Exorcista, O

[rating:5]

Os filmes de terror nunca mais foram os mesmos depois de 1973. Naquele ano, uma obra do diretor William Friedkin, vencedor das principais categorias do Oscar no ano anterior (Direção e Filme, com “Operação França”), deixou milhares de espectadores aterrorizados nas cadeiras. Alguns desmaiavam, outros tinham ataques histéricos. O caráter revolucionário e o ambiente de tensão de “O Exorcista” (The Exorcist, EUA) modificaram para sempre as produções baratas e pouco verossímeis que caracterizavam o gênero.

A obra de William Friedkin merece um parágrafo especial pela criatividade incomum com que foi produzida. Numa época em que efeitos gerados por computador não passavam de sonho, o diretor foi responsável pela criação de novas técnicas de maquiagem e efeitos sonoros. Além disso, bateu o pé com firmeza e escalou o sueco Max Von Sydow e o dramaturgo americano Jason Miller nos papéis dos padres exorcistas, contra a vontade da Warner, que queria atores mais conhecidos (Sydow era egresso do cinema psicológico de Ingmar Bergman, enquanto Jason nunca tinha atuado na vida).

O filme permanece como clássico perene do cinema de terror, capaz de fazer muito marmanjo querer dormir de luz acesa. Culpa de um roteiro brilhante, que narra a processo de possessão da menina Regan MacNeil (Linda Blair) sem pressa, retardando a aparição do demônio e realçando o suspense em torno do que vai acontecer. Além disso, a atuação de Ellen Burstyn como a mãe da garota é simplesmente espetacular, retratando todas as nuanças de uma mãe que vê a flha consumida por uma “doença” que não consegue explicar. O corte original do filme, sem os efeitos digitais e com onze minutos a menos, parece funcionar melhor. É uma obra-prima do terror no cinema.

A nova versão de “O Exorcista” chegou aos cinemas tendo como carro-chefe uma seqüência legendária, conhecida como “a cena da menina-aranha”, em que a garota Regan McNeil, possuída pelo demônio, desce as escadas como se estivesse andando em quatro patas, de costas, e ataca a secretária da mãe. A verdade é que a seqüência tem poucos segundos e não causa impacto algum. Aos que pensam que a nova versão não vale a pena, entretanto, um aviso: William Friedkin tratou de sua obra-prima com carinho insuspeito.

O grande trunfo do cineasta, que pode passar desapercebido aos mais desatentos, foi a possibilidade aberta pela tecnologia de mixagem sonora digital. Friedkin pôde aumentar o volume sonoro nos momentos de maior impacto. A maior alteração, porém, veio com a possibilidade de usar seis canais de áudio para caprichar nos ruídos sobrenaturais que antecedem as possessões mais violentas da garota. A nova mixagem acentua o silêncio, faz os sussurros demoníacos saltarem de todos os lugares da sala e metem medo de verdade. O som é certamente o maior achado do novo DVD de “O Exorcista”.

Não fosse por ele, daria para dizer que o disco que a Warner lança agora no Brasil é um produto inútil. Porque os retoques digitais que o diretor deu nas imagens são inócuos, apesar de inteligentes (veja o filme com atenção e observe como sombras de objetos, como extintores de incêndio e portas, transformam-se em silhuetas de demônios). Os onze minutos a mais corrigem erros de continuidade e ajudam o espectador a pegar mais detalhes, mas não acrescentam muita coisa aos sustos originais.

Quanto à tal seqüência-chave, esqueça o ineditismo. As imagens da menina-aranha já eram conhecidas por todos os que assistiram ao documentário “O Medo de Deus: o Making of de O Exorcista”, feito pela BBC e presente na primeira versão do filme em DVD nacional. O programa, por sinal, é um dos melhores já produzidos no gênero e está recheado de entrevistas e depoimentos interessantes dos atores e da equipe técnica, além de ter várias das cenas inéditas que entraram na nova montagem, testes de maquiagem e cenas de bastidores. O documentário, inexplicavelmente, foi limado do novo disco, que tem um comentário em áudio (sem legendas) de Friedkin. Trata-se, portanto, de dois produtos bem diferentes.

– O Exorcista (The Exorcist, EUA, 1973)
Direção: William Friedkin
Elenco: Max Von Sydow, Linda Blair, Ellen Burstyn, Jason Miller
Duração: 122 minutos (versão original), 133 minutos (nova versão)

12 comentários em “Exorcista, O

  1. O DVD de O Exorcisa – edição de 25 anos é excelente!
    Trazendo o filme original e extras à altura! Infelismente está fora de
    catálogo, já a versão com 11 minutos adicionais é muito inferior ao
    filme original, o final mais otimista foi considerado por muitos um
    equívoco, que retirou a essência do encerramento da versão original
    e eu concordo com esta afirmação, sem contar que as outras cenas
    incluídas também são completamente inúteis.
    Os novos efeitos sobrepostos na imagem soam falsos demais.
    Assistindo essa nova versão, percebo porque estes 11 minutos
    foram eliminados do corte original. A obra original ainda permanece
    clássico absoluto irretocável, pena que o diretor não percebeu isso.
    Embora eu acredite que essa nova versão seja fruto de William Peter
    Blatty e não de William Friedkin.

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  2. oK Rodrigo, eu só me referi a William Peter Blatty como responsável por essa nova edição porque no documentário “O Medo de Deus”, o diretor William Friedkin deixa claro os motivos que o levaram a excluir cada cena no filme original. Em uma conversa entre Friedkin e Blatty, percebe-se que o desejo de ver um final mais otimista era de Blatty e não de Friedkin, este final mais otimista foi incluído nessa nova versão. A cena da aranha parecia não funcionar no filme, e acho mesmo que ainda não funciona, o próprio Blatty reconheceu que o erro estava no livro e deveria ter escrito diferente, mas gostaria da cena no filme. Sendo assim, acredito que essa nova edição agrada mais a Blatty. Friedkin ainda deve preferir o filme original, que permanece mesmo superior.

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  3. Pois é Rodrigo, eu ainda não vi essa introdução. De qualquer forma Friedkin deve ter se divertido ao reeditar sua obra, como você mesmo destacou, o som dessa nova versão por exemplo, merece destaque. E não deixa de ser uma estratégia de marketing, relançar um clássico nos cinemas com cenas adicionais que com certeza, são suficientes pra levar muita gente aos cinemas, uma estratégia lucrativa.

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  4. William Friedkin está de parabéns!!!! O Exorcista Edição Especial de 25 Anos é excelente!O filme da edição original é perfeito, com a introdução do diretor falando sobre a expectativa que o filme tras em quem o assiste e fala também sobre o roteiro!!! O documentário “O Medo de Deus” conta com apresentações magnificas do elenco, num making of divino com entrevistas, criticas, comentarios e sugestões dos atores!!!!Pena que essa versão não existe mais está fora de catalogo apenas existe importado de outro país, eu comprei essa versão no ano de 1999 queando eu nem tinha leitor de dvd!!!Hoje jamis tr

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