Suspiria

[rating:3.5]

Extravagante. Se fosse preciso usar apenas uma palavra para descrever “Suspiria” (Itália, 1977), do cineasta Dario Argento, este seria o vocábulo mais adequado. “Suspiria” é um filme tido pelos seguidores do diretor como um dos trabalhos de horror mais assustadores de todos os tempos, menos por seu enredo e mais pelo clima sombrio e opressivo, criado a base de visual estilizado e música minimalista. Já os detratores acham o filme confuso e sem sentido. O excelente DVD duplo, que ganha edição nacional pela pequena Works Editora, confirma que todo mundo está correto.

Todo o trabalho do polêmico cineasta Dario Argento é marcado pela tentativa de transpor, para o gênero do horror, a tradição italiana de trabalhos fortemente estilizados. “Suspiria” talvez seja, entre os filmes de Argento, o que melhor atingiu esse objetivo. Na verdade, Argento está para o horror como Sergio Leone está para o faroeste. Ele retrabalha os ícones do gênero de maneira extremamente visual, plástica, com mais preocupação em construir um clima onírico e delirante do que em contar uma boa história. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo.

A parte positiva de “Suspiria” é exatamente a sensação de pesadelo que o filme passa ao espectador. Argento constrói cada seqüência de maneira cuidadosa, esmerada, inserindo na trama – às vezes aleatoriamente – imagens e situações que estão, no inconsciente coletivo, sempre associadas ao medo (tempestades com raios e trovões, uma garota correndo no meio de uma floresta, personagens deformados ou com defeitos físicos). “Suspiria” é uma verdadeira explosão de cores quentes e fortes. O filme tem fortíssimas tonalidades vermelhas, azuis e verdes em literalmente todas as cenas. O visual barroco é realmente sensacional.

O outro ponto de destaque de “Suspiria” está na música. Argento trabalhou em associação com o grupo progressivo Goblin, compondo as canções antes de filmar. Ele estava seguindo um hábito excêntrico do mestre Sergio Leone, que o introduziu no cinema ao contratá-lo para co-escrever o roteiro de “Era uma Vez no Oeste”. A música do Goblin complementa o clima surreal e violento das imagens com perfeição; é construída com uma mistura de sussurros e sintetizadores. O tema principal simula uma canção infantil de apenas 14 notas que se repetem insistentemente. Soa realmente aterrorizante.

Dario Argento insiste que o objetivo de “Suspiria” era filmar uma história de bruxas filtrada pelos olhos de uma criança assustada. Cores e sons ajudam a atingir esse objetivo com eficiência. O lado ruim dessa escolha, entretanto, é que o enredo fica frouxo, confuso e indefinido. O roteiro tem poucos diálogos e muitos personagens parecem estar no longa-metragem apenas para dar sustos esporádicos no espectador, pois surgem e desaparecem na história sem maiores explicações.

No filme, Suzy Bannion (Jessica Harper) é uma adolescente norte-americana que chega à cidade medieval de Friburgo, na Alemanha, para se matricular em uma famosa escola para bailarinos. O avião pousa em uma noite de tempestade e, ainda no aeroporto, Suzy sente que algo está errado. Ela se torna um elemento importante na investigação que algumas alunas empreendem a respeito de uma lenda que fala sobre a prática de bruxaria dentro da escola. Enquanto isso, um misterioso e cruel assassino age na cidade.

Os crimes cometidos por esse assassino são mostrados por Argento com riqueza de detalhes (os assassinatos podem ser muito repulsivos para pessoas de estômago sensível). Não é à toa que o italiano logo se tornou influência essencial no trabalho de diretores norte-americanos de filmes B, como John Carpenter e George Romero. Ocorre que o cineasta, de tão preocupado com a unidade visual de “Suspiria”, esquece de desenvolver um roteiro coerente. Se não fosse isso, o filme seria mesmo uma obra-prima.

O lançamento brasileiro de “Suspiria” é digno de nota. O DVD tem dois discos e foi baseado na edição de colecionador feita nos EUA pela empresa Anchor Bay. O primeiro traz o filme, em três diferentes opções de corte (o original widescreen, Pan & Scan e Letterbox). A cópia restaurada é espetacular e valoriza o trabalho fantástico de saturação de cores feito pelo diretor de fotografia Luciano Tovoli.

O áudio é um caso a parte. Há uma trilha sonora em DTS 6.1, em inglês, com uma mixagem sonora vibrante e em volume muito alto, que explora todos os recursos dos seis canais de um home theater. O disco 1 ainda traz a trilha original em italiano, no formato Dolby Digital 2.0, dois trailers, um spot de TV e outro de rádio.

O disco 2 complementa o primeiro com um segundo filme: o documentário “O Mundo de Terror de Dario Argento”, de 57 minutos. O trabalho, feito pelo diretor Leon Ferguson em 2000, biografa o italiano com riqueza de detalhes. Inclui, além de cenas de bastidores de inúmeros filmes de Argento, depoimentos de gente como Carpenter e Romero, de vários atores que trabalharam com o cineasta e até dos roqueiros Alice Cooper e Keith Emerson, que se revelam fãs. Tudo com legendas em português.

A nota curiosa do lançamento é que, nos EUA, “Suspiria” foi lançado com um documentário diferente no disco 2, enfocando apenas a produção do filme. O filme de Ferguson pode ser encontrado à venda em DVD separado, na Região 1. Isso faz de “Suspiria” um lançamento nacional inteiramente exclusivo. A Works Editora merece os parabéns pela iniciativa.

– Suspiria (Itália, 1977)
Direção: Dario Argento
Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Joan Bennett
Duração: 98 minutos

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9 comentários em “Suspiria

  1. Uma das minhas maiores dúvidas em relação aos filmes do Dario Argento (e, por extensão, aos filmes de horror italianos em geral) é saber qual é, afinal, a trilha sonora “original” dos filmes. A lógica comum diria que deveria ser o áudio italiano, mas em Suspiria, por exemplo, fica claro que o áudio italiano é dublado. Os movimentos labiais não combinam de forma alguma com o áudio italiano, porém combinam perfeitamente com o áudio em inglês. Ou seja, o atores, pelo visto, atuaram em inglês durante as filmagens.
    Se é assim, qual é o áudio “original”? Inglês ou italiano?

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  2. Rodrigo, com mais de um ano de atraso, te respondo essa dúvida: os filmes italianos populares das décadas de 1960 e 1970 não tinham uma única trilha sonora original. Tinham quatro: italiano, inglês, francês e alemão. Digo isso com segurança porque estudo o tema na minha tese de doutorado. O cinema popular italiano não trabalhava com som direto, de forma que todos os sons (diálogos, música e ruídos) eram construídos em estúdio. E esses filmes eram finalizados simultaneamente nas quatro línguas.

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  3. Alexandre, lamento muito saber disso. Há uns quatro anos, comprei diversas edições duplas de “Suspiria” (creio que quatro) numa loja do Recife chamada Aky Video, e que ainda hoje existe. Os DVDs eram vendidos a R$ 9,00. Comprei para presentear amigos e conhecidos, e fiquei com uma. Mas creio que de lá para cá a Works deve ter falido e ocasionado esse problema. Fica a dica.

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  4. Ótimo review sobre o filme, você realmente escreve muito bem!
    Suspiria é realmente um filme que tenho muita vontade de ver, ainda mais agora depois de ler seu texto.
    Sou um cara que adora um bom filme de terror ainda mais os antigos, sou da opinião que os filmes de terror de hoje perderam o mão…
    Mais uma vez parabens pelo texto!
    E prometo que vou ver Suspiria!

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  5. Review muito bom mesmo!

    Aparentemente, a mixagem do filme em inglês é a mais difundida, e foi originalmente feita na época para um sistema de som quadrifônico. Infelizmente, como esse lançamento é baseado no DVD da Anchor Bay, essa trilha de áudio original não está presente, já que a empresa preferiu remixar o áudio para 5.1. O resultado desse processo recebeu várias críticas; a mixagem original tinha a música e os efeitos sonoros quase no mesmo volume , e muito alto, coisa que acabou se perdendo na remixagem da Anchor Bay, que também omitiu vários efeitos sonoros e vozes – o maior exemplo disso fica nos créditos finais, onde agora toca apenas a música, quando originalmente vários gritos agonizantes podiam ser ouvidos.

    Eu assisti o filme com o som “original”, e realmente é muito assustador. Quando ouvi essa trilha 5.1, percebi porque reclamaram tanto. O trabalho sonoro desse filme é um dos mais geniais feitos, e a remixagem que fizeram acabava com toda a imersão que o filme trazia.

    Se não me engano, no ano passado remasterizaram o filme novamente e lançaram, dessa vez com essa trilha de som original. Só que o problema dessa restauração agora está no vídeo; dessa vez, saturaram as cores em excesso, erros do software de redução de ruído, etc etc. Ou seja, nunca conseguiram até hoje trazer o filme para DVD/Blu-Ray da forma que ele merece

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  6. Boas informações do Rafael.

    Pessoalmente acho a mixagem desta edição muito eficiente. Não sei exatamente em que condições Argento trabalhou o som deste filme, mas estudei bastante a indústria popular italiana e sei que eles tinham inúmeras limitações de tempo e dinheiro na pós-produção, particularmente na parte de efeitos sonoros. É por isso que usavam música em volume muito alto. Considerando o crescimento da importância do trabalho com ruídos, que cresceu a partir da instituição generalizada do Dolby Digital (ou seja, de 1992 em diante), acho que talvez esta seja a razão para a remixagem da Anchor Bay.

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  7. Oi Rodrigo.

    Descobri o cinema de Dario Argento em 2009. Ja tinha ouvido falar, sabia que era cultuado, mas tinha dificuldade de encontrar os títulos. Foi quando comprei “O Pássaro das Plumas de Cristal”, enfim… Consegui comprar “Suspiria” dia desses depois de assistir Deep Red. E adorar, obviamente. Gosto muito do trabalho desse diretor. Acho que se alguém consegue imprimir arte no gênero de terror, foi Argento. E gostaria, também, Rodrigo de parabenizar seu trabalho. Seu blog é um nicho raro, onde esse tipo de obra é comentada por quem relamente gosta de cinema. Por exemplo, a dúvida do colega aí em cima era a minha… Agora já não a tenho mais. Forte abraço.

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