A Magia do Cinema

A crítica de cinema é uma atividade contraditória e pouco valorizada, especialmente no Brasil. Tem muita gente por aí que odeia críticos e só os lê para saber a que filmes NÃO deve assistir. Há até quem acredite que analisar uma obra de arte não é fazer Jornalismo; no máximo, seria Jornalismo de segunda categoria. Afinal, ficar trancado dentro de uma sala escura, sem entrevistar ninguém, seria praticar Jornalismo? Para essa turma, uma leitura atenta de “A Magia do Cinema”, do crítico norte-americano Roger Ebert, poderia ser obrigatória. Ou melhor, DEVERIA ser uma obrigação.

Ebert é o nome mais conhecido da profissão atualmente, talvez por ter sido o primeiro crítico de cinema a ganhar o prêmio Pulitzer, a mais famosa e respeitada láurea jornalística do planeta (isso aconteceu em 1975; somente em 2003 outro crítico de cinema viria a faturar o prêmio). “A Magia do Cinema” reúne os textos que Ebert escreveu sobre aqueles que ele considera os 100 melhores filmes da história do cinema. Trata-se, é claro, de uma seleção pessoal e subjetiva dos melhores entre os textos que Ebert publica, a cada quinze dias, numa série de longas reportagens analíticas sobre filmes inesquecíveis, no jornal Chicago Sun Times.

A fama faz jus ao homem. O texto de Roger Ebert corre como água. É acessível, simples e, ao mesmo tempo, profundo. Ele disseca os filmes, ora no aspecto técnico, ora do ponto de vista temático, sem jamais esquecer de explicar o contexto social e cultural da época em que a obra foi produzida. E o melhor é que, com sua linguagem didática, de substantivos e longos trechos descritivos, Ebert se coloca sempre na posição do espectador. Ele não é um juiz que vê o filme (e por conseqüência o público) de cima para baixo, com olhar superior; prefere ficar junto da platéia, ao lado da obra.

Tome, por exemplo, a emocionante crítica de “E.T. – O Extraterrestre”, escrita em forma de uma carta para os dois netos, de 4 e 7 anos. No texto, Ebert descreve uma sessão feita ao lado das crianças e comenta as observações da dupla durante a exibição. Ou pegue o detalhado artigo sobre “Cidadão Kane”, o filme mais analisado de todos os tempos, em que Ebert enumera e exemplifica cada uma das inovações técnicas e/ou narrativas do filme de Orson Welles. São dois exemplos de textos que amplificam o poder do filme e exalam uma paixão evidente pela Sétima Arte. Roger Ebert tem o dom de provocar reflexões que complementam os filmes.

Cinéfilos interessados em ter uma aula reforçada sobre história de cinema vão encontrar, nesse livro, um valioso manual de consulta, para ler com deleite. Quem já é estudioso de longa data de filmes históricos vai relembrar cenas inesquecíveis e aprender detalhes novos. Ebert escreve com a espontaneidade de quem conversa com um amigo. Essa é uma característica que só os grandes jornalistas possuem.

Pode-se questionar a lista de Roger Ebert. Ele inclui tanto filmes óbvios (“Cidadão Kane”, “O Encouraçado Potemkim”, “Psicose”) quanto sucessos contemporâneos (“Um Sonho de Liberdade”, “E.T.”), passando por exemplares do underground eruropeu (“O Anjo Exterminador”) e indo até documentários quase desconhecidos (“Portais do Céu”, sobre um cemitério de cães).

Mas a lista pouco importa, na verdade; é a qualidade deliciosa do texto que convida o leitor a desfrutar de cada filme como se fosse um bom vinho. Roger Ebert poderia escrever sobre a refilmagem de “O Massacre da Serra Elétrica” (algo que ele de fato faz, pois escreve diariamente no Chicago Sun Times) e o texto ainda seria uma aula de cinema. É isso: uma aula de cinema. Aproveite.

– A Magia do Cinema (Roger Ebert)
Ediouro, 558 páginas

Anúncios

3 comentários em “A Magia do Cinema

  1. João, essa pergunta me obrigou a pesquisar um bocado pra poder responder. Ele ganhou o Pulitzer especial na categoria Crítica em 1975. Foi o primeiro crítico de cinema a vencer esse prêmio. Só em 2003 outro crítico de cinema venceu o prêmio. Ele foi atribuído oficialmente ao seu trabalho como crítico durante o ano de 1974.

    Curtir

  2. Interessante saber disso. Vou fazer uma busca pelos filmes de 1974 para saber sobre quais obras ele escreveu. Possivelmente, dentre eles devem estar o textos sobre GODFATHER II e SERPICO (mesmo este sendo de 1973). Esses textos devem ser verdadeira pepitas. Segundo esse link do Observatório (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/mo160420039.htm), Stephen Hunter foi o ganhador de 2003. Nunca lí nada escrito por ele. Mas vale uma busca.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s