Réquiem Para Um Sonho

[rating:4]

Um soco no queixo ou uma dose de heroína, você decide. A sensação atordoante que sobra depois de assistir a “Réquiem Para Um Sonho” é mais ou menos essa. O filme, uma produção independente que transformou o cineasta novato Darren Aronofsky numa estrela de Hollywood, ganha fácil o rótulo de um dos mais impactantes libelo anti-drogas já produzido no cinema. E isso, ironicamente, no ano dos entorpecentes em Hollywood — afinal, “Traffic” também chegou às telas em 2000. São dois filmes bem diversos, com a diferença de que a obra de Steven Soderbergh ganhou dois Oscar e foi reconhecida pelo establishment, enquanto “Réquiem”, talvez por causa da força bruta de suas imagens, acabou relegado às salas alternativas.

A solidão de casa, porém, até ajuda a dar o clima necessário para compreender todas as nuanças do trabalho. Para encarar o filme, prepare-se – você pode ir a nocaute. Aronofsky aposta num tom visceral e busca estabelecer uma empatia, sempre carregada de angústia, de uma sensação de estranhamento, com o espectador. Fazer essa ligação a partir da violência das imagens é uma aposta atrevida, mas que funciona muito bem. Quem vê a obra desce ao inferno do vício junto com os quatro protagonistas e termina com a sensação de que tomou uma overdose. “Réquiem Para Um Sonho” não é só um filme, é uma experiência sensorial completa.

Na verdade, é possível estabelecer um paralelo interessante, em termos estilísticos, entre o trabalho de Aronofsky e os filmes de David Fincher, o cineasta de “Clube da Luta”. Os dois fazem críticas à degradação social do homem contemporâneo com base em imagens fortes, sempre buscando atingir o espectador no estômago. Ambos trabalham com carga visual intensa, abusam de truques de metalinguagem (pesadelos, delírios esquizofrênicos) e valorizam muito a montagem – de imagem e sons – no processo de direção. “Réquiem Para Um Sonho” poderia muito bem ser assinado por Tyler Durden, o cruzamento de Mike Tyson com Jean Paul Sartre que protagoniza “Clube da Luta” (isso se Tyler Durden fosse um cineasta, e não um projecionista dedicado a inserir imagens pornográficas em desenhos animados).

A edição de “Réquiem” chama especialmente a atenção. O filme tem mais de duas mil tomadas, quando o normal de um filme de duas horas está na faixa de 600 a 700 cortes. Grande parte deles acontece nos momentos em que os três jovens do filme tomam drogas – a montagem delirante e hiper-acelerada traduz fielmente ao espectador a sensação física da viagem, a falta de chão e o sentido de irrealidade que dominam o drogado. Aronofsky abusa de recursos pouco tradicionais: divide a tela em duas, usa imagens granuladas de transmissões de TV. Tudo isso realça a sensação de incômodo que permeia os 102 minutos. A maravilhosa trilha sonora do Kronos Quartet, executada com violoncelos, enfatiza ainda mais a melancolia. Pura poesia da degradação humana.

O melhor de tudo é que, mesmo com toda essa carga estilística, Aronofsky fez um filme de atores. O quarteto protagonista oferece um conjunto de interpretações impressionante. O enredo gira em torno do garoto Harry Goldfarb (Jared Leto, que perdeu doze quilos para o papel e está também em “Clube da Luta”). Ele anda embarcando fundo na heroína, junto com a namorada Marion Silver (Jennifer Connely, numa atuação espetacular, que inclui até uma cena de sexo bizarro) e o amigo negro Tyrone Love (Marlon Wayans). Enquanto os três se afundam cada vez mais, a dona-de-casa Sara Goldfarb, mãe de Harry, começa a tomar pílulas de emagrecer, para realizar o sonho de ir ao programa favorito de TV num vestido vermelho que não lhe cabe mais. A veterana Ellen Burstyn dá um show à parte como a solitária Sara.

Numa leitura mais profunda, são os vícios, e não apenas as drogas, que Aronofsky quer denunciar. TV, pílulas, dinheiro, tudo pode virar um entorpecente, e as pessoas mais suscetíveis a embarcar nesse inferno são as solitárias. Aqui cabe outro paralelo com “Clube da Luta”: a crítica radical à solidão, ao egoísmo, ao narcisismo desenfreado da vida moderna. Sem rédeas auto-impostas, o cineasta acompanha com coragem a trajetória errática dos quatro e conduz o filme a um final assustador, mas alegórico e comovente. Para refletir e demorar a esquecer.

Em DVD nacional, o espectador vai encontrar o filme com imagens cortadas na lateral (o que é lamentável), o famigerado fullscreen, ou tela cheia. Para compensar, porém, o kit eletrônico de imprensa, com cenas de bastidores e algumas entrevistas curtas com o elenco principal e com o diretor, Darren Aronofsky, vem junto com o filme. Preste atenção aos elogios que a veterana Ellen Burstyn dedica ao novato.

– Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Jared Leto, Jennifer Connelly, Ellen Burstyn, Marlon Wayans
Duração: 102 minutos

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7 comentários em “Réquiem Para Um Sonho

  1. 😆 filme mt bom,alem de ter cenas muito fortes eu adorei!!
    um filme que fik na sua memoria,um filme muito marcante e que mostra ate onde as drogas pode levar uma pessoa!!!

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  2. Eu estou simplesmente entorpecido depois do filme, realmente parece que me bateu a onda e está saindo, pareceu mesmo que estava viajando. Sua critica é simplesmente tudo o que eu pensei desse filme e exatamente o que estou sentindo agora. Não tenho o que comentar, voce falou por mim. Filme perfeito.

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  3. Alterei nada não, Fabrício. Faz anos que não acessava essa página. Aliás, não altero substancialmente nada aqui no site. Muitas vezes releio críticas antigas e acho ruins – algumas vezes pueris, outras ingênuas, muitas truncadas, e até mesmo em alguns casos eu mudei tanto minha visão que nem assinaria mais tamanha atrocidade, hahaha – mas nunca mudo nada relevante, a não ser pra acrescentar informações ou corrigir erros. Parto do princípio de que este site é um documento pessoal que em algum momento de um futuro distante, eu (ou minhas filhas, netos, etc) poderão querer consultar, por curiosidade ou qualquer motivo que seja. Também acho bom que os leitores possam rastrear o amadurecimento e as mudanças de valores pelos quais o crítico (que também é humano, apesar dos pesares) passou. 🙂

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