Operação França

[rating:4.5]

Há enigmas no mundo cinematográfico que poucos conseguem compreender. A derrota do megaclássico “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, na categoria principal do Oscar de 1972, poderia ser um deles. Poderia, mas não é. O grande vencedor daquele ano foi um policial que redefiniria completamente o gênero nas três décadas seguintes. “Operação França” (French Connection, EUA, 1971), primeira obra-prima do cineasta William Friedkin e detentor de cinco estatuetas douradas, está disponível no Brasil em uma edição dupla, em DVD.

A obra de Friedkin é um filme de ação com A maiúsculo, e pode ser considerado um dos primeiros longas-metragens a emular conscientemente o estilo documental, com câmera na mão e muito improviso, que se tornaria coqueluche duas décadas depois . Baseado num caso real ocorrido em 1962, o roteiro ficcionaliza o famoso caso investigado por uma dupla de policiais novaiorquinos. Certa noite, eles toparam, numa boate, com uma festa de barões distribuidores de droga na Big Apple. A visão insólita detonou uma investigação obsessiva que, na vida real, levou à maior apreensão de heroína da história dos EUA. O enredo retrata fielmente a personalidade dos envolvidos e acrescenta alguns detalhes fictícios – como os nomes dos tiras, Popeye Doyle (Gene Hackman) e Buddy Russo (Roy Scheider) – à história verdadeira.

Se o caso é relativamente simples, o grande trunfo do filme está na direção hiperrealista do então novato William Friedkin. Apostando num estilo quase documental, ele mandou os atores acompanharem por um mês, nas ruas de Nova Iorque, os policiais que inspiraram a obra. Além disso, ainda decidiu que não haveria marcações de cena – ou seja, os cinegrafistas empunharam as câmeras manualmente e foram seguindo os atores ao acaso.

No roteiro, nada de situações inverossímeis. Não há super-tiras, apenas seres humanos cheios de problemas. O cineasta, que faria “O Exorcista” no ano seguinte, centra o foco especialmente no personagem de Gene Hackman, um sujeito violento, impetuoso, com um lado sadomasoquista. Se isso o impele a exercer o papel de detetive 24 horas por dia, por outro lado o faz ultrapassar os limites da ética com alguma freqüência. A dinâmica do personagem dele com o parceiro (Roy Scheider) é simplesmente impecável, cheia de nuances exploradas ao máximo pelos dois grandes atores. E o final, ambíguo e sujestivo, explora os desvios éticos da dupla para fechar o filme magistralmente.

Ao lado disso tudo, somos brindados com dois momentos antológicos do cinema de ação. No primeiro, quatro detetives se revezam seguindo dois suspeitos, numa longa seqüência de decupagem tecnicamente brilhante, limpa e sem diálogos. No segundo, Doyle dirige alucinadamente um carro em perseguição a um traficante que está num trem suspenso. Essa cena, considerada a melhor perseguição de carro do cinema, foi gravada numa área de 22 quarteirões sem que os moradores fossem avisados do que estava ocorrendo, porque os produtores queriam veracidade na ação (alguns carros da vizinhança acabaram detonados por causa da “brincadeira”). Essas e outras curiosidades sobre as gravações enchem o segundo disco do DVD.

Além de meia hora de cenas excluídas, há dois documentários de 55 minutos, o primeiro feito pela BBC e o segundo produzido pelo próprio Sonny Grosso, o tira que inspirou o personagem de Roy Scheider. Ficamos sabendo, por exemplo, que William Friedkin não queria usar Hackman no papel de Popeye e que os dois brigaram quase diariamente durante as filmagens – por ironia, o ator ganharia o Oscar em sua categoria. Falta a informação, no entanto, de que Grosso, hoje trabalhando como consultor em Hollywood, foi expulso da polícia de Nova Iorque anos depois, sob a acusação de embolsar parte das drogas que apreendia.

– Operação França (French Connection, EUA, 1971)
Direção: William Friedkin
Elenco: Gene Hackman, Roy Scheider, Fernando Rey, Tony Lo Bianco
Duração: 104 minutos

4 comentários em “Operação França

  1. Rodrigo, eu assist e gostei do filme. Fiquei curioso com o final, e pergunto a você se seria recomendável a assistir a continuação. Se por acaso não tiver esse filme não precisa comprar, não. Mas eu fiquei muito curioso. Queria saber o que acontece com Popeye e o vilão francês, Alan Charnier. Apenas dê-me uma sugestão. Obrigado.

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  2. Hotelo, gosto muito do original. A continuação é bem inferior, embora não exatamente ruim. Mas o final da parte 1 foi concebido para ser dúbio mesmo. Além disso, é bom lembrar que a parte 2 consiste numa aventura independente, apenas com o policial (e não invalida uma das possibilidades de interpretação do 1, já que foi produzido com o intuito de faturar).

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  3. Gene Hackman é daqueles atores que salva o filme o diretor e o roteirista.
    Esse filme une o trabalho desse que é um dos melhores atores que eu já vi, com uma história incrível e uma direção excepcional, precisa mais?????

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  4. Olá Rodrigo.
    Interessante ler seu comentário sobre o segundo longa já que tive a oportunidade de vê-lo recentemente. Mesmo tendo ciência de que se trata de um mero exercício de suposição da minha parte me parece que os produtores por trás desta sequência almejavam obter o mesmo sucesso de “O Poderoso Chefão” que teve as duas partes premiadas com o Oscar enquanto apenas o primeiro Operação França rendeu louros (A parte II é de 1975).
    De qualquer forma, pessoalmente, classifico a continuação como sendo digna. Ainda que gaste boa parte de sua duração na tentativa de desconstruir a figura do policial durão feita por Hackman no primeiro, contém cenas de ação bem desenvolvidas e intriga pelo final seco, de onde saio com a conclusão de que nada importa ao personagem após aquele fato e eventuais consequências. Sua trajetória, os caminhos percorridos e a desenvoltura de sua obsessão são o que existem de mais importante nestes dois longas policiais.
    Um abraço!

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