Harry e Sally

[rating:4.5]

Uma das demonstrações mais fortes do poder que um filme tem influir no imaginário coletivo é o efeito que ele pode ter na carreira dos atores. Os longas-metragens mais marcantes podem ser, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Se bem interpretados, os grandes personagens freqüentemente amarram seus intérpretes em verdadeiras camisas-de-força, e eles são obrigados a passar o resto de suas carreiras repetindo variações do mesmo tipo em dezenas de filmes idênticos. Isso aconteceu, por exemplo, com Meg Ryan, depois que ela fez a protagonista feminina da comédia romântica “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro” (When Harry Met Sally, EUA, 1989).

Sally (Ryan) é uma garota meiga, doce, educada – certinha demais – que acaba de terminar a faculdade, em Chicago. Ela deseja se muda para Nova York e pega uma carona para atravessar o país de carro com Harry Burns (Billy Crystal). Harry é o contrário dela: grosseiro, machista e sem papas na língua. Não é preciso mais do que alguns minutos para que os dois se estranhem. Fim da viagem, fim de papo. Eles não sabem, mas esse é apenas o primeiro de vários encontros fortuitos que os dois vão manter, mesmo sem querer, nos anos seguintes. Harry e Sally não podem prever isso no primeiro encontro, mas vão se tornar amigos. Eventualmente, até mais do que isso.

O filme é um adorável exemplo de película no estilo “guerra dos sexos”; engraçado na medida certa, dramático quando convém, inteligente e, acima de tudo, conectado com seu tempo. Não é segredo para ninguém que as comédias românticas são, desde os idos de 1920, um dos estilos hollywoodianos por excelência, mas em 1989 elas andavam cheirando a naftalina, repetindo a mesma fórmula de maneira cansativa e sem graça. “Harry e Sally” atualizou o gênero, abordou com desenvoltura um tema tabu para a época – sexo casual, ou amizade colorida, como se dizia em 1980 – e estabeleceu um novo padrão a ser perseguido por todas as obras do mesmo filão que viriam nos anos a seguir.

O filme permanece até hoje como um grande marco nas carreiras de todos os envolvidos. A roteirista Nora Ephron refinou à exaustão o estilo “homens-brigam-com-mulheres-e-se-apaixonam-com-a-bela-Nova-York-como-cenário” em filmes bem parecidos mais inferiores, como “Sintonia de Amor” e “Mens@gem Para Você”. O diretor Rob Reiner fez incursões em outros estilos sem jamais repetir o sucesso. Billy Crystal tornou-se um astro e assumiu sem culpas a persona do sujeito falastrão que faz piada de tudo e todos. Sobre Meg Ryan, basta dizer que ela repetiu basicamente o mesmo papel durante mais de 10 anos e só em 2003 tentou sair da camisa-de-força, ao fazer o policial “Em Carne Viva”.

Ryan não vai precisar se envergonhar de cenas clássicas, como a conversa sobre orgasmo que mantém com Billy Crystal numa lanchonete novaiorquina. Os dois discutem se as mulheres conseguem fingir um orgasmo tão bem a ponto de enganar um homem; ele afirma que não. Os dois apostam. Sally quer ganhar a disputa, então simula uma relação sexual com gritos e gemidos. Faz isso tão bem que, no final da performance, uma velhinha se vira para o garçom e solta a pérola: “Eu quero comer o mesmo que ela”. Só por essa seqüência, que merece entrar em qualquer antologia das grandes piadas do cinema contemporâneo, o filme já vale quatro estrelas.

O DVD nacional de “Harry e Sally” possui som original em Dolby Digital 5.1 e imagem no corte original, em widescreen. O espectador ganha como brinde sete cenas excluídas da edição final e o trailer da produção, além de um comentário em áudio (sem legendas) do diretor. O melhor de tudo mesmo é o documentário que relembra os bastidores (33 minutos), com extensas entrevistas de todos os envolvidos. Nele, você descobre que a velhinha autora da frase impagável do filme é ninguém menos que a mãe de Rob Reiner. Pois é, ele já sabia que estava criando um momento antológico e quis colocar a família nele. Alguém o recriminaria por isso?

– Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally, EUA, 1989)
Direção: Rob Reiner
Elenco: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fischer, Bruno Kirby
Duração: 110 minutos

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2 comentários em “Harry e Sally

  1. Belíssimo texto! E realmente, se os personagens forem tão marcantes acabam por ‘condenar’ os atores a fezar papéis semelhantes ou ter de responder sobre o filme por décadas.
    Meg Ryan realmente fugiu mais do cenário da comédia romântica com o filme “Em carne viva” e tb em ‘Prova de Fogo” (que não é lá essas coisas). [Além de ‘Linhas Cruzadas’] Mas ela sempre será mais lembrada pela cena antológica em Harry & Sally e tb pela atuação em Cidade dos Anjos.
    Não sabia que a mãe do Rob Reiner é a velhinha do “Eu quero comer o mesmo que ela”. hahaha

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