Traffic

[rating:4]

O roteiro tinha nada menos do que 110 personagens com diálogos e nenhum protagonista. Tudo bem: os grandes estúdios, vez por outra, costumam ser bem sucedidos em filmes fragmentados, como o ótimo policial “Os Suspeitos”, de Bryan Singer. Só que o problema aqui era bem maior. O projeto de “Traffic” (EUA, 2000) parecia uma idéia megalômana do diretor Steven Soderbergh, que há anos não acertava a mão. Claro que a resposta dos estúdios era não. Mas isso estava fadado a mudar.

No começo de 2000, Soderbergh brilhou com “Erin Brockovich” e a produtora USA Filmes fez a proposta: ele poderia fazer o tal filme, desde que conseguisse o aval de algum astro cujo nome no cartaz fosse garantia de público. O diretor procurou Michael Douglas, que leu o roteiro e não gostou muito – ele recusou, mas a mulher, Catherine Zeta-Jones, pediu um papel e foi atendida. O interesse de Harrison Ford, porém, deu o sinal verde que o filme precisava. Só que o velho Indiana Jones pulou fora antes de as filmagens começarem, e àquela altura Douglas já notara que o papel crescera em importância. Ele voltou atrás, disse sim e Soderbergh conseguiu fazer seu filme.

Ainda bem. Apesar do tráfico de drogas e dos problemas sociais que dele decorrem já terem dado assunto para muitos filmes, “Traffic” consegue driblar a grande ambição do diretor e, com roteiro e direção afiados, monta o mais complexo painel sobre o universo da droga já produzido no mundo do cinema. Além da resposta positiva do público e das ótimas críticas recebidas, “Traffic” foi muito bem sucedido na festa do Oscar de 2001, dando o prêmio do Melhor Diretor a Soderbergh e o de Ator Coadjuvante para o portorriquenho Benicio Del Toro, além de faturar outras duas estatuetas (Montagem e Roteiro Adaptado).

Tudo isso foi merecido. “Traffic” entrelaça com maestria três estórias paralelas que têm em comum o universo das drogas. Na primeira, o policial mexicano Javier Rodriguez Rodriguez (Del Toro) descobre detalhes estranhos na perseguição alucinada que o general Salazar (Tomás Millian) faz aos narcotraficantes. A vinte quilômetros dali, em San Diego (EUA), a prisão do traficante Carlos Ayala (Steven Bauer) obriga a mulher dele, Helena (Catherine Zeta-Jones), a se virar sem o marido, enquanto dois agentes federais (Don Cheadle e Luiz Gusman) tentam proteger um pequeno traficante (Miguel Ferrer) que pode pôr Ayala na cadeia para sempre. Enquanto isso, em Washington, o juiz Robert Wakefield (Douglas) se prepara para assumir o posto de chefe contra o tráfico nos EUA, ao mesmo tempo em que descobre que a filha adolescente, Caroline (Erika Christensen) está viciada em crack.

Em torno dessas três estórias, o espectador vai encontrar um verdadeiro caleidoscópio sobre o problema das drogas e suas implicações. Da dificuldade governamental em combater o tráfico às relações desiguais e violentas entre pequenos e grandes traficantes, do drama da família de um viciado à dúvida ética dos policiais que ganham mal para combater milionários corruptos, tudo isso está no filme. A obra tem um terço dos diálogos falado em espanhol e mais de 90% das imagens gravadas pelo próprio diretor (que fez também a direção de fotografia, sob o pseudônimo de Peter Andrews) com câmeras manuais. Soderbergh ainda ousou na utilização dos filtros de luz: para sublinhar a divisão das três estórias, ele preferiu usar um tom amarelo escaldante para as cenas em Tijuana, um azul gelado para as seqüências em Washington e uma gama de cores vivas e fortes durante as cenas em San Diego. Traffic é ousado, ambicioso e brilhante.
O lançamento em DVD é duplo, sendo que o disco extra vem acrescido de meia hora de cenas cortadas com legendas em português, além de entrevistas com grande parte do elenco e com o diretor. São imagens distribuídas à imprensa, em geral com pequenos trechos de entrevistas em que os atores comentam uns sobre os outros, sobre cenas ou sobre o cineasta. A má notícia é que as imagens do filme estão em fullscreen, ou seja, cortadas na lateral.

– Traffic (EUA, 2000)
Direção: Steven Soderbergh
Eenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Don Cheadle, Luiz Guzman
Duração: 147 minutos

3 comentários em “Traffic

  1. gostei muito da seriedade do filme.
    é real e muito bem realizado.
    as cenas em tijuana são surreais – como a situação das pessoas “protegidas” por bandidos.
    a fotografia me fez prestar a atenção e admirar o esmero a serviço das intenções do diretor de mostrar sem pieguismos um angulo apenas suspeitado do crime de trafico.

    Curtir

  2. Não conhecia sobre “Traffic”, estava procurando por indicação de um livro, até que encontrei seus comentários que são muito bons!Me despertou muita curiosidade em conhecer o filme!Vou twitá-lo.

    Ainda mais se tratando de um elenco reforçado destes então…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s