saímos de momentos prazerosos e vimos que aquilo realmente acabou, sentimos a mesma sensação que o fotógrafo. A volta a vida que não gostamos de quase nada
    Brilhante!!

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