Crepúsculo dos Deuses

[rating:5]

Mágica. A palavra é a melhor descrição possível para o clássico “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, EUA, 1950). A estória da lendária estrela do cinema mudo que perdeu o bonde da história continua a ser o retrato mais ousado e sarcástico da vida das celebridades em Hollywood. Mas o filme vai muito além disso; é um drama sobre a ambição humana como poucos cineastas foram capazes de produzir. Cada plano, ator, diálogo, roupa, cenário ou locação se encaixa no filme como um Lego recém-comprado. Um filme não pode ser mais perfeito do que essa obra-prima.

Curiosamente, “Crepúsculo dos Deuses” raramente é citado pelos especialistas como um dos grandes filmes do mestre austríaco Billy Wilder. Em parte, isso acontece devido ao grande número de clássicos que Wilder dirigiu – ele foi responsável, por exemplo, pelas comédias “Quanto Mais Quente Melhor” e “O Pecado Mora ao Lado”, que eternizaram a imagem do mito Marilyn Monroe, e pelo noir “Pacto de Sangue”, um dos melhores filmes policiais já produzidos.

Mesmo assim, talvez seja “Crepúsculo dos Deuses” o filme mais perfeito do legado extraordinário de Wilder. Como sempre acontece nas grandes obras de arte, o cineasta mirou em um alvo relativamente pequeno – a vida excêntrica e desconectada da realidade vivida pelas estrelas do cinema – e acertou em outros, muito maiores. “Crepúsculo dos Deuses” reflete sobre ambição, cobiça e o preço da alma, ou da dignidade, de um homem. Estou falando de uma espécie de “Fausto” do século XX.

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista em apuros financeiros. Prestes a ver confiscado o carro novo e sem conseguir um trabalho decente, ele aceita reescrever um roteiro da estrela de cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson). O relacionamento dos dois é cheio de sobressaltos e difícil; Gillis compreende rapidamente que a mulher vive numa espécie de mundo de fantasia.

Norma mora numa enorme e decadente mansão na Sunset Boulevard, uma avenida chique de Hollywood que empresta o nome ao filme. Tem um macaco de estimação que morre de velhice e ganha um enterro de gala no jardim, um automóvel caríssimo da década de 1920 e um mordomo estranho e um tanto mórbido, Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim). São personagens fascinantes, cheios de nuanças e dimensões. O filme se dedica a examinar, de modo realista e até mesmo cruel, a maneira como Joe Gillis entrega a própria dignidade em troca de uma vida confortável e preguiçosa.

Essa narrativa é construída de uma maneira tão sólida que o filme passa como um piscar de olhos. Gillis vai se tornando um canalha, mas não percebe isso – e a própria platéia ficaria sem perceber, se o drama interior do personagem não possuísse uma ressonância tão forte na excêntrica e teatral Norma (“Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos”, afirma a atriz, num dos momentos mais memoráveis do filme) e nos dois coadjuvantes.

Aliás, são essas as duas pessoas que transformam o filme no granda trabalho que é. Max, o mordomo que escreve e põe no Correio as cartas em nome dos fãs para a patroa, e Betty Schaeffer (Nancy Olson), a jovem roteirista que trabalha com Joe num projeto paralelo, dão a verdadeira dimensão da situação dramática narrada pelo longa-metragem. As tentativas pouco convincentes de Gillis para se livrar da crescente influência de Norma e as patéticas cenas de sedução que esta arma para o escritor bonitão ganham significados extras e profundidade quando contrapostos com as vidas pessoais dos dois coadjuvantes.

Os quatro atores compõem, talvez, um dos elencos mais brilhantes e perfeitos que Wilder dirigiu. É impressionante saber que Swanson foi apenas a quarta atriz que o diretor tentou contratar, e que Holden também só pegou o papel depois de três outras recusas. Já Erich Von Stroheim, diretor de grandes filmes mudos, oferece um incrível bônus para o filme, pois parece interpretar uma versão exagerada de si mesmo. Anos depois do filme, Billy Wilder disse que o cineasta ajudou a compor o personagem (foi dele a idéia fantástica de que Norma e Max já teriam sido marido e mulher).

Também é impressionante saber que o filme foi um dos poucos, na obra de Wilder, a sofrer alterações significativas depois de pronto. A abertura original da película era uma cena no necrotério de Los Angeles, em que seis cadáveres relatavam, uns aos outros, as maneiras como haviam morrido; em certo momento, Joe Gillis começava a narrar a própria morte, e daí o filme. Em exibições-teste, contudo, as platéias reagiram a essa abertura com risadas, e Billy Wilder voltou aos sets para filmar a antológica seqüência do corpo de Joe Gillis boiando na piscina, com a ajuda de um complicado sistema submerso de espelhos. Tudo isso faz do filme uma jóia do cinema norte-americano, uma das grandes obras de todos os tempos.

No Brasil, o DVD de “Crepúsculo dos Deuses” oferece alguns bônus que o transformam em item obrigatório numa coleção. Há um documentário de bastidores (25 minutos), outro sobre a figurinista Edith Head, um extra interativo que mostra as locações reais em que o filme foi feito, cenas da abertura original e até um comentário em áudio do estudioso Ed Sukov, especialista na obra de Billy Wilder. Além disso, a imagem restaurada e o áudio original em Dolby Digital 2.0 estão maravilhosos. Não perca.

– Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, EUA, 1950)
Direção: Billy Wilder
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich Von Stroheim, Nancy Olson
Duração: 110 minutos

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3 comentários em “Crepúsculo dos Deuses

  1. Revi ontem no canal Telecine. O filme realmente é maravilhoso. O roteiro tem muitas camadas e, como você bem colocou, o filme passa bem rápido, é muito dinâmico e interessante. Adorei.
    Espero que um dia você volte a publicar críticas neste site. As suas críticas são formidáveis e, até hoje, sempre as procuro após ver um filme que eu sei que consta no banco de dados.
    Um grande abraço!

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