Roubando Vidas

[rating:2]

Cada vez que um filme sobre assassinos seriais estréia nos cinemas, os amantes de bons filmes policiais são invadidos por um sentimento contraditório: a esperança de ver algo que iguale, em impacto e talento, filmes do naipe de “Seven” e “O Silêncio dos Inocentes”, e a frustração de saber que isso pode nunca acontecer. Analisando por esse ponto de vista, “Roubando Vidas” (Taking Lives, EUA, 2004) é um filme atípico, porque faz o espectador passar por toda uma gama de emoções.

Para começar, o longa-metragem começa bem, muito bem (qualquer película que possua uma canção do U2 e outra do The Clash nos primeiros 30 segundos é capaz de arrancar esperança dos corações mais empedernidos). Um jovem tímido e meio andrógino está fugindo de casa e encontra um sujeito da mesma idade, mas com pinta de ser muito mais calejado. O filme dá até a impressão de um flerte tímido com o homoerotismo, um lance ousado para Hollywood. Mas bastam cinco minutos para que a esperança seja enterrada após o primeiro assassinato, quando entram os créditos.

Todo mundo sabe que a seqüência dos créditos de “Seven” foi feita por um excelente time de designers gráficos, o Imaginary Forces. A cena enfoca a meticulosa preparação do criminoso para um assassinato, em uma corrente de imagens perturbadoras (o homem raspa suas impressões digitais com uma gilete), reforçada pela música urbana e cheia de ruídos de Howard Shore. São imagens impactantes, que casam perfeitamente com a atmosfera sórdida em que o filme irá penetrar, além de estabelecer uma ponte emocional entre o assassino e o policial que irá caçá-lo, mostrado segundos antes como um homem também meticuloso ao extremo.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque “Roubando Vidas” simplesmente copia descaradamente a seqüência dos créditos de “Seven”. Tudo ali é uma cópia: a música, as imagens e até mesmo a fonte utilizada para escrever as palavras na tela (lembram as letras saídas de uma máquina datilográfica). Portanto, se qualquer espectador tiver a mais leve suspeita de que o filme com Angelina Jolie se inspirou em algum outro, vai ter certeza absoluta em poucos minutos. Isso é péssimo para qualquer filme.

Além disso, o personagem da atriz é inverossímil e mal explicado. Illeana é uma agente do FBI que gosta de deitar em túmulos vazios para se inspirar. Ela é chamada para dar apoio em uma investigação no Canadá, envolvendo um possível assassino norte-americano. Na noite em que ela chega ao destino, o criminoso comete um erro e é visto por uma testemunha que, por acaso, é artista plástico e sabe fazer um retrato falado melhor do que qualquer policial. Ele é James Costa (Ethan Hawke), um sujeito bonitão que logo vai fazer os hormônios da policial esquisita entrarem em ebulição.

O filme segue a cartilha de “Seven” tão milimetricamente que a esperança do espectador, substituída pela frustração, vai se transformando em irritação. O decorrer da trama reserva algumas reviravoltas – algo que é tradicional nesse tipo de filme – e sustos, à medida que os investigadores vão apertando o cerco ao criminoso. Ao mesmo tempo, o clima vai esquentando entre a testemunha/suspeito e a policial do FBI. Os dois transam numa cama rodeada de fotografias de cadáveres desmembrados. Maravilha.

Até o filme entrar em seu terço final, ainda se sustenta como uma cópia de segunda categoria de um dos melhores suspenses da década de 1990. Mas eis que o cineasta D.J. Caruso tira uma surpresinha da manga da camisa e transforma o final do longa-metragem em algo inacreditável, surreal e sem a mínima possibilidade de acontecer em um mundo onde existam gravidade, oxigênio e coisas parecidas. Se “Roubando Vidas” fosse um sujeito, e não um filme, era bem capaz de levar umas bordoadas da platéia no final – porque o sentimento que fica no espectador é de pura raiva.

– Roubando Vidas (Taking Lives, EUA, 2004)
Direção: D.J. Caruso
Elenco: Angelina Jolie, Ethan Hawke, Olivier Martinez, Kiefer Sutherland
Duração: 100 minutos

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2 comentários em “Roubando Vidas

  1. De fato, é um filme decepcionante. E só o não é mais porque Angelina Jolie é linda de se ver, e a música (que é de Philip Glass, não de Howard Shore) tem clima. Mas é estranho ver tantos coadjuvantes de talento desperdiçados, e a história acaba ficando inverossímil. Ethan Hawke não está bem, e é outra falha do filme fazer ele sair de Paul Dano, que é um tipo bem diferente (esses erros, eu pensei que só acontecessem no cinema brasileiro, onde, quando um personagem jovem reaparece mais velho, o descompasso é sempre gritante). Em todo caso, a música, o cenário de Montreal e certos momentos têm charme. Mas não bastam pra fazer um bom filme.

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